O viralatismo às avessas e as lições não aprendidas do 7 a 1

Nosso mecanismo de defesa: não são os outros que nos vencem; somos nós que perdemos, por algum descuido

imagem: Diogo Salles

 

Hoje completam-se dez anos do maior trauma do futebol brasileiro neste século. As lições ainda não aprendidas com o 7 a 1 nos obrigam a voltar na história e olhar para o maior trauma do futebol nacional no século passado: a derrota para o Uruguai na final da copa de 1950. Exceto por jogar em casa nas duas oportunidades, esportivamente, Maracanazo e Minerazo não guardam muitas semelhanças entre si. Porém, vale considerar alguns contextos e repercussões que envolveram ambos.

Veja também:
>> “Um requiém para o 7×1“, por Rafael Rodrigues
>> “Contra o Cão com Pedigree, o Pombo“, por Duanne Ribeiro

Em 1950, embora ainda virgem de títulos mundiais, o Brasil esbanjava confiança. O time voava em campo e fazia uma belíssima campanha. Parecia que a hora tinha finalmente chegado. A derrota veio em circunstâncias bastante peculiares, que nem os deuses da bola puderam explicar. A ausência de esclarecimentos (ou de analgésicos) daria origem a bordões como “quem não faz, toma”, que entrariam para o glossário dos boleiros.

Já em 2014, a única seleção pentacampeã do mundo jogava sob a pressão de conquistar o sexto título em casa. A campanha brasileira não inspirava muita confiança na torcida – excetuando-se, claro, os pachecões de plantão, cuja fé segue inabalada até hoje. O time já tinha passado por um fio nas oitavas de final contra o Chile e a imagem de Felipão amparando um Thiago Silva aos prantos chocou os observadores mais atentos.

Aquilo não é postura de um capitão numa copa do mundo. Ninguém consegue imaginar Dunga, Cafu, Sócrates ou Carlos Alberto Torres desmoronando dessa forma diante de seus companheiros. Estabilidade emocional nunca foi especialidade brasileira, mas o time de 2014 era um trem desgovernado rumo ao desastre. Por mais que as pessoas quisessem acreditar que a choradeira dos jogadores durante a execução do hino nacional fosse um sentimento patriótico aflorado, a realidade mostrava um time com os nervos em frangalhos.

Claro que os negacionistas da bola não perderam tempo em encontrar explicações supostamente plausíveis para a goleada: a ausência de Neymar, o “apagão tático” da equipe, a desastrada escalação de Bernard, a falta de meio-campo… Na esteira dos bordões de Galvão Bueno, o fato é que, aos 29 minutos do primeiro tempo da semifinal contra a Alemanha, o jogo já tinha virado passeio e o placar já marcava 5 a 0 para os visitantes. Outro fato é que é preciso fazer muito esforço para lembrar de uma seleção brasileira tão ruim em copas. Até a seleção lazarenta de 1990 tinha seu charme perto desta de 2014.

Mas falemos agora de repercussões. Voltando a 1950, o estresse pós-traumático se converteu em caça às bruxas. O goleiro Barbosa acabou se tornando vítima de uma injustiça que não encontra paralelo em nossa história. Os anos seguintes foram de intenso debate sobre o que deu errado e porque o Brasil, apesar de já ser um celeiro de talentos, não conseguia se impor diante dos grandes do futebol mundial.

Surge aí o famoso “complexo de vira-lata”, cunhado por Nelson Rodrigues. “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”, escreveu, para explicar a inferioridade voluntária do brasileiro frente ao mundo. O complexo só seria erradicado – ao menos futebolisticamente – oito anos depois, com a conquista de nossa primeira taça, com Nelson celebrando o atrevimento daquele menino de 17 anos diante dos outrora donos da bola.

Findo o viralatismo, vieram outros quatro títulos, todos contando com craques que escreveram seus nomes na história e conquistaram um lugar na prateleira abaixo de Pelé. Foi assim, sempre contando com esses talentos nas horas decisivas, que o Brasil se impôs como um dos times mais temíveis do mundo. Mesmo em má fase, ninguém descartava o time canarinho como um dos favoritos – afinal, nós sempre contamos com esses candidatos a gênio em nossos escretes.

Nosso último título, em 2002, contava com três desses jogadores decisivos: Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Quando um não estava bem, tinha outros dois para resolver a parada. Ainda era o tempo em que no futebol podia se valer mais da técnica, do talento e da capacidade de improviso de seus craques.

Hoje, os bons resultados são conquistados através da união do talento com a força coletiva, a consciência tática e o preparo físico, que fazem com que os times rendam em alto nível durante os 90 minutos. Mesmo contando com jogadores que se destacam na Europa, a seleção não tem conseguido trazer essa nova mentalidade para construir equipes coesas, de forma a unir essas evoluções táticas e técnicas ao talento.

Em 2014 o futebol já caminhava para essa mudança estrutural, mas o que se viu nas últimas três copas foi o time brasileiro repetindo a velha fórmula e esperando Neymar resolver o jogo em um lance individual.

O negacionismo pós-7 a 1 não se resumiu a encontrar justificativas patéticas para o vexame. É algo mais profundo, encravado na alma brasileira. É um mecanismo de defesa que é acionado, toda vez que a vergonha se abate sobre nós. Encontrar desculpas para a derrota não basta. É preciso também desmerecer os times que nos superaram. Afinal, se somos e sempre seremos os melhores do mundo – e se vamos para as copas apenas para confirmar nosso favoritismo –, não são os outros que nos vencem: somos nós que perdemos, por algum descuido.

Com raríssimas exceções, todas as nossas derrotas em copas são facilmente explicáveis: o adversário nos superou porque foi mais competente, porque estava melhor preparado, porque possuía uma boa estratégia, porque teve mais força (talvez até tenham jogado melhor, já pensaram?). Foi assim contra a Croácia em 2022, contra a Bélgica em 2018, contra a Holanda em 2010… e foi assim, pasmem, na final contra a França em 1998! Sim, o negacionismo vem de longe. O brasileiro recusou-se a reconhecer o mérito dos franceses e deu asas a uma das teorias da conspiração mais escalafobéticas dos anais futebolísticos.

Por essas razões que podemos dizer, sem fazer Nelson Rodrigues se revirar no túmulo que, hoje, o futebol brasileiro vive uma espécie de viralatismo às avessas. Hoje não cuspimos mais em nossa própria imagem. Resolvemos tudo com um filtro de Instagram, que nos torna os melhores do mundo sem precisar entrar em campo.

Diante de um quadro psiquiátrico dessa gravidade, quem ainda conseguiu preservar alguma lucidez deve estar olhando com carinho para aquele time de 2002, pensando que este será o nosso último título em copas por um bom tempo.

Autor

  • É graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Projetos Sociais e Políticas Públicas. É jornalista, cartunista e autor da Trilogia de Charges. Colaborou com veículos como Jornal da Tarde, Estadão, ESPN e Placar.

    View all posts

Compartilhe esta postagem:

Participe da conversa