Cultura

Passarinho que se preza bebe caipirinha

Podcast de MPB alcança Estados Unidos, Inglaterra, Curaçao, Austrália, Finlândia e Faixa de Gaza. Aprecie sem moderação

Tudo começou com uma festa, passando ao programa de rádio e, por fim, ao podcast. Dessa forma, os jornalistas Mdc Suingue e Kika Serra apontam o início, há seis anos, do Caipirinha Appreciation Society, em que o mundo pode ouvir, via internet, música brasileira (muito) além de Gil, Chico e Caetano. A história começa em Londres, em 2003, com aquela primeira festa. O programa existe desde novembro de 2004. Em 2006, Kika uniu-se ao projeto e o programa passou a ser bi-nacional. O endereço eletrônico é ponto de encontro da música pra se beber, capirinha que se degusta à moda de um bom apreciador. Hoje, além do podcast, o programa musical também faz parte da grade da Open Air Radio, da University of London.

Apostando em brazilian music beyond the clichés, bandeira levantada pela dupla,o podcastsurgiu da constatação de que “o que é apresentado como cultura brasileira lá fora é apenas uma fração do que temos a oferecer”, traduzindo em boa música o que muitos tupiniquins gostariam de dizer àquele turista que pensa o Brasil resumido em samba, mulata e carnaval. Para o não-iniciado, adverte-se: se não sabe inglês, tenha um amigo tradutor, e os ouvidos apurados para ouvir deleites como Curumin, Bezerra da Silva e Jackson do Pandeiro, passando por Wander Wildner, Aracy de Almeida, Pedro Luís e a Parede e muitos outros, entre ícones e “outsiders” da cena musical de ontem e hoje.

De acordo com Mdc, a diversidade e o colorido do nosso País são os critérios das suas escolhas musicais. Propõe-se, além de música sem rótulos, a subversão dos dogmas da indústria “moribunda e deprimente”. Tal postura, segundo eles, deu fama ao Cas no cenário musical e em revistas especializadas em World Music pelo mundo afora. “Uma das coisas que mais gostamos no mundo dos podcasts é o leque de opções que foi aberto para quem tem curiosidade. Como passamos muito tempo imersos em música brasileira para produzir o programa, quando temos um tempinho, nos dedicamos a conhecer mais de música internacional. Temos curtido muita música africana e ibérica. Explorar a ‘podosfera’ já é uma diversão em si”.

O programa apresenta-se em duas facetas: “uma ao vivo, diretamente de Londres, outra editada, no Brasil”. Sobre Londres, diz: “esse é o formato ‘sujo’: total improviso, frouxamente baseado em uma playlist previamente escolhida, que pode mudar de acordo com nosso humor e situação. É feito na base da adrenalina e qualquer erro é considerado um ‘colorido’ a mais”.A outra faceta, com o programa previamente editado, é o formato adotado quando a dupla está no Brasil ou viajando. Esse, dizem, é mais sofisticado, com as cores e os sons das ruas. O programa segue a linha freestyle: “Tentamos não engessar muito o formato e o fator surpresa é muito importante em nossas playlists: evitamos ser previsíveis e levamos ao extremo o conceito ‘diversidade'”.

O Cas, segundo Mdc, vem com a intenção de “subverter a percepção do ‘histórico’ na música brasileira”. Em princípio, o programa tinha por principal público pessoas não expostas aos “dogmas da indústria e de seusonipotentes e onipresentes arautos em nossa mídia”. Assim, a dupla diz evitar dar peso aos medalhões, pretendendo contextualizar presente, passado e futuro dentro da diversidade de nossa música.

“No panteão musical do Cas, os monstros sagrados estão em pé de igualdade com o talento desconhecido”, fato que levanta a moral da dupla entre os novos talentos brazucas: “em geral ignorados pela mídia, eles sabem que nossos critérios são baseados apenas em qualidade do que em jabá” A relação de confiança existente juntos aos músicos e bandas, dizem, faz com que eles recebam trabalhos antes de sequer ir para prensagem.

Por vezes, até nós nos surpreendemos com a recepção que o programa tem. Já fomos objeto de matérias em prestigiadas revistas impressas e sites especializados em world music pelo mundo afora”, comemora. “O que era para ser uma coisa local de Londres se transformou em uma rede extremamente dinâmica de pessoas interessadas em cultura brasileira.

Por meio da internet, o programa ultrapassa fronteiras e tem sua maior audiência nos Estados Unidos e Inglaterra, mas chega também a locais inusitados como Curaçao, Austrália, Finlândia e Faixa de Gaza. Está em fase de finalização um pequeno documentário com uma série de entrevistas com esses ouvintes. Sua comunidade no Facebook passou de mil membros em seis meses, sem grande divulgação. “Para eles somos não apenas uma referência cultural, mas amigos que batem um papo com eles toda semana. Eles seguem nossas dicas, procuram comprar as bandas que recomendamos e vão aos shows dos ‘nossos’ artistas quando divulgamos suas turnês internacionais”.

A procura dos brasileiros pelo site tem aumentado. Para Mdc, procura-se o Cas para conhecer facetas da música produzida em nosso País às quais não temos acesso pelos meios de comunicação tradicionais.

“Aqui nos convenceram de que o mundo inteiro se ajoelha perante o talento musical do brasileiro, o que é um certo exagero” diz. “Sim, existe uma admiração no mundo do jazz, não apenas pelos bossa-novistas, mas também por artistas experimentais como Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. Os amantes de world music têm algum conhecimento dos medalhões da MPB. Mas daí a dizer que nossa música hipnotiza as massas pelo mundo afora é ufanismo bobo”.

Sobre shows de brasileiros no exterior, graceja: “Volta e meia nos chega uma notícia de que um Caetano ou uma Joyce lotaram o Royal Albert Hall. O que não é mentira, só omitem o fato de que 85% do público era composto de imigrantes brasileiros acometidos de banzo”.

O conhecimento médio sobre World Music, afirmam, não vai muito além do superficial, sendo samba e salsa comumente confundidos. Para explicar a diferença, Mdc é alegórico: “são tão parecidos quanto nosso futebol e o futebol americano: os dois são jogados na grama, por um bando de homens correndo atrás de uma bola, mas em um deles nem redonda a bola é”.

Irritado com as premiações de música brasileira, em que sempre se levantam rumores de uma música brasileira “morta” ou decadente”, Mdc informa que o que está decadente é outra coisa: “A música brasileira nunca esteve decadente, nunca esteve moribunda, porque ela é feita por artistas que, com ou sem os olhos da mídia voltados para eles, nunca deixaram de criar. Esses prêmios revelam apenas quem é quem na moribunda e deprimente indústria musical. ‘Música brasileira’ e ‘indústria da música brasileira’ são duas entidades distintas que, especialmente nesses novos tempos, temos que aprender a distinguir”.

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