Cultura

De que lado você está?

É possível viver à margem da existência? Não. A vida nos assedia

Será que mesmo que tenhamos enfrentado tragédias em nossas vidas, podemos deliberadamente viver à margem da existência? Em outras palavras: a auto-proteção, traduzida em neutralidade, é possível? Dean Koontz, em seu romance Velocidade parece dizer que não. A vida nos assedia, exige decisões de nós. A vida — ou alguém muito, muito perigoso.

O título não poderia ter sido melhor escolhido. Em mais de 380 páginas, que cobrem cerca de três dias da vida do protagonista Billy Wiles, a ação é ladeira abaixo. Sem pausas. Sem demoras. Sem tempo para repouso, de Billy ou do leitor. Do momento em que ele encontra um bilhete pregado no para-brisas do carro (“Se você não avisar a polícia, vou matar uma jovem loura e linda. Se você avisar, vou matar uma mulher idosa que faz caridade. A escolha é sua”) — sua vida é sugada para dentro de um tornado. Uma corrida vertiginosa em que seria preciso pensar antes de agir, se houvesse tempo para isso.

Enquanto Billy Wiles se debate entre escolhas (quais?), enquanto tenta identificar (como?) o serial killer que o escolheu (por quê?) como co-participante (involuntário) dos seus crimes, Koontz nos prende à página numa narrativa cinematográfica, com sequências imediatamente visuais, uma característica do escritor. Os diálogos soam naturais, fluídicos, secos, bem dosados; as descrições aqui permanecem na medida (o que não ocorreu em um ou dois de seus romances anteriores, onde o excesso descritivo era visível). Toda a arquitetura do romance está em sintonia com seu tema e com sua premência identificada já no título . Velocidade. Corrida. Movimento. Pressa. Pressão. Pressionado. Sem fôlego. O jogo de associações é exato.

A certa altura do romance, Koontz explicita o “viver à margem da vida” do personagem central. E sua visão, salvo equívoco meu, é que a neutralidade não é apenas impossível, a tentativa de ser “neutro” é perigosa. Sendo um escritor no qual as preocupações éticas nunca estão ausentes, nem sequer em seus livros mais amenos, o autor deixa claro que a neutralidade a preocupá-lo é a neutralidade moral. Para ele, estamos sempre escolhendo, estamos sempre de algum lado, queiramos ou não. Explicitamente: “A inação é uma escolha”.

Se Velocidade reafirma que a vida é injusta (coisa que Dean Koontz já disse, com variantes, em O Guardião e em Do Fundo dos Seus Olhos) também critica os que, feridos por essa injustiça, acreditam poder viver sem envolvimento. Toda ação/inação gera uma reação. Viver meio adormecido não impede que assim seja. Lembra aquilo que disse Edmund Burke: “para que o mal triunfe, basta que os homens bons não façam nada”.

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