Ciência e Startup: uma aventura terrível

Entre o coach empreendedor e a vontade de fazer ciência, uma crônica sobre o que é propor ciência em um mundo liberal

Adramelech, um demônio pavão, ilustração do Dicionário Infernal | imagem: Cesar Ojeda

Digníssima leitora e digníssimo leitor, eu não poderia começar esse singelo relato de experiência sem citar diretamente a fala do professor de Direito José Geraldo de Souza proferida à parlamentar bolsonarista Carolina de Toni:

– Você não vê o que existe, mas o que recorta da realidade.

Também não poderia deixar de dizer que os nomes do local onde ocorre o relato a seguir e da universidade em questão foram trocados por nomenclaturas fantasia, para nenhum processo bater a nossa porta.

Pois bem; fique confortável que lá vem história.

Ao final da aula de Administração de Bibliotecas a professora da disciplina voltou seu olhar para mim e para uma amiga e disse: Vocês deveriam enviar um projeto de startup para a mostra de inovação que vai acontecer no espaço Amálgama. Admito que, para qualquer coisa, não tenho coragem de dizer “não” à professora, e por muitos motivos; desde o respeito a pessoa e a profissional que ela é, até o medo de tomar um puxão de orelha que estique o lóbulo ao ponto do mesmo ser usado como carpete… e também admito que deveria ter tomado vergonha na cara e ter dito um NÃO tão retumbante como um trovão!

O espaço Amálgama, localizado dentro da Universidade das Mentiras Verídicas, é um lugar onde a inovação e o empreendedorismo andam de mãos dadas. Sim, questionável desde o princípio. Ainda mais quando o princípio é a existência do capital e a realidade é a procura por um recurso a ser explorado. Subvertendo a realidade da exploração propusemos algo afrontoso à existência do mercado: um serviço para a Ciência.

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Projeto de startup escrito, enviado por e-mail e, depois de uns cinco dias, aceito entre os 40 selecionados para a próxima etapa. E foi a partir daí que a existência de uma realidade paralela se apresentou a nós em uma das formas mais abjetas que afrontam a existência humana: o coach empreendedor.

Comecemos pelo seu habitat, o espaço Amálgama. Uma mistura de lugares de recreação infantil de shoppings centers (onde os pais abandonam deixam suas crianças para um ligeiro descanso) com salas temáticas que ostentam em suas portas grandes adesivos com frases motivacionais (?) de “jênios” dos negócios (como um tal de Jobs e um certo Musk). E para dar uma cara de local de trabalho infames spots luminosos ficam dependurados em canos de metal presos no teto, numa tentativa torpe de simular a iluminação das fábricas. Interessante que o piso nada tem a ver com o chão das fábricas, não pela falta das marcas do caminho do trabalhador, mas pelo impecável apelo de consultório psiquiátrico.

Eu e minha amiga olhávamos em volta procurando algo que remetesse à universidade, por exemplo: uma estante com livros simbolizando a pedagogia ou a filosofia; um modelo de laboratório de química, ou de física, ou de biologia; ferramentas utilizadas nas engenharias ou na geografia; softwares para as exatas e as novidades digitais e eletrônicas ou instrumentos utilizados pela área da saúde ou do audiovisual. Não encontramos nada. Ok, pensamos. Aqui é um lugar, dizem, de ideias arrebatadoras. Mas de onde elas surgem?

Segundo o filósofo Gaston Bachelard, as ideias são esculpidas pelas experiências que temos ao longo de nossa vivência no mundo e são influenciadas pelos contextos histórico e cultural no qual estamos inseridos. Para o sociólogo da ciência Thomas Kuhn o processo psicológico, social e histórico, as tradições científicas e o paradigma dominante são fatores predominantes para o surgimento das ideias. Já o escritor Rubem Alves iria dizer, em alto e bom som, que as ideias surgem da nossa capacidade de imaginar, questionar e refletir a partir do diálogo entre a nossa experiência sensorial, a intuição e a memória construída entre nós e o mundo ao nosso redor.

Abraxas, um demônio coroado, ilustração do Dicionário Infernal | imagem: Cesar Ojeda

E a partir do pensamento desses três pensadores olhávamos um para o outro nos perguntando, em silêncio, o que não estávamos conseguindo ver. E, então, do nada, uma voz muito semelhante a do diabo do desenho das Meninas Superpoderosas nos diz: Olá, vocês estão aqui para a próxima fase do Amálgama? Sim, respondemos. Venham por aqui, disse a sibilante língua. E a caricata persona com seu sorriso de Taz-Mania, eloquente andar de Marquês de Rabicó e vestimentas de casual friday nos levou a sala de audições para a próxima fase.

A maioria das pessoas estavam na sala para apresentar seus projetos eram estudantes de graduação das mais diversas faculdades da universidade e tinham o desejo de tornarem-se empreendedores. Contamos apenas quatro professores que não aspiravam ter um negócio, mas sim propagar suas ideias com o viés de melhorar os processos de trabalho de profissionais da enfermagem e melhorar o processo de diagnóstico de câncer de pele. Ou seja, eles não visavam explorar commodities ou incitar um desejo de consumo… queriam mesmo era ajudar o sistema de saúde.

