Cultura

Para Ruth de Souza, a minha madrinha artística

Autor de uma biografia no prelo sobre Ruth (1921-2019), Ygor narra sua relação com a atriz, desde os primeiros fascínios até a construção de uma amizade

Ygor Kassab e Ruth de Souza em janeiro de 2018

A primeira vez que vi a atriz Ruth de Souza sob a luz dos refletores eu era um menino de uns nove anos de idade. Lembro, com saudade, daquela figura forte e daqueles olhos grandes e expressivos. O ano era 2006 e a obra era Sinhá Moça, produzida pela Rede Globo. Ela voltava, então, a participar desse projeto, narrativa tão importante e que havia sido primordial em sua lapidação de atriz. Ruth era menina diante das câmeras, do brilho de uma objetiva que se abria ao esplendor de seu rosto – pele negra, linda, sensível ao sopro das palavras.

Pouco depois, por volta de 2011, eu já adolescente, encontrei na livraria da Imprensa Oficial, ali, na histórica Rua XV de Novembro, no centro de São Paulo, morada minha, uma biografia da atriz – Ruth de Souza: Estrela Negra (2004), da jornalista Maria Ângela de Jesus. Naquela altura, já havia tido a oportunidade de pesquisar um pouco sobre a vida dela na internet, de entrevistas a outras obras artísticas. Todavia, foi com o livro em questão que tive a oportunidade de conhecer melhor uma mulher que admirava por sua força (mas, ainda, sem entender, completamente, a sua profunda importância).

As páginas trouxeram a voz imponente e firme da atriz. Eu imaginava a voz dela a cada linha, a cada minuto da leitura, tentando reconstruir as passagens de sua vida. Tocou-me saber de sua luta para ser artista. Em sua infância, disseram a ela que não havia atrizes negras. Como assim? Por que essa raiva soterrada dentro de si? Não havia em minha bagagem todo o repertório histórico sobre a luta negra e conhecê-la despertou a busca por esse aprendizado.

A tristeza diante do racismo foi muito grande, mas um alento vinha toda vez em que descobria um feito memorável de Ruth de Souza. Ela foi a primeira atriz negra a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945. Foi a primeira atriz negra a fazer um teleteatro na TV Tupi, de São Paulo, em 1951, (com elenco somente negro). Foi a primeira atriz brasileira a concorrer a um prêmio internacional, no Festival de Veneza, em 1953, com o filme Sinhá Moça. Foi a primeira protagonista negra de telenovelas da Rede Globo, em 1969.

Meu espanto e minha emoção fizeram com que a vontade de a conhecer pessoalmente só crescesse. Comecei a pesquisar em jornais e revistas, disponibilizados virtualmente, pelo site da Biblioteca Nacional, matérias e reportagens que falassem sobre ela. Descobri raridades nunca antes publicadas, peças e filmes, dos quais é possível perceber a grandiosidade da interpretação artística de uma atriz totalmente entregue ao seu ofício.

Em 2016, aconteceu a mostra Pérola Negra, idealizada pelo jornalista Breno Lira Gomes e levada ao público pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Era uma comemoração dos 70 anos de carreira da atriz, uma mostra de filmes dos quais ela participou ao longo de toda a sua carreira. Foi, a partir desse evento, que consegui o contato dela e fiz a nossa primeira ligação telefônica. Meu coração batia acelerado ao discar aqueles números. Meu Deus! Como sonhei em ouvir a voz dela se dirigir a mim!

Cursava o primeiro ano da faculdade de jornalismo e sugeri a ela que fizéssemos uma entrevista. Dona Ruth era tão generosa, acolhia a todos que recorriam a ela, sempre com a mesma amabilidade e carinho. Quem fez a ponte para o agendamento da entrevista foi Lú Gondim, atriz e professora, que acompanhou Rutinha nos últimos anos de sua vida. Um verdadeiro anjo da guarda. Finalmente, havia uma data para realização do sonho de estar ao lado dessa grande mulher: 24 de setembro. E, assim, fomos, meus pais e eu, de carro, percorrendo os 435,8 km de distância entre a Terra da Garoa e a Cidade Maravilhosa. Minha excitação era cinematográfica.

Percorri a rua Paissandu, cheia de palmeiras imperiais, com um enorme frio na barriga. Era, a valer, um deleite viver aquela sensação. Quando a porta se abriu, vi uma senhora frágil sentada no sofá; mas, à medida em que me aproximava, percebia que a fragilidade do corpo nada tinha a ver com a do espírito. Ruth estava plenamente lúcida e alegre, do alto dos seus 95 anos, com aquele mesmo olhar vibrante. A primeira frase que recebi foi: “Como você é bonito!”. Para um jovem adolescente, que se achava magro demais e cheio de timidez, aquela frase foi doce feito mel.

Não pensava que aquele dia, regado a memórias, fotos e muitas risadas, iria me proporcionar uma amizade tão forte como a que estabelecemos. Dona Ruth propôs, inclusive, algo que se realizaria alguns anos depois: “Tenho muita coisa para contar, mas você pode fazer um livro sobre mim”. As pesquisas continuaram e as visitas também. Voltei mais treze vezes, número de sorte, ao seu apartamento, ali na Paissandu. E as visitas eram recheadas de lembranças afetuosas.

