De onde vem o olavismo? Sobre a necessidade da academia fazer uma autocrítica

É preciso olhar para nós mesmos e superar essa incapacidade da academia de criticar a si, as atitudes e estruturas que mantém em seu interior

Há não equivalência de discurso, mas de atitudes, entre a academia e o olavismo | imagem: tanakawho

texto também publicado na newsletter do autor

Acho muito engraçado as pessoas criticarem o Olavo e a sua “seita” por falarem mal de coisas que nunca leram, criticarem mais pelo nome do que pelas ideias, e sempre de acordo com a filiação ideológica das pessoas que são criticadas…

É sério mesmo que vocês não conhecem nenhum outro lugar que funcione desse jeito? Vocês vão ter a cara de pau de dizer, realmente, que isso não parece familiar para vocês de outras experiências?

Veja também:
>> “Ex-aluno de Olavo, espero que outros alunos percebam como percebi: não há nada ali“, Horácio Neiva
>> “Mapa do Espectro Político da Direita“, Rafael Nascimento

A academia é um lugar de poder, é um lugar elitista, e por mais que algumas coisas tenham melhorado (até mesmo muito), ela não deixou de ser isso. E já está na hora da gente admitir esse fato não apenas da boca para fora, e não apenas quando é conveniente. É preciso reconhecer o elitismo da academia e sua desigualdade mesmo quando cutuca na ferida. Porque isso é condição de possibilidade para defender o que, na universidade, possibilita ou pode possibilitar a luta por uma sociedade mais justa e menos desigual.

Por isso, é necessário reconhecer: a atitude de criar uma “seita” em torno de uma figura de autoridade, da qual não se discorda, por medo de exclusão e por querer o sentimento de superioridade de fazer parte de uma “elite” intelectual, não foi criada pelo Olavo (De novo: vocês conseguem me dizer, com sinceridade, que nunca viram esse tipo de atitude na academia?). Ele só ofereceu esse sentimento para quem não tinha acesso ao lugar em que ele foi originariamente cultivado, e do qual o seu público foi excluído.

Não estou concluindo, com isso, que há uma equivalência do discurso — que haja, por exemplo, um mesmo nível de rigor ou sistematicidade entre os discursos que circulam na academia e os que circulam no olavismo. Estou dizendo que há uma equivalência das atitudes, e que, mesmo que algumas delas tenham sido levadas a seu extremo pelo Olavo, isso não significa que foi ele quem as originou.

É isso o que muita gente ignora ao falar do assunto: a “rebelião” do Olavo contra a academia foi sempre uma falsa rebelião e uma vontade de pertencimento, não apenas porque, para lidar com essa exclusão, recusa esse lugar e afirma fazer diferente (que parece ser o único lado que todos veem), mas também porque, ao mesmo tempo, reproduz e mimetiza as atitudes que associa com o lugar de prestígio de que se foi excluído, por não compartilhar do mesmo discurso. Vontade de poder se sentir parte de uma elite intelectual que só pode ser sublimada adotando as mesmas atitudes dessa elite em um lugar que não fosse o dela (e a gente sabe bem, hoje, que “lugar” é esse) com um discurso que não fosse o dela, e, pelo contrário, que fosse acessível para os que se encontram nesse outro lugar. O Olavo não é a origem das atitudes que mais criticamos em seu modo de fazer circular ideias. A academia que é. Quanto mais cedo reconhecermos isso e olharmos para o nosso próprio umbigo, mais cedo poderemos de fato combater aquilo que queremos combater.

E, precisamente pelo que eu disse, insisto: esse combate não pode se dar apenas no nível do discurso, no nível do “sobre o que” falamos. Tem que se dar no nível das atitudes — e, no nível das atitudes, sinto muito, estamos reproduzindo muito, ainda, o olavismo, e por uma razão simples: é o olavismo que, na verdade, reproduz uma atitude cultivada e consolidada na academia primeiramente, de selecionar quem ou o que merece um estudo sério e, daquilo que se considera não merecer, simplesmente falar mal e criticar, mesmo sem ter nenhum conhecimento ou nenhuma leitura do assunto.

