No Chão da Escola: Juliana Tolosa e a pequena diferença

Ser professor, entre o descaso governamental e a oportunidade de ensinar e aprender em conjunto, dando espaço a novas maneiras de ver o mundo

A professora Juliana Tolosa

Professora quase por acidente – aproximou-se dessa prática porque, na educação, encontrou um meio não-acadêmico de percorrer o mundo da epistemologia e dos conceitos da biologia – e tendo quase abandonado a profissão – desencantada e desmotivada pelas más condições estruturais em que se dá o dia-a-dia das escolas –, Juliana Tolosa traz nesta fala uma visão crítica e política, arraigada no fazer cotidiano, sobre o que é ser uma educadora. Ao longo de experiências na rede estadual de São Paulo, e sendo hoje professora de Ciências Naturais na rede municipal, ela – que é graduada em Biologia, pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), e em Filosofia, pela Universidade de São Paulo (USP) – entendeu essa condição profissional de várias maneiras, mas hoje a define pela criação de vínculos com os estudantes e com a abertura, mesmo mínima, da possibilidade de trazer renovação.

O que te atraiu para a educação?

A educação não foi uma escolha que fiz quando ingressei no curso de biologia. Eu não pensava em ser professora e nem me interessava pelas questões relativas à educação. Mas, durante a graduação, eu fui me decepcionando e me frustrando com cada uma das disciplinas e grupos de pesquisa que tentei me aproximar mais e colaborar. Tanto a pesquisa laboratorial como a pesquisa de campo eram demasiadamente práticas e não parecia haver nenhum tipo de reflexão sobre aquilo que fazíamos. Então fui entendendo que o que me interessava e o que fazia sentido para mim era justamente o oposto, meu interesse maior era pensar os conceitos da biologia e seus pressupostos epistemológicos, e entender como a biologia, enquanto ciência, funcionava. No final da minha graduação, comecei a participar de um grupo de estudos de história e epistemologia da biologia coordenado por professoras do departamento de educação e daí veio minha primeira aproximação com o mundo da educação. Depois que me formei, dentre as possibilidades que me foram dadas, o trabalho formal mais próximo que havia desse mundo dos conceitos, sem ser a via acadêmica, era a educação. E foi assim, quase acidentalmente, que me tornei professora.

Algo já te tentou a deixar a educação? O quê? O que te faz permanecer na educação?

Eu quase deixei a educação quando estava na rede estadual. O número de jovens professores que se desencantam com a educação pública e abandonam a educação ou a rede pública é enorme. Quando comecei a lecionar e a entender melhor o que estava em jogo dentro da escola, tanto do ponto de vista pedagógico e de formação de jovens e crianças como do ponto de vista político, passei a me enxergar como professora e a me interessar pelas questões sobre ensino e processos educativos. Mas, na rede estadual, depois de alguns anos, eu me encontrava totalmente desmotivada e sem nenhuma perspectiva profissional. As condições de trabalho eram péssimas, o salário era vergonhoso, eu não conseguia pagar minhas contas básicas com o que ganhava para trabalhar 40 horas semanais, além disso, é nítido que o sistema educacional público (pelo menos em São Paulo) é feito para não funcionar e é praticamente impossível conseguir romper com essa estrutura.

Eu estava decidida a deixar a educação e a procurar outra profissão. No entanto, nessa época, os estudantes secundaristas iniciaram um movimento de ocupação das escolas estaduais em resposta a um projeto apresentado pelo então governador da época, o [Geraldo] Alckmin, de reestruturação da rede, que, na prática, levaria ao fechamento de centenas de escolas. As ocupações me deram um fôlego extra, cheguei a acreditar que depois delas as coisas mudariam na rede. Mas isso não aconteceu, na verdade, aconteceu, mas para pior. E foi aí que decidi mudar, mas não de profissão e sim de rede. Deixei a rede estadual quando ingressei na rede municipal, onde estou até hoje, onde encontrei melhores condições e melhor salário e onde recuperei meu interesse pelo meu trabalho. As coisas não são fáceis em nenhuma escola pública, na prefeitura não é diferente, mas, pelo menos nela eu consigo pagar minhas contas e voltei a gostar do que faço (e tenho gostado cada vez mais).

Às vezes os professores criticam certas opiniões sobre a escola indicando que os críticos não conhecem o “chão da escola”. Como você define esse chão da escola? O que ele tem de particular?

