Cultura

Ruy Espinheira Filho: O Homem é Amálgama

Ruy Espinheira Filho oferece na entrevista abaixo uma compreensão consistente do que é e/ou deve ser a literatura e a arte. Poeta, jornalista e professor baiano, defende o contato pessoal com a obra e nega que a crítica seja essencial como intermediária entre artista e espectador. Diz que a arte é inútil, que não deve ter função predefinida; mas também ressalta que nós, seres humanos, temos uma necessidade natural de arte. Afirma ainda que a arte não é forma — sua apresentação externa, sua técnica — nem seu conteúdo — o que expressa, o sentimento que traduz — mas uma união inseparável entre ambos. Muito além, essa última conclusão demonstra um entendimento sobre o próprio homem: “não há sentimento sem pensamento. Essas coisas estão juntas em todos nós. O homem é esse amálgama”.

Além disso, o poeta também fala sobre a criação poética: sua origem na memória e sua escolha de caminhos: ou a mudança periódica perpétua ou a decadência: “se alguém chega ao auge, não é o início da decadência. O auge já é a decadência”. Ele também trata o que resulta dessa criação com muito rigor: “olha, se é mais ou menos, não presta, por melhor que seja o conteúdo. Como dizia Carlos Drummond de Andrade: “de boas intenções não nascem necessariamente bons versos”.

Espinheira Filho é mestre em Ciências Sociais e doutor em Letras. Escreveu 11 livros de poesia, além de volumes de contos, crônicas, novelas e ensaios. Você pode ler alguns dos poemas do autor e ter outras informações críticas na revista Agulha.

“Agradeço muito, sou feliz porque sou bem publicado, ganhei prêmios, tenho bons leitores. Mas não me considero realizado de jeito nenhum”

O senhor é pouco adepto a uma teorização excessiva da literatura, teorização notadamente feita nos meios acadêmicos. Acredita que essa prática padroniza e distancia ainda mais a literatura do público?

Sim. Nietzsche disse certa vez que tudo aquilo que precisa de grande explicação não vale grande coisa. Ninguém precisa de teoria literária para ler literatura. A teoria é uma coisa que veio depois da literatura, assim como a gramática veio depois da língua. É a posteriori. Literatura é um contato direto. É um contato de sensibilidade. A literatura, como qualquer arte, é algo que está além de inteligência, está acima da inteligência, é maior do que a inteligência: é muito mais intuição e emoção. Se você vai estudar literatura intelectualmente, você já a reduziu, porque ela é maior do que isso. Não que eu seja contra a teoria, nem contra a crítica. Mas o contato com a arte não exige isso.

Quando você olha um quadro de Van Gogh, por exemplo, qual é o raciocínio que você faz sobre o quadro de Van Gogh? Você não tem que fazer um raciocínio. Você sente o impacto da pintura, você sente aquela coisa, você não sabe explicar, mas aquilo lhe enriqueceu de alguma forma. Você está diferente depois de ter visto. Se alguém te perguntar por quê, você pode dizer: não sei, mas eu me sinto outra pessoa, me sinto mais rico, impactado por aquela coisa. A gente não precisa conhecer música para ouvir música, para ouvir um Beethoven ou quem quer que seja. Não precisa ser um erudito musical. Nem precisa conhecer teoria da poesia para ler poesia coisa nenhuma. Então, a teoria existe, mas ela não é essencial para que a gente chegue à arte. A gente chega à arte antes de chegar à teoria.

Mesmo tendo essas opiniões a respeito da teorização, o senhor exerce a dupla atividade de crítico literário e poeta/escritor. Acha que isso se reflete diretamente na temática de suas obras poéticas?

Não. Eu não sou propriamente crítico literário. Eu escrevi ensaios sobre literatura. São coisas muito mais da minha intuição do que da minha proposição crítica. Às vezes, quando eu gosto de uma obra, eu faço uma resenha. Mas é porque eu gostei, não para ficar discutindo questões críticas. Em sala de aula, eu ponho os estudantes em contato direto com a literatura. Eles mesmos às vezes me pedem: “professor, mas eu queria uma bibliografia crítica”. Eu digo: “não vou dar. Vocês não precisam disso. Você tem sensibilidade suficiente para poder ler. Não precisa. Agora, se depois você quiser, você procura e vai ler. Para que você precisa ler uma bibliografia para ler Machado de Assis, para ler Guimarães Rosa, para ler esse povo todo? Não precisa. Basta sentar e ler”.

O senhor já ganhou diversos prêmios pela qualidade de sua obra poética. Considera-se um poeta consagrado?

