O dia em que Ranganathan me levou para passear pelas bibliotecas da Unicamp

Uma crônica da vida dos livros, um ensaio sobre a leitura

“[…] acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”

– Clarice Lispector

Época de férias na universidade, para quem trabalha na biblioteca, é época de reflexão pois, como cantou Raul Seixas, “quem pensa, pensa melhor parado”. Engana-se aquele que pensa que o silêncio é o que impera dentro da unidade de informação. Os estudantes, os auxiliares de biblioteca, os bibliotecários de referência, o pessoal do atendimento, o departamento de processamento técnico, o departamento de aquisição de livros e periódicos tocam em uníssono a música do desenvolvimento e uso do acervo bibliográfico. Para tanto, todos precisam interagir de modo dinâmico para não atrapalhar os estudos daqueles que já encontraram seus livros e estão imersos na leitura, ou seja, o silêncio é o acorde sem som, o acordo invisível para não perturbar a concentração que dá a liga das ideias e o raciocínio.

Nas férias universitárias esse acordo é quebrado, pois tudo para. Os estudantes vão curtir o descanso e os trabalhadores da biblioteca podem diminuir seu ritmo. Nada mais natural que o silêncio intrometido, aquele que não faz acordo com ninguém, tomar conta do vazio deixado pelas interações dos humanos que até pouco tempo ali estavam. E quando nós paramos nesse tipo de silêncio os pensamentos que não tinham espaço para aparecer resolvem fazer suas sinapses.

E os melhores pensamentos vêm como brisas de outono que carregam as ternas folhas amareladas que planam fazendo as mais performáticas acrobacias até gentilmente tocarem o solo para, mais tarde, transformarem-se em nutrientes para novas folhas e frutos. Ao menos foi essa a interpretação que tive depois de passar pela biblioteca do Instituto de Biologia e ler o capítulo 12 de Fisiologia Vegetal de Taiz & Zeiger enquanto ouvia a “Lua e eu”, do Cassiano, pelo fone de ouvido. Depois que você se acostuma com o som da biblioteca é difícil ler no silêncio intrometido… e muito mais difícil é ficar na biblioteca que você trabalha em período de férias universitárias!

Quando a música acaba o horário do almoço também acaba. Insólito é fechar o livro e olhar ao redor e ver apenas os atendentes da biblioteca. Braços estendidos em direção às estantes, mãos em constantes movimentos de pegar, folhear, devolver a estante ou acolher o livro debaixo dos braços. O cotidiano da biblioteca é como diz Ranganathan em sua primeira lei: livros são para uso. Seja esse livro para estudo ou entretenimento. Ver os livros parados dá uma certa agonia; e se prestarmos atenção é possível ouvi-los reclamando de estarem fechados. Volto para a Biblioteca Central César Lattes (BCCL) e sentado na cadeira de frente para o computador (em vez de pensar na próxima análise bibliométrica que preciso entregar para o chefe) penso comigo mesmo: pelos deuses, o paradigma das ciências biológicas debochou de mim! Como saí da fisiologia vegetal e cheguei em Ranganathan?

Veja, auspicioso leitor e zelosa leitora, Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892-1972) – matemático e bibliotecário indiano – é um dos maiores nomes da Biblioteconomia. Suas cinco leis são um primor de como pensar não apenas a biblioteca, mas também a área de conhecimento biblioteconômico. Ranganathan, com seu olhar humano, difere muito das escolas biblioteconômicas norte americana e europeia que querem a todo custo findar a bandeira da conquista, do descobrimento, do “eu sou o primeiro” e todos os adjetivos que o capital vende sobre qualquer coisa que toca.

É ISSO!

Naquele dia, Ranganathan me chamou para passear pelas bibliotecas, porque escutei, indo para o trabalho, “Latinoamérica”, do Calle 13, e fiquei animado com a possibilidade de gratuitamente falar mal do nosso sistema econômico vigente e ouvir música para espantar o silêncio intrometido na BCCL. Por mais que as coisas tenham vontade de manter certos rumos pragmáticos durante o dia, depois de lembrar que o bibliotecário indiano estava lá comigo em forma de espírito científico, bom, eu precisava agir. Tomado pela segunda Lei de Ranganathan – a cada livro, seu leitor – mandei a planilha do Excel para a barra de tarefas e procurei no Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) por um livro que poderia alimentar a chama da fúria contra o capital. Ora, nada mais divertido que ler algo que possa aumentar o desdém de algo que você detesta. Encontrei Livros em Chamas: a história da destruição sem fim das Bibliotecas, de Lucien Polastron. Vejo no resultado da busca o número de chamada – na prática é o CPF do livro no catálogo da Biblioteca, aqueles números que ficam na lombada do livro – e vou direto para o acervo da BCCL.