A meu ver, essa expressão o “chão da escola”, que, na verdade, é uma adaptação da expressão “chão de fábrica”, e muito apropriada por sinal, procura denunciar o descolamento que existe entre a realidade das escolas e as propostas de soluções para os problemas da educação proferidas por gestores públicos, especialistas (estudiosos, psicólogos e, mais recentemente, médicos e pediatras) e os representantes dos estudantes (pais e responsáveis). A impressão que temos é que todos sabem o que precisa ser feito para mudar o péssimo resultado de desempenho dos estudantes brasileiros nas avaliações externas e internacionais, porém, nenhuma delas considera aquilo que professores e profissionais da educação apontam como problemas. Não há interlocução nenhuma com quem trabalha na escola e conhece as demandas mais urgentes e os problemas que, de fato, travam os avanços no processo de aprendizagem dos estudantes. Não somos ouvidos por nenhum dos segmentos, principalmente por aqueles que elaboram as políticas públicas, mas somos constantemente responsabilizados pelo fracasso escolar.

Acho que o exemplo mais recente que posso citar foram os protocolos de segurança sanitária que foram instituídos para as unidades educacionais e que se mostraram inexequíveis. Para se ter uma ideia, no final de 2019, a prefeitura de São Paulo refez os contratos com as empresas terceirizadas de limpeza, o que acarretou na redução das equipes de limpeza. Na minha escola, que atende mais de mil estudantes divididos em três turnos (minha escola funciona das 7h às 23h), ficamos com apenas três funcionárias de limpeza. Antes da pandemia, nós já alertávamos que esse número era insuficiente para manter a higienização adequada dos espaços. Durante a pandemia, período em que as necessidades de limpeza e higienização aumentaram muito, esse contingente de trabalhadoras se tornou ainda mais insuficiente. Era impossível garantir o cumprimento dos protocolos de limpeza. Outro exemplo que posso citar, ainda desse mesmo período, diz respeito à oferta das refeições. Em algumas unidades que possuem um refeitório muito pequeno e um número muito grande de estudantes, para garantir o cumprimento dos protocolos que previam distanciamento, limpeza e intervalo de tempo entre os agrupamentos durante as refeições, o almoço precisaria começar a ser servido as 8h e só terminaria as 12h, algo impossível de ser feito. Um outro exemplo tão absurdo quanto os anteriores foi a proposta de reabertura das creches e CEIs [Centro de Educação Infantil] com número reduzido de estudantes, mas com distanciamento. Como garantir o distanciamento de 1,5m com bebês e crianças pequenas?

Acho que são esses problemas (e muitos outros) que apontamos quando dizemos que não é possível pensar a escola e a educação sem considerar as dinâmicas de tempo e espaço da escola. Isso porque estou considerando uma situação bem específica como foi o contexto da pandemia. Em outros contextos, existem dinâmicas sociais, culturais e pedagógicas que seriam melhor consideradas se fossemos ouvidos.

Ainda nesse sentido, o que as políticas públicas ou as ações dos governos poderiam entender melhor na abordagem das questões escolares?

Não sei se é falta de entendimento ou se é falta de interesse político. Os problemas não são novos, pelo contrário, eles atravessam boa parte da história da educação no Brasil. O sistema educacional brasileiro sempre foi cindido entre escolas de matriz ilustrada e europeia voltadas para a formação dos filhos da elite e escolas voltadas para a educação popular com um programa mínimo de alfabetização. Pelo pouco que estudei, me parece claro que, desde as primeiras escolas fundadas pelos jesuítas, nunca foi implementado um projeto educacional robusto voltado para a educação popular. Como tantos outros direitos, a educação também foi tratada como um privilégio de poucos.

O que é ser uma educadora?

Não sei o que é ser uma educadora. Na verdade, essa pergunta teve, para mim, respostas diferentes ao longo desses meus 12 anos de trabalho docente.

Acho que ser educador não tem relação nenhuma com dom ou vocação, também não tem nenhuma relação com o amor entendido como um sentimento romântico. Algo que também se desmancha diante da realidade concreta da escola pública é a ideia de que o educar pode ser um caminho possível para a realização de uma vontade imensa de transformação social. Hoje, se eu consigo estabelecer um vínculo com os estudantes, trocar, ensinar e aprender algo que faça uma pequena diferença em nossas vidas ou na forma como entendemos o mundo, sinto que o meu trabalho foi feito.

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