No Chão da Escola: Carolina Amaral e a função ética da educação

“Ser educadora é libertar. A educação só serve para emancipação dos indivíduos”

A professora Carolina Amaral

Primeiro, as crises de ansiedade. Quando Carolina Amaral, bacharel e licenciada em filosofia, começou a dar aulas, em 2008, se deparou com um cenário “assustador” e quase desistiu. Hoje, após ter percebido que “tentar entender os alunos e demonstrar afeto fazia o trabalho criar significado”, não consegue se ver fora da sala de aula. Hoje dando aulas de filosofia e Projeto de Vida em uma escola de São Vicente (SP), ela fala à Úrsula sobre como foi “conquistada” pela profissão e aponta como a educação está no meio de um cabo de guerra entre, de um lado, problemas de infraestrutura e de visões sobre o ensino, e, de outro, a necessidade de criação de laços e de ampliação de perspectivas.

O que te atraiu para a educação?

Fui atraída pela Filosofia e acabei descobrindo que lecionar seria o caminho. Aos poucos meu trabalho foi criando significado, acho que fui conquistada pela profissão.

Algo já te tentou a deixar a educação? O quê? O que te faz permanecer na educação?

Tive um começo bem traumático, não me sentia capaz, uma sala de aula com 30 adolescentes é um cenário bem assustador e eu passei a ter crises de ansiedade. Enfim, pensei muitas vezes em desistir. Num dado momento eu percebi que aquilo que eu oferecia aos alunos eles me devolviam e que olhar pra eles, tentar entendê-los e demonstrar afeto fazia o meu trabalho criar significado para mim: eu tinha influência sobre aquelas vidas. Não sei dizer muito bem como essa mudança se deu em mim, mas fico impressionada em perceber o quanto hoje não consigo me ver fora da educação.

Às vezes os professores criticam certas opiniões sobre a escola indicando que os críticos não conhecem o “chão da escola”. Como você define esse chão da escola? O que ele tem de particular?

Cada escola, ou contexto, ou comunidade tem um “chão” diferente. Só quem está inserido na escola entende as dificuldades que enfrenta e ainda assim elas não são percebidas da mesma forma por todos os envolvidos. Entender os processos cognitivos que devem se passar para que alguém aprenda não é suficiente para fazer a educação funcionar. Todos nós, envolvidos no processo, somos fonte de conhecimento sobre como a educação se dá em cada lugar e contexto.

Ainda nesse sentido, o que as políticas públicas ou as ações dos governos poderiam entender melhor na abordagem das questões escolares?

Conhecer os alunos é fundamental para perceber quais são suas dificuldades, mas como isso é possível se você leciona em 17 salas? Quando você consegue identificar que um aluno precisa de acompanhamento psicológico isso é oferecido dentro da escola? E quando o atendimento psicológico oferecido é do outro lado da cidade, esse aluno vai conseguir ser atendido? Os professores podem diversificar sua prática atendendo ao novo contexto tecnológico digital se a maior parte das escolas não tem acesso à internet que seja satisfatório? Todas essas perguntas e muitas outras têm um “não” como resposta e são exemplo de como o poder público poderia agir para sanar os problemas que enfrentamos.

O que é ser uma educadora?

Ser educadora é libertar. A educação só serve para emancipação dos indivíduos. Todos os dias tenho que lutar com outros profissionais e mesmo pais de alunos que acreditam que educar é moldar indivíduos obedientes. Não é tarefa fácil abrir olhos, promover a reflexão crítica, despertar o interesse em outros indivíduos para entenderem a realidade de maneira ativa e questionadora. No entanto, não há outra função ética para a educação que não seja a de libertar.

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