Em época de férias é incomum procurar o livro sozinho. Entretanto, o bom de conhecer o acervo é saber para onde ir. Sabe aqueles números que ficam no começo das estantes? Por exemplo: 301.240 a 321.09? Eles contemplam e correspondem aos números de chamada dos livros que estão nas estantes nos esperando; livros esses que encontramos nas buscas feitas no sistema das bibliotecas que acessamos pelo computador ou celular. É por eles que você consegue caminhar sozinho pelas estantes e procurar o(s) livro(s) desejado(s). Mas não se preocupe, se você tiver dificuldade de encontrar as estantes, lembre-se dos auxiliares da biblioteca, ou dos atendentes, ou dos bibliotecários de referência; todos estão lá para que você chegue ao encontro do livro.

Pois bem, livro encontrado, hora de começar a ler ali mesmo e em pé. Coloco o fone e toca Canção Agalopada, do Zé Ramalho. Bem no começo do livro há a história do rei assírio Assurbanipal (Ashur-nasir-pal) II e a Biblioteca de Nínive, considerada a primeira biblioteca da história (século VII a.C.). Para preencher sua biblioteca, Assurbanipal II enviava seus escribas para regiões do império Sumério (Assur, Nippur, Babilônia, Akkada) para buscar e copiar textos antigos, reuni-los, revisá-los e, até mesmo pelo próprio Assurbanipal, copiá-los de novo. Especulasse que seu acervo chegou a ter 500 mil tabletas de argila (suporte informacional usado à época) e cinco mil títulos. Terminada a leitura do capítulo, fiquei puto da vida a indignação tomou conta. Minha mente fez amarrações entre o modelo de desenvolvimento de acervos de Assurbanipal II com o modelo imperialista de uma das atividades do desenvolvimento de acervos da Biblioteca do Congresso (Library of Congress), situada em Washington-DC (EUA): ela contrata pessoas de vários países ao redor do mundo com a finalidade de obter qualquer livro/obra/documento relevante de cada país de origem dos seus contratados para enjaular em seu acervo.

Olho para os lados com vontade de puxar esse assunto e não vejo ninguém… e eu só queria compartilhar o sonho de ver, no final da tarde e do topo de um edifício, porcos gigantes e alados cavalgados por trabalhadores vestidos com macacões marrons, tênis gastos e máscaras de solda adaptadas com respiradores faciais jogando bombas em formato de livros e assim destruindo representações do capital como bancos e estátuas de bandeirantes com Maria, Maria de Milton Nascimento como trilha sonora. Desolado por estar sozinho, coloco o livro debaixo do braço e faço o autoempréstimo para ler mais tarde em casa. No caminho de volta à minha sala de trabalho uma amiga me pergunta se eu não poderia levar um livro para a biblioteca do Instituto de Letras (IEL) que fugiu do carrinho que o levaria para lá. Digo que sim.

O livro era A memória vegetal: e outros escritos sobre bibliofilia do brilhante semioticista Umberto Eco. No caminho vou folheando e chego na página 217. Nela começa uma pequena crônica intitulada “Monólogo interior de um e-book”. Nada mais é que um e-book em crise existencial, pois em seu interior há muitos textos e ele não consegue formular sua própria identidade. Vale muito a leitura; a discussão do uso e acesso dos livros digitais se faz necessária. E o diálogo começa com a pergunta: para quê o livro físico se posso ter/acessar o digital?

Por mais que o acesso aos livros digitais esteja em um ritmo de aceleração de causar inveja a jatos supersônicos, desafio aos perseverantes leitores e leitoras dessa redação de férias universitárias a buscar livros digitais de edições mais antigas de livros voltados aos estudos e pesquisas. Ou periódicos científicos de meados da década de 1990 para trás. Trago esse desafio porque uma coisa é discutir a disponibilidade/acesso de livros de ficção, romance, horror e afins onde há a possibilidade de comércio com um sem número de edições novas a cada ano por muitas editoras grandes e/ou pequenas; outra coisa é discutir a disponibilidade/acesso da literatura cientifica em âmbitos nos quais o dinheiro é mais concentrado devido à baixa quantidade de grandes editoras (que fagocitam as pequenas). O mercado do conhecimento dá a forma da disponibilidade e do acesso aos livros, sejam eles físicos e/ou digitais. Afora isso, sem dúvidas que o mundo digital é deslumbrante, porém, cair na armadilha que toda a produção literária existente pode estar disponível nele é um pensamento perigoso pois nem todo livro que nasceu físico foi digitalizado ou terá uma nova edição. Contudo, o que é toda produção literária? Será aquela que é importante para nós, do nosso gosto? Ou aquela que serve ao gosto de todos ou de cada um? Seja qual for, não há problema o livro ser físico e/ou digital. As bibliotecas continuarão a existir para preservar o conhecimento de maneira física, seja essa biblioteca um prédio ou um mainframe. E desse modo a terceira lei de Ranganathan prevalece: a cada livro seu leitor.

