Um réquiem para o 7 a 1

O plano era construir um novo país. Deu tudo errado

A torcida do Brasil em um dos jogos da Copa de 2014

O Brasil tem o péssimo costume de não lembrar das – e de não aprender com – suas tragédias. Não é necessário ir longe para sustentar essa afirmação. Basta lembrar de Mariana e, anos depois, Brumadinho. Ou da anistia aos militares no pós-ditadura e da nova anistia (que vem sendo costurada) aos militares nos pós-8 de Janeiro. É verdade que, perto das carnificinas mencionadas, o 8 de Janeiro parece um delito menor, afinal, ninguém foi assassinado. Mas o que se tentou fazer, ferir de morte a democracia, não pode ser tratado com um fato isolado ou como uma simples revolta de um bando de insensatos.

Veja também:
>> “O viralatismo às avessas e as lições não aprendidas do 7 a 1“, por Diogo Salles

Diante desses acontecimentos, evocar o resultado da semifinal da Copa do Mundo de 2014, o nefasto 7 a 1 da Alemanha contra a seleção brasileira, datado de 8 de julho de2014, pode parecer uma insensatez – e talvez seja –, mas é importante darmos nomes aos bois e tentar aprender alguma coisa com eles, não “somente” matá-los e viver como se nada tivesse acontecido. O 7 a 1 não foi apenas um placar de jogo de futebol. O 7 a 1 não foi um simples “tropeço”, não foi um “acaso”, não foi uma das milhares de surpresas do futebol. O 7 a 1 foi a “coroação” de um projeto de país que naufragou. Foi a “cereja do bolo” de um sonho que nos últimos instantes tornou-se um pesadelo. O 7 a 1 foi um acidente que – muitos sabiam – estava prestes a acontecer – e aconteceu.

Aconteceu. E, no entanto… onde estão registradas as memórias dessa tragédia? Onde estão os documentários? Os livros? O(s) filme(s)? Não poderia haver um filme sobre o 7 a 1? De que adianta esconder nossas tragédias? De que adianta ignorar nossos erros?

Não há um livro sobre o 7 a 1. Não há um filme sobre o 7 a 1. Há apenas um documentário – corrijam-se se eu estiver errado – sobre o 7 a 1 (Oito de julho, jogo 61, lançado em 2018). Existem, óbvio, diversas matérias, capas de revistas e jornais. Mas não há “produtos”, digamos assim, na prateleira. Não temos uma prateleira sobre o 7 a 1.

E não é por acaso. É uma escolha. Nós, enquanto país, escolhemos não olhar para as nossas tragédias. Parecemos acreditar que, depois de uma tragédia, tudo irá melhorar. As medidas necessárias serão tomadas por quem de direito e nada parecido acontecerá novamente.

Boate Kiss, 27 de janeiro de 2013. Ninho do Urubu, 8 de fevereiro de 2019.

O 7 a 1 não foi um simples desvio de percurso. Não foi apenas um ponto fora da curva. Ele foi o resultado de escolhas que realizamos enquanto país. Sim, no plural: eu, você e toda a sociedade brasileira capaz de responder por seus atos.

O futebol está ligado à política. Futebol é política. Existem eleições dentro do futebol. Para a presidência de clubes, de federações, da confederação. Se existem eleições, existem promessas, existem campanhas, existem financiamentos… existem corrupções. Existem corruptos. Nós sabemos disso. E o que fazemos?

O 7 a 1 está envolto em corrupções. Diz-se que houve corrupção no processo que levou o Brasil a ser escolhido como sede da Copa de 2014. E sabe-se que houve corrupção na construção das obras para a Copa de 2014. Há tanta corrupção envolvida que até a operação que investigou e puniu crimes ligados de alguma forma à Copa de 2014 (refiro-me às empreiteiras que participaram da construção de obras para o evento), a Lava Jato, foi corrompida, e justamente por quem não deveria ser em hipótese alguma: pela própria “justiça”: Sergio Moro, Deltan Dallagnol e seus cúmplices.

Lembro-me, agora, da figura de José Maria Marin, flagrado no início de 2012 colocando no bolso uma das medalhas destinadas aos campeões da Copa São Paulo de Futebol Junior, vencida naquele ano pelo Corinthians. José Maria Marin foi preso, em maio de 2015, na Suíça, juntamente com seis diretores da FIFA, todos acusados de corrupção. José Maria Marin foi presidente da CBF entre 2012 e 2015. José Maria Marin foi o presidente do Comitê Organizador Local da Copa de 2014, financiado pela FIFA. José Maria Marin foi governador de São Paulo, deputado estadual e vereador. Futebol é política.

Quando pensei em escrever sobre os 10 anos do 7 a 1, minha ideia era fazer uma relação entre a tragédia futebolística e o despertar do gigante adormecido acontecido cerca de um ano antes, evento que conhecemos como “as jornadas de junho de 2013”.

Muitos acreditaram que as jornadas de junho eram o começo de algo transformador, o início de uma nova etapa da história do Brasil, o marco de um novo tempo, em que a população cobraria efetivamente um país melhor àqueles que o governam. A cena em que manifestantes ocupam o congresso brasileiro – externamente e sem violência ou depredação – pareceram, naquele momento, sinal de que um novo país estava por vir. O tão sonhado “país do futuro”. Infelizmente, pouco tempo depois descobrimos que aquela foi a semente de um golpe de estado à paisana e o marco do retorno explícito do fascismo ao cenário político brasileiro.

Mas eu dizia que, quando pensei em escrever sobre os 10 anos do 7 a 1, minha ideia era fazer uma relação entre a tragédia futebolística e o despertar do gigante adormecido acontecido cerca de um ano antes, evento que conhecemos como “as jornadas de junho de 2013”. Isso, essa ideia, me veio há pouco mais de um mês, e em momento algum pensei em citar as tragédias listadas no início deste texto. O plano era outro. As minhas indignações, preocupações e lembranças mudaram o curso do texto enquanto ele era escrito. E assim foi com o 7 a 1. O plano era outro.

O plano era ganhar a Copa de 2014, afastar de vez o fantasma do Maracanazo – como o mundo do futebol se refere à derrota que sofremos para o Uruguai, no Maracanã, na final da Copa de 1950, por módicos 2 a 1 – e, de quebra, construir um novo país.

Deu tudo errado.

Na política, vencemos, temporariamente, o fascismo em 2022, mas tudo continua muito incerto e os fascistas continuam nos fazendo sombra. Temos talvez o pior congresso da nossa história, apesar de termos um dos melhores executivos – ao menos em tese – da nossa história. No futebol, temos uma série de casos e suspeitas de fraude relacionados a casas de apostas e uma seleção brasileira aos frangalhos. Nossos melhores jogadores vão para a Europa ao completar 18 anos e retornam ao Brasil somente no fim de suas carreiras – alguns para serem presos por crimes hediondos.

Não é o que merecemos, nem na política nem no futebol. Quando vamos mudar isso? O que estamos fazendo para mudar?

Autor

  • Autor dos livros O escritor premiado e outros contos e Mais um para a sua estante, e um dos contistas da antologia O livro branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bonus track. Mora em Feira de Santana, Bahia.

    View all posts

Compartilhe esta postagem:

Participe da conversa