Cultura

Cinismo versus Romantismo

A escritora francesa Françoise Sagan desmascara seu romantismo, sem rejeitá-lo; parece travar uma batalha consigo mesma, às vezes parece dizer: “Vê? As coisas não são tão perfeitas assim”

Histórias de grupos de estranhos convivendo em um pequeno espaço por certo período de tempo há muito não são novidade; é o esquema dos antigos Decameron, de Boccaccio, e Contos de Canterbury, de Chaucer; e dos mais recentes A Nau dos Insensatos, de Katherine Anne Porter e Os Prêmios, de Júlio Cortázar. O que faz o interesse de A Mulher Pintada (La Femme Fardée, no original), de Françoise Sagan (1935-2004), está em alguns tipos que elege para compor sua “assembléia” à bordo do navio “Narcissus” (o nome, aliás, já fornece um comentário e uma indicação do que vai se ver).

Há desde o patético Andréas até o cínico-romântico (meio bogartiano, portanto) Julien Peyrat; a bem-humorada Edma, que aprendeu a desfrutar do que a vida (e seus milhões) lhe pode proporcionar, agora que envelhece; o diretor de cinema, Simon Béjart, entusiasta, impulsivo e nada sofisticado, alvo do desprezo de muitos no barco; a atrizinha que finge ser uma intelectual; o editor de um jornal comunista que não ama os pobres, só odeia os ricos; a esposa alcoólatra que se esconde atrás de uma maquiagem grotesca, a “mulher pintada” do título; e a personagem não humana que volta e meia eclode nos livros de Sagan: a música.

Quem possui familiaridade com o universo da escritora reconhecerá a insistência de alguns de seus temas: a ligação entre uma mulher mais velha com um homem mais jovem, ligação que, como sempre ocorre em Sagan, ameaça tornar-se amor se não for sustida a tempo; os que têm a “elegância do coração’; os cínicos como românticos enrustidos; a gratuidade da alegria como do sofrimento.

A Mulher Pintada é, dentre as novelas de Françoise Sagan – autora de Bom Dia, Tristeza, Dentro de um Mês, Dentro de um Ano, O Demônio da Guarda, Olhos de Seda, Um Perfil Perdido e mais – uma das poucas em que a escritora, que já foi considerada a “enfant terrible” da literatura francesa, desmascara seu romantismo sem rejeitá-lo. Antes, Sagan, como que lutando contra as próprias inclinações, esmagara esse romantismo com boas doses de cinismo e “vida real” em Você Gosta de Brahms? e em Tempestade Sem Bonança. No que tratamos, ela mais ou menos o aceita – todavia é possível pinçar aqui e ali, ao longo da narrativa, uma espécie de guerra oculta contra essa “esperança sentimental” que é muita vez a essência do romantismo. Algumas cenas absolutamente gratuitas, até incoerentes quanto ao comportamento dos personagens, soam como ecos da batalha que a autora estaria travando consigo mesma; um modo seu de dizer em protesto: “Vê? As coisas não são tão perfeitas assim”.

Não importa: A Mulher Pintada é uma novela amável, divertida, mais romântica que realista apesar das resistências da escritora. A esperança que aflora, cresce, e que é observada com reservas por Sagan, uma cínica tão sentimental quanto seu Julien Peyrat. Observações sobre má fé política também divertem (e aliviam a alma). A crítica não gosta, até onde sei, desse romance: não é bastante amargo (apesar de algumas tragédias à bordo do navio). Como em Grande Hotel, de Vicki Baum, aqui também, ao término do cruzeiro, personagens deixam o “Narcissus” diferentes de como embarcaram, e nisto deve residir a maior recusa do cinismo.

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