O semiólogo Umberto Eco argumenta que as formas de conteúdo são elementos fundamentais na comunicação, pois influenciam a maneira como uma mensagem é interpretada e compreendida pelo receptor. Ele destaca que as formas de conteúdo podem variar amplamente, desde as estruturas mais simples e convencionais até as mais complexas e inovadoras. Eco também ressalta que as formas de conteúdo não são fixas ou imutáveis, mas evoluem ao longo do tempo, refletindo as mudanças na cultura e na sociedade. Elas podem ser influenciadas por tendências estéticas, correntes artísticas, contextos históricos e tecnologias emergentes.

Os coachs empreendedores que compunham a banca avaliadora dos projetos só conseguiam balbuciar as mesmas coisas para todos os grupos (incluído o nosso): Vocês amam a dor do seu cliente? Qual a persona que vai comprar seu produto? O oceano está azul ou vermelho? Isso pode ser um aplicativo? Vocês já fizeram a análise de mercado no Google Trends? Vocês já zeraram sua cabeça? Já se livraram do ego? Vocês conhecem a metodologia Lean Startup? Como vocês querem conquistar o mundo?

Até mesmo o Pink e o Cérebro ficariam sem respostas para essas perguntas. Mas não se preocupe startupeira leitora e startupeiro leitor, pois, e para a sua sorte, anotamos as brilhantes respostas dos coachs!

Seguem: Amo a dor!; Qualquer persona!; Depende da quantidade de tubarões!; Tudo pode ser aplicativo!; Viva o Google Trends!; Não pensar é necessário!; Ego?!; Metodologia de sucesso! e, fechando com chave de ouro golden key, O mundo já é meu!.

Fomos um dos últimos grupos a apresentar e, com o costume de assistir diariamente às aulas da nossa graduação, só respondemos como anotamos e passamos para a próxima e última fase. Contudo, recebemos um alerta dos coachs: ninguém se interessa por ciência, ela não se vende e ninguém compra ciência, pois ela não interessa aos administradores. Depois de ouvir esse dourado conselho que deixaria corado até mesmo Frederick Winslow Taylor, nos livramos do ego e andamos pelo local com o intuito de conversar com os outros participantes para tentar entender melhor o que ali se passava.

A realidade era: estávamos participando de um hackathon – uma espécie de Jogos Vorazes de futuros empreendedores – e precisávamos aprender a explorar desejos (Kevin Roberts manda abraços) e transformá-los em produtos descartáveis expandindo sua produção além do planeta Terra (Milton Friedman manda beijos) enquanto cultuávamos o deus mercado.

Lechies, um demônio de casaca, ilustração do Dicionário Infernal | imagem: Cesar Ojeda

O sociólogo Bruno Latour diz que os deuses fatiches são entidades ou ideias que atribuímos poderes mágicos ou sobrenaturais, tratando-as como se fossem entidades reais e objetivas. Esses deuses fatiches são elevados a um status sagrado, inquestionável e intocável, sendo capazes de ditar normas e influenciar nossas vidas. Latour alega que, em vez de tratar esses deuses fatiches como entidades transcendentes, devemos reconhecer sua natureza construída e contingente. Ele propõe uma abordagem mais reflexiva e crítica em relação a essas entidades, questionando seus fundamentos e analisando como elas são construídas e mantidas por meio de redes de poder e discursos.

Na tentativa de explicar para os jovens estudantes e aspirantes a empreendedores o que é Scielo, BDTD, Portal de Periódicos Capes, Método Científico, Biblioteca, Iniciação Científica, Programas de Pós-graduação e afins, as batidas de palmas começaram e como por milagre a atenção dos estudantes voltou-se aos coachs. Os uivos dos futuros Lobos de Wall Street tomaram todo o lugar de uníssono. O culto ao deus mercado tem início. A carnificina da fase final da competição é tanta que o choro por não saber o que pode acontecer na vida se for perdida aquela oportunidade de vencer e ter o dinheiro dos sponsors toma conta de alguns; e a alegria de ver a desgraça no rosto dos losers toma conta dos autointitulados pregadores liberais sentados à beira de uma longa mesa como se fossem canibais de cabeças a espera de um banquete (Beth Thatcher morreria – de novo – de inveja).

Confesso que meu ateísmo perante o deus mercado apenas enxergou a existência de estudantes sendo humilhados por uma banca de pessoas que exploram a mente e o corpo dos outros enquanto são afagados por coachs que na realidade são empresários fracassados por não terem tido a coragem dos maus caráteres: ultrapassar a linha ética da humanidade e se render ao liberalismo. Coach não é professor, banca de hackathon não é algo humano.

Qual era o nosso projeto, afinal? Ora, ajudar os periódicos científicos a se livrarem da crucificação imposta pelo livre mercado! E quem venceu a batalha das crenças? Admito que não sei se foi a estupidez humana ou o recalque mercadológico. Honestamente, não sei a diferença entre eles. Sei que, derrotados, eu, minha amiga e os professores saímos de fininho enquanto o culto ao deus mercado chegara ao seu ápice: fotos com um cheque saído do jogo Banco Imobiliário e afagos do reitor da Universidade das Mentiras Verídicas.

Enquanto dirigia de volta para casa, rezei para Nietzsche e pedi com toda a fé que tenho: volte a vida e escreva O anti-startup!

Autor

  • Meu diploma diz que sou biólogo. Minha curiosidade sobre documentação me disse para procurar a graduação de Biblioteconomia. O futuro imaginado vislumbrou um biobliotecário. Enquanto o futuro não chega, você pode me encontrar na Biblioteca Central César Lattes da Unicamp (eu trabalho lá!) para conversar sobre o que você quiser, sou muito curioso (e às vezes não falo tanta bobagem).

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