Cultura

Reggae, Soul e Caranguejada na Cidade do Prédio Torto

“Negamos a internet e apoiamos sua extinção, este monstro de fibra ótica e pornografia. Na realidade, usamos das fontes mais porcas e preguiçosas para nossos trabalhos meia bunda”

Deles, o colunista da Folha de S.Paulo e crítico cultural Marcelo Coelho disse: “deliberadamente, com muita ironia e arte, refazem a arte da propaganda política dos anos 30”. O Coletivo Action, formado por Raphael Morone e Rui Costa, é sediado em Santos, litoral de São Paulo, realizam um trabalho que mistura arte gráfica, jornalismo gonzo, humor e talento. Na entrevista cedida à Capitu, Morone fala sobre a ligação do seu trabalho com a cidade em que mora, critica o modelo de cultura do lugar, amaldiçoa a internet e defende o minimalismo. Ele deixa claro que que o Coletivo é espelho de seus próprios criadores, desde o estilo de escrever que reflete como falam no cotidiano até os assuntos e a “preguiça” que tem de atualizar mais vezes o blog. Não são, dizem, serious business e nem pensam em mudar a cidade em que vivem nem ninguém, embora, para eles, fosse uma boa se isso acontecesse: “imagina só, reggae. soul e caranguejada na cidade do prédio torto?”.

O Coletivo começou em outubro de 2008 com o blog. A ideia nasceu simples, de um trabalho da faculdade. Por ser apaixonado por música negra e pela vanguarda soviética, Morone resolveu criar, junto com os amigos, um zine chamado Action. O nascimento do projeto, de acordo com o designer, ocorreu por dois motivos: “uma foi pela minha necessidade de divulgar meu trampo, conseguir contatos como designer. Hoje em dia, em meio a tantas dificuldades que temos na profissão, produzir conteúdo é sempre uma vantagem a mais para conseguir um trampo fixo ou um freela”, diz, “o outro foi pela própria agitação cultural de Santos. Mas eu odeio utilizar essa palavra, soa pretensioso”. Afirmam ser apenas dois caras que resolveram falar do que curtem e que gostariam de ver a cidade “melhor no aspecto cultural”. Sempre segundo Morone, “as coisas tem acontecido aos poucos, e o feedback tem sido bem bacana, ainda mais na cidade em que vivemos e os assuntos que abordamos. Achamos melhor abordar esse nicho de público do que falar de tudo e não ter a qualidade que deveria”.

Morone é “designer gráfico, fã de Mega Drive e futebol uruguaio”. Costa, “gordo fenômeno” nas palavras do parceiro, é jornalista e produtor cultural. Suas colaborações para o Coletivo foram o gonzo jornalismo e a bagagem de produtor cultural, além de um selo de música caribenha, o Riddim Records, primeiro a abordar o ragga no Brasil. Os dois se conheceram nas festas de reggae produzidas por Costa em Santos.

Sobre o processo de criação do trabalho, dizem: “Negamos a internet e apoiamos sua extinção, este monstro de fibra ótica e pornografia. Na realidade, usamos das fontes mais porcas e preguiçosas para nossos trabalhos meia bunda. Cerca de 80% do que está lá pode ser achado na Wikipedia e foi feito em dez minutos ou menos”. Puro deboche? Morone tem por referências a vanguarda soviética construtivista, a arte cubana da década de 60/70, capas de discos caribenhos e o designer gráfico britânico Peter Saville. “O minimalismo é um bom contraponto à arte atual, que se mostra cada vez mais suja, desorganizada e vazia de significado”. Costa, segundo ele, não tem nada disso, mas não nega a admiração pelos quadrinistas Robert Crumb e Maurício de Souza.

Planos, rentabilidade, exposições? São objetivos, mas não pra agora: “Atualmente, nos focamos em outras áreas, pessoais, como a minha criação de minicoelhos e a dança contemporânea do Rui. Vendemos, mas ninguém comprou. Divulgamos através de Flickr, Twitter, blog e A Tribuninha [encarte infantil do jornal A Tribuna, de Santos], veículo ao qual envio colaborações constantemente”. De acordo com Morone, o espaço para a arte gráfica na cidade não é suficiente: “Aqui em Santos, zero. Não temos uma galeria de arte contemporânea, mas os quadros de barquinho são lindos, e é nisso que se resume atualmente, sem contar o design autoral e único vendido pelas lojinhas de decoração, sempre uma boa pedida”.

De qualquer forma, a dupla faz questão de valorizar o berço. Em seu trabalho, buscam referências em suas memórias sobre Santos e também sobre a reflexão de como os jovens vive nessa cidade. Daí provém, segundo afirmam, o rosto azul sem face, nova marca do projeto. “Praticamente tudo que fazemos tentamos dar uma roupagem caiçara, ou ao menos direcioná-la. Isso vem em boa parte pelo orgulho de sermos santistas e da tradição cultural da cidade”. Em vez de reclamar a respeito de “uma fase seca, egos inflados e má-administração”, e da falta de iniciativas culturais na região, a atitude do projeto repudia a não-vontade de mudança para a capital paulista. “É fácil reclamar da ausência de boas iniciativas na região e tomar um ônibus esquecendo do que veio antes da Serra. Se agora tá ruim, tenha certeza, é porque assim deixaram ficar”.

Por enquanto, produzem, ocasionalmente, flyers. Mas há alguns projetos e congressos a participar no futuro. Em outubro, o Coletivo participa da Semana de Produção Multimídia (Samba) da Universidade Santa Cecília, que já trouxe, por exemplo, o Estúdio Colletivo de Design. “Ficamos felizes em termos sido convidados, e um tanto surpresos, já que mal completamos um ano. Quando tudo estiver confirmado, a gente vai divulgar a data que iremos palestrar e fazer caranguejo lá na Unisanta”. Participarão também de uma festa de música negra, gratuita, no Mercado Municipal da cidade, ainda sem definição de data. O Coletivo também prepara o lançamento de um curta, narrando a trajetória de “sucesso, fama e redenção na caminhada do Coletivo, contando sobre nossa consagração e envolvimento com prostitutas e drogas”.

A dupla levanta a bandeira de uma “produção esparsa, regida pela preguiça, com algumas coisas boas pelo caminho”. Ócio? Sim, mas com dignidade. A se contar pela produção, que continuem com a preguiça.

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