Editorial – Março-Maio/2022

A guerra declarada pela Rússia à Ucrânia – guerra, sim, de agressão, embora se possa ponderar a geopolítica que deu as condições para que o conflito ocorresse e a variedade de interesses em jogo, para aquém do humanitarismo – completa no momento em que eu escrevo mais de um mês. Há poucas horas, delegações dos dois países se encontraram na Turquia e possibilidades de resolução mais concretas parecem agora à vista. Seja como for, a invasão russa já transformou o mundo, e sentiremos os seus impactos, assistiremos aos seus desdobramentos, ao longo de muitos anos por vir.

Nesta edição, tratamos diretamente de algumas questões da guerra em “Putin x Zelensky: a Guerra das Narrativas e a Busca pela Verdade“, pelo nosso editor de Política Primo Deusdeti. O artigo analisa a ascensão do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, à líder de resistência e a componente do debate político global, e aponta perguntas que são deixadas de lado conforme se constrói para ele essa nova imagem. Interessante ler esse texto em conjunto com outro de Deusdeti, “A Queda do Gigante Vermelho“, que trata do debacle da União Soviética. A Rússia do presente, claro, é fruto disso.

Indiretamente – isto é, abordando, em outros contextos, com outros focos, temas que perpassam o conflito –, contamos com o texto “The Last of Us e a Ética“, de Rafael Teixeira. O assunto, de fato, é o jogo nomeado no título, mas nele se fala de questões de ética da guerra e de como a filosofia responde a questões do tipo: é justificado matar uma pessoa se isso implicar salvar milhões? Podemos transpor esse tipo de raciocínio para outras aplicações: por exemplo, a Rússia, como se sabe, alega que sua segurança estaria em risco se a Ucrânia ingressasse na Organização do Atlântico Norte (Otan), o que intencionava fazer. Caso se aceite essa versão, isso seria um motivo aceitável para declarar uma guerra?

Outra publicação da qual podemos extrair subsídios para analisar nosso presente bélico é “Crítica Quinta Série“, escrito por Guaracy Araújo. O artigo recusa, com o filósofo Michel Foucault, o ambiente de “debate” que se estabeleceu na internet, o qual consiste na criação de trincheiras de lado a lado. A discussão sobre a guerra Ucrânia-Rússia é uma dessas temáticas sobre a qual conversamos dentro desses limites estreitos, reduzindo a possibilidade de pensamento à certeza do ataque. Transformar esse cenário, descobrir como conversar mais e melhor, é uma mudança cada vez mais premente.

Na Entressafra, nossa intenção é publicar mais sobre a guerra e temas relacionados. Acompanhem!

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Duanne Ribeiro
editor-chefe

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