Joga pra mim, vira-lata caramelo!

Nos reconciliarmos com o vira-lata que habita em nós pode ser o caminho para voltarmos a ser grandes

Um autêntico vira-lata caramelo | imagem: Lucíola Correia

A ideia era boa. Em 2014, a campanha publicitária de uma patrocinadora da Copa colocou crianças, fofas por natureza, pedindo para a seleção: “Joga pra mim!”. Elas lembravam que, diferentemente dos adultos, nunca tinham visto o Brasil ser campeão.

Com a catástrofe do Mineirão naquele Mundial, a propaganda virou meme. A geração anterior, que viu o Brasil disputar três finais seguidas e vencer duas delas, acusou as crianças de agourentas. Com sete gols no lombo, fora o baile, restava ao torcedor brasileiro fazer piadas.

Há, porém, algo simbólico naquele “joga pra mim”. Pirralhos com menos de 12 anos cobravam um título mundial como se pedissem um tênis novo. Um sorvete. Uma bola. Como se conquistar um título fosse algo banal.

Não é. A Argentina não ganha Copas há 36 anos. O Uruguai não levanta uma taça há 72 anos. E os espanhóis que esperaram 80 anos até atingir essa glória?

Nelson Rodrigues, como bem se sabe, criou o conceito de “complexo de vira-latas”. O amigo Duanne Ribeiro dissertou sobre o tema, e eu recomendo a leitura, aqui. Para Nelson, o brasileiro se sentia inferior aos outros povos do mundo. No futebol e em outras áreas. A derrota em 1950 havia sido o catalisador do sentimento, que só seria expurgado com a apoteose na Copa da Suécia.

Pois bem. Enfileiramos títulos entre 1958 e 1970, presenciamos a ascensão de um time espetacular derrotado tragicamente em 1982 e 1986, e, por fim, testemunhamos novo ciclo vitorioso entre 1994 e 2002.

Nossos jogadores são aclamados pelo talento e protagonizam as principais ligas europeias. O “complexo de vira-latas”, ao menos no que diz respeito ao futebol, foi superado.

Fora dele, vale o parêntese, essa síndrome segue nos atormentando. Após a vitória contra a Suíça na Copa do Qatar, por exemplo, surgiram as recorrentes postagens dizendo que, se vencemos o país dos Alpes no futebol, eles nos goleavam nos campos da educação e da saúde. Outro episódio de viralatismo recente foi a declaração do ex-jogador Kaká, classificando o povo brasileiro como ingrato, que trata Ronaldo Fenômeno como “apenas mais um gordo”.

No futebol, porém, o “complexo de vira-latas” foi escanteado. O brasileiro agora sofre do “complexo do pedigree”1. Com a bola nos pés, o sucesso do passado nos alçou ao status de representantes da mais nobre raça canina. Animais distintos, geneticamente privilegiados.

A autoestima do brasileiro se elevou e agora existe a certeza de somos os melhores do mundo. A nação que mais entregou craques ao esporte bretão.

Curiosamente, essa arrogância é contrária ao melhor momento do futebol brasileiro. Pelé e Garrincha não jogavam com soberba: eram imbatíveis justamente por jogarem com o desembaraço de quem bate bola com os amigos.

Os jogadores atuais entram em campo esguios, com a postura soberba do pedigree que acreditam carregar. Por baixo da armadura, porém, tremem com a responsabilidade. Ao fim das eliminações, quando desabam, vemos o preço da altivez. O peso que os jogadores carregam ao lidar com tanta expectativa.

Lembram do Tiago Silva chorando copiosamente após empate na prorrogação contra o Chile, em 2014?

Vencer virou obrigação. E de forma convincente, de preferência. Contra a Croácia, na Copa do Qatar, algo semelhante aconteceu. Após sofrer o gol de empate, a derrota iminente se anunciou na expressão dos atletas canarinhos.

A cada Copa que se inicia, a torcida e a imprensa nacionais não aceitam condição diferente do favoritismo.

Um dia antes da mais recente eliminação, foi divulgado um canto do Movimento Verde e Amarelo, a torcida organizada da seleção. O título? “Único Penta é o Brasilzão”.

E daí?

O futebol mudou. Os melhores jogadores de todos os países estão nas ligas europeias, jogando entre si. Isso aumentou o nivelamento das equipes.

Surgiram novas potências. Há seleções competitivas com histórico mais modesto do que o nosso. A Croácia sequer era um país independente quando o Brasil foi tricampeão mundial.

E daí?

Por mais que seja doloroso ser eliminado nas quartas-de-final, não dá para encarar essa derrota, e todas as anteriores, como tragédias. Salvo 2014, é claro.

São os novos tempos.

Precisamos de humildade para voltar ao protagonismo. Abaixar a bola.

É hora de sermos novamente vira-latas. Não como sinônimo de inferioridade, entretanto. Pensemos no vira-lata caramelo, essa espécie que merece lugar no panteão dos símbolos nacionais. Um animal simpático, cheio de graça, encontrado facilmente em frente ao seu comércio de preferência, ou circulando por rodoviárias e praças. O vira-lata caramelo não quer guerra com ninguém. Ele só quer sobreviver e, convenhamos, o faz com excelência.

O futebol brasileiro precisa se inspirar no vira-lata caramelo. Jogar sem a pretensão de ser o melhor. Sem achar que, por ser o Brasil, qualquer coisa que não seja a vitória é inaceitável. Com essa leveza, como um vira-lata que erra pelas ruas, superaremos os desafios. Mesmo que sejam os “brancos sardentos” da Europa, para citar novamente Nelson Rodrigues.

Nada de jogador querendo usar a seleção para ser consagrado melhor do mundo. Ou se achar favorito por gabaritar as eliminatórias sul-americanas.

Como se sabe, os cães vira-latas tendem a ter melhor saúde do que aqueles de raça, que resultam de um processo de apuração eugênica. Nos reconciliarmos com o vira-lata que habita em nós pode ser o caminho para voltarmos a ser grandes. Ao menos no futebol.

Autor

  • Historiador de formação, escritor por teimosia, mas paga as contas trabalhando no serviço público. É autor de Contos de autoajuda para pessoas excessivamente otimistas (LiteraCidade, 2014), O voo rasante do pombo sem asas (Isadora Books, 2021) e Estilhaços, no prelo. Publica crônicas no site Digestivo Cultural desde 2015.

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