Prova disso: todos os textos que li até agora sobre a morte do Olavo não se propõem, em nenhum momento, a, de fato, criticar suas ideias, não importa quais elas sejam. Nenhuma discussão de ideias, nenhum argumento com razões que busque refutá-las, nenhuma explicação formulada de modo argumentativo sobre quais são os problemas delas — na verdade, quase até mesmo nenhuma menção a, afinal, que ideias são essas. E já adianto: não vai ser isso que vocês vão ver neste texto aqui também. Primeiro, porque, com toda sinceridade, não li, ou quase não li nada do autor. E o primeiro passo é a gente poder reconhecer, com sinceridade, isso. E lembrar que esse medo de reconhecer o que a gente não leu e o que a gente não sabe, por medo de não parecer “inteligente” o bastante, não veio do Olavo — veio da academia, mesmo. Por isso, chega de focarmos apenas no que falamos sobre o Olavo, mas foquemos em como falamos, e em adotar uma atitude realmente crítica ao falar, em que nos disponhamos, afinal, a ler aquilo que queremos criticar.

Segundo, e mais importante: porque este texto não é um texto para criticar o Olavo. É um texto para criticar a gente. Porque é claro que eu também já fiz tudo de que estou reclamando aqui. Eu já reproduzi todas essas atitudes. Mas esse é o ponto: é preciso avaliar o quanto certas atitudes cultivadas no contexto da cultura acadêmica pariram o olavismo. É preciso, antes de tudo, portanto, poder voltar o olhar para nós mesmos, e superar essa incapacidade, que, às vezes, parece crônica, da academia de criticar a si mesma, de voltar o olhar não simplesmente para o seu discurso, mas para as atitudes e estruturas que ela mantém em seu próprio interior. Chega, por exemplo, de ficar criticando, no nível do discurso, a cultura do empreendedor de si, e não perceber que, no nível das atitudes, não há maior empreendedor de si do que o pesquisador acadêmico (e, não por acaso, uma das áreas com maior índice de doenças psicológicas é a pós-graduação). Chega de ficar criticando os outros por falarem daquilo que não estudaram, mas nos sentirmos muito confortáveis de falarmos mal de quem e do que não estudamos ou não conhecemos (não importa se se está falando aqui de autores que não seguem nossa linha ideológica ou, por exemplo, de elementos de cultura popular ou simplesmente não-acadêmica que são desprezados pelos acadêmicos).

Talvez alguém queira objetar que seria ingenuidade achar que parte importante do problema seria uma certa cultura de discussão (ou falta de) acadêmica, já que o que realmente importa são as condições materiais do Brasil que tornaram o “olavismo” possível. Mas eu, sinceramente, acho que esse tipo de argumento é a prova mais expressiva daquilo que eu estou querendo mostrar. Afinal, ele parece pressupor que a academia não faz parte das condições materiais do próprio Brasil, como se o que ocorre nela se desse em um lugar à parte do país, de modo que o que é feito aí não apenas não é influenciado por essas condições de desigualdade e privilégio, mas também não poderia mesmo ser uma parte fundamental do que constitui essas condições. Em uma sociedade em que as condições materiais dependem fundamentalmente da circulação de informações e discursos, a gente não pode tratar o modo com que dialogamos, ou mesmo se dialogamos, como se isso fosse uma mera questão de “idealismo” — idealismo é comprar, justamente, a tese idealista de que o modo com que nossos discursos são construídos e circulados, ainda mais em uma “sociedade da informação”, não é parte das condições materiais, inclusive de desigualdade e de privilégio, que definem os modos de relação nessa sociedade. E, para superar essa ingenuidade, temos, ao mesmo tempo, de ir além do caráter meramente descritivo do discurso — temos de parar de olhar apenas para “o que” falamos, e olhar para “como” falamos, que atitudes reproduzimos ao falar, e sermos capazes, por fim, de nos posicionarmos de maneira autocrítica em relação a essas mesmas atitudes.

Lucas Nascimento

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