Bom, enquanto Umberto Eco espera para ser incorporado ao acervo da Biblioteca do IEL tomo meu rumo de volta a BCCL. Mas sabe como é, a Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) fica logo ao lado! E minha esposa gentilmente havia me pedido para procurar um livro por lá. Foi assim a mensagem que ela enviou sobre o livro: “Você poderia ver se tem aí no IFCH o livro Vera Cruz: imagens história do cinema brasileiro de autoria de Sérgio Martinelli? Não sei se tem mais autores e foi publicado em 2000 ou 2002 e eu não encontrei nenhum pdf”. Admito que mesmo trabalhando na BCCL da Unicamp eu não conheço todas as bibliotecas. Ao todo são 30 bibliotecas que compõem o Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU). Cada uma delas corresponde ao seu instituto, ou seja, seus acervos são desenvolvidos e gerenciados para atender às necessidades dos estudantes/professores/pesquisadores das áreas de conhecimento de cada instituto. Se o livro que minha esposa queria consultar era de História do cinema brasileiro nada mais lógico que ir na biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Tenho minhas dúvidas se eu encontraria o livro no Instituto de Geografia!  O grande problema de não conhecer/conviver nas demais bibliotecas é que geralmente eu me perco dentro delas. Ou você acha que as bibliotecas são todas iguais? Cada uma possui sua própria arquitetura e organização das estantes. A dúvida real de como me movimentar em ambiente desconhecido me faz perder muito tempo e por muitas vezes peço socorro, ainda mais quando não tenho tempo a perder. Ranganathan diz em sua quarta lei: poupe o tempo do leitor. Por conta disso fui ao serviço de referência pedir ajuda para localizar o livro pois eu não sabia se faltava alguma informação relevante sobre ele e isso poderia me custar um bom tempo procurando. A bibliotecária encontrou no sistema e me levou até o livro. Sem ela eu não encontraria nem a estante! Perguntei se podia tirar uma foto da capa para ter certeza que era aquele que minha esposa procurava e BINGO!, era aquele mesmo. Faço o empréstimo do livro e agora sim tomo meu rumo de volta a BCCL com o modo romântico ativado; coloco para ouvir ao longo do caminho “Amor completo”, de Mon Laferte.

Novamente fico em frente ao computador. Enquanto analiso os resultados da produção cientifica da Unicamp, em especial os artigos científicos, fico imaginando como as referências utilizadas pelos autores vêm e vão das estantes ou das bases de dados que disponibilizam os pdfs. Na minha mesa deixo o livro Desenvolvimento de coleções, de Waldomiro Vergueiro, para não esquecer que todo o trabalho, de todas as bibliotecas – sejam elas públicas, escolares, universitárias, especializadas – é galgado no desenvolvimento do cidadão, do estudante, do pesquisador, do trabalhador. A quinta lei de Ranganathan é, ao seu modo, a mais romântica: a biblioteca é um organismo em crescimento. E esse organismo possui um coração como o nosso, divido em quatro partes: os usuários, o acervo, os corpos que trabalham na biblioteca e a comunidade que a cerca. No batuque desse coração o organismo cresce saudável e preservando o conhecimento da humanidade seja qual for o seu suporte. Nossa, como sinto falta de ouvir esse batuque em alto e bom som! Quero ver a BCCL cheia de gente! Mas sei muito bem que o coração também precisa tirar umas férias para continuar vivo durante muito tempo. Termino as análises e levanto para pegar um café. Daqui da sala temos uma vista privilegiada da universidade. Conseguimos ver o teatro de arena, a Biblioteca de Obras Raras (Bora), a feirinha e seus pastéis, o IEL, o IFCH, o Instituto de Artes (IA), o restaurante universitário. Por ora, tudo sem movimento. Enquanto bebo o café permito me perder no tempo e no silêncio sem acordes e meus olhos veem toda a movimentação do cotidiano como se todos já estivessem de volta das férias. Qual a música desse vez? , você me pergunta. Ah, é do Bob, eu te respondo: “Satisfy my soul”.

Autor

  • Meu diploma diz que sou biólogo. Minha curiosidade sobre documentação me disse para procurar a graduação de Biblioteconomia. O futuro imaginado vislumbrou um biobliotecário. Enquanto o futuro não chega, você pode me encontrar na Biblioteca Central César Lattes da Unicamp (eu trabalho lá!) para conversar sobre o que você quiser, sou muito curioso (e às vezes não falo tanta bobagem).

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