“Falar de Ruth de Souza é enaltecer a luta negra para desconstruir os preconceitos e os estereótipos causados por anos de escravidão”

Vimos muitos filmes juntos. Lembro de termos assistido a Voando para o Rio (1933), com Raul Roulien, Fred Astaire, Ginger Rogers e Dolores del Rio. Assistimos também a O Mistério da Ilha de Vênus (1960), Primavera (2018) e A Negação do Brasil (2000), todos com participação de Ruth de Souza. Estava ali, na casa dela, repleta de quadros, fotos de sua carreira, objetos de sua longa vida e fascinado por presenciar as suas criações. Ela sentia muito frio, sempre tinha uma manta por perto. Uma vez, pediu-me para colocar os pés sob minhas pernas e disse: “Assim você aquece os meus pés”. Ouvir aquilo era ter alcançado um degrau tão lindo em nossa história, havia conquistado a sua amizade, amizade essa que marcaria a minha vida.

Em um desses momentos, outra coisa fantástica aconteceu. Vi um lindo colar de pérolas usado pela atriz June Wilkinson no filme O Mistério da Ilha de Vênus e, de repente, ao elogiar a peça, escutei: “Esse colar é meu, emprestei para ela filmar e tenho até hoje”. Nessa hora, meu coração gelou. Dona Ruth pediu a cuidadora para pegá-lo em sua caixa de madeira com suaves toques de aquarela na tampa. Peguei o colar nas mãos, era uma réplica de Givenchy, com três voltas de pérolas e um fecho vermelho em porcelana. Foi um presente dado a ela, por sua grande amiga e também atriz Marisa Prado. Senti-me envolto pela magia da vida.

Sucederam-se idas ao teatro, tendo me marcado, profundamente, a peça A Visita da Velha Senhora (2018), do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt, que foi apresentada no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. A protagonista foi interpretada, magistralmente, pela atriz Denise Fraga, que ao ir de encontro a plateia, beijou a testa de Rutinha, forma carinhosa como a chamávamos. Em outra ocasião, pude comemorar seu aniversário de 97 anos, no icônico restaurante La Fiorentina, em pleno Leme de Clarice Lispector. A atmosfera do local, decorado com fotos e autógrafos dos artistas, pelas pilastras e paredes, é emocionante.

Vivendo tantos momentos com ela, finalmente, decidi que era hora de tirar do papel a ideia de uma biografia, que seria, primeiramente, apresentada como meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na faculdade de jornalismo. Dona Ruth gostou da ideia e começamos as entrevistas para o livro. Eram horas e horas de imersão, nas quais estava quase sempre boquiaberto, diante do encantamento que me causava ouvi-la. Muitas barreiras foram colocadas no seu caminho, mas ela se recordava sempre do conselho de sua mãe, Alaíde, que dizia: “Você pode fazer tudo o que quiser, desde que tenha postura, educação e comportamento”.

Esse ensinamento ela cumpriu à risca. Sua elegância, sua discrição, seu humor inabalável (quando eu pedia para ir ao banheiro, ela dizia: “No fim do corredor, ala norte” – achava muito divertido isso!) e seu talento profundo a fizeram vencer nas artes cênicas brasileiras. Foram 74 anos de carreira ininterruptos e ela deixou marcado o seu nome nos palcos da vida. A biografia que escrevi (e que será lançada muito breve pela Editora Giostri) traça um panorama dos cem anos dessa grande atriz brasileira, completados neste 2021. O texto é bordado com depoimentos de outros artistas e amigos, além, é claro, de vasto material jornalístico extraído de periódicos da época.

Coloquei também o lirismo de D. Ruth em evidência, porque a base da carreira dela foi construída com poesia e amor à arte. Viver outra pessoa era, para ela, imergir no âmbito da amálgama existencial, da junção do “eu versus você”, da emoção de sentir a dor e a alegria de cada pulsar. Esse lirismo era embalado por canções, aliás. Como ela amava as canções de Inezita Barroso e Édith Piaf. Tive o prazer de ouvi-la cantando em um francês terno e meigo. Nesse dia, regado a luz de um belo abajur amarelo-alaranjado, pedi a ela que fosse, para sempre, a minha madrinha artística. O sim veio embalado com o gentil: “Você me comove”. Mas era, justamente, ela que me comovia e me inspirava a ser o que eu quisesse ser.

A atriz viveu em uma época em que os artistas brancos se pintavam de negros para interpretarem papéis no teatro. Aos atores negros eram relegados sempre o papel servil e poucos tinham acesso à ribalta. Falar de Ruth de Souza não é apenas falar de uma artista que enfrentou dificuldades para alcançar a posição que alcançou, mas é, principalmente, enaltecer a luta negra para desconstruir os preconceitos e os estereótipos causados por anos de escravidão.

Em cada despedida, beijava a sua mão e tinha a esperança de que o tempo passasse logo e tão logo eu voltasse para ela. Uma vez, a pressa para vê-la foi tanta que nem almocei e o voo de volta para casa se aproximava. Porém, uma solução rapidamente foi encontrada. Tomei um caldo de feijão em seu apartamento e um suco de laranja fresquinho. Dona Ruth foi amiga das mais preciosas, daquelas que são verdadeiros encontros de alma. Amarei, infinitamente, a doce e forte Ruth de Souza.

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