Claro que eu sou hoje muito mais conhecido do que era antes. Isso é fatal. Mas essa coisa de consagração, eu acho que não existe. Se alguém se acha consagrado, está mais para o equívoco do que para qualquer outra coisa. Porque o artista é aquele que jamais está satisfeito. Se ele ficar satisfeito, ele morre. Se ele achar que ele cristalizou a obra, então ele não vai mais adiante. Mário de Andrade dizia que o auge… se alguém chega ao auge, não é o início da decadência. O auge já é a decadência. Porque se você chega ao auge, você não pode subir mais, só pode descer, está na hora de “pendurar as chuteiras”…

O meu sentimento em relação à arte, é exatamente que, quando eu escrevo alguma coisa e publico, para mim, aquilo já cumpriu o seu papel, já foi para o mundo. Enquanto os outros estão pensando que estou curtindo aquilo, já estou ocupado com outras coisas. Aquilo já foi, já não me pertence mais, está nas mãos dos leitores, está circulando por aí, não é mais meu. Meu é aquilo que espero que ainda venha. Então, quando vier, é o mesmo processo. Essas coisas de consagrado são uma besteira. Eu agradeço muito, sou muito feliz porque sou bem publicado, ganhei vários prêmios, tenho leitores, bons leitores. Mas não me considero realizado de jeito nenhum.

O que acha da alcunha de “poeta da memória”, que já lhe foi dada? Acha possível a busca do “tempo perdido”?

Sobre essa questão de ‘poeta da memória’, eu sempre pergunto o seguinte: qual poeta não é da memória? Se você for ler Bandeira, Jorge de Lima, Drummond, Camões, todos são “poetas da memória”.

Há uma coisa muito curiosa que as pessoas não costumam ver: a única coisa que a gente tem é o passado. É a única coisa que nos pertence. O que nós somos? Nós somos o nosso passado. Se alguém lhe pergunta quem é você, você responde com aquilo que você viveu até agora. Sendo assim, tudo que nós possuímos de fato é memória. O escritor, qualquer escritor, escreve principalmente com a memória. Só podemos escrever, produzir, com a nossa experiência, nossa experiência pessoal. Cada artista tem a sua. A memória é a fonte. Não há outra. Um poeta inglês romântico, William Wordsworth, dizia que a criação poética é a emoção recolhida em tranquilidade. A poesia nasceria da “emotion recollected in tranquility“. Ou seja, você recolhe aquela emoção e trabalha com ela. Então, tudo é memória.

O senhor considera possuir algumas influencias literárias facilmente identificáveis em sua obra poética?

Isso é curioso. É claro que eu tenho. Eu tenho centenas de influências. Quanto mais você ler mais influência você tem. O que é absolutamente normal. Curioso, às vezes a crítica me aproxima de Drummond, às vezes me aproxima de Manuel Bandeira. E, há pouco tempo, de um poeta que me deixou meio espantado. Agora eu não me recordo quem era. Eu fiquei até espantado, porque eu acho que não tem quase nada a ver. É um poeta nacional, neo-parnasiano. E eu que sou um inimigo extremo dos parnasianos. Não do parnasianismo, eu sou admirador de um Olavo Bilac. Mas os que vieram depois, concretismo, “geração de quarenta e cinco”, poesia práxis, todos neo-parnasianos. Isso aí eu acho um atraso de vida.

O senhor se considera um modernista na contemporaneidade?

Não, porque como dizia Mário de Andrade, o modernismo acabou nos anos 20. Quando Oswaldo publica o Manifesto Antropófago do qual muitos professores gostam muito e eu acho que não significa nada, Mario dizia: “mas, pô, não é mais hora de manifesto. O modernismo já acabou, isso foi em 1928. O modernismo já acabou. Só se grita alerta uma vez. Não se fica o tempo todo gritando alerta, que é besteira”. Agora é hora de fazer a obra, de impor a obra. Eu não sou modernista, porque não existe o modernismo. Já existiu. Eu sou um herdeiro disso. Não só do modernismo. Eu sou um herdeiro de tudo aquilo que li, que estudei da nossa herança ocidental, da literatura e da poesia em particular.

E quem predomina nos seus poemas, Dionísio ou Apolo [alusão a deuses da mitologia grega que, na tradição crítica, representam valores artísticos opostos: o primeiro, a expressão pura do sentimento; o segundo, a bela forma, a perfeição no fazer]?

Os dois têm de estar misturados, têm que formar um corpo só. A técnica e a inspiração, a técnica e a intuição, ou como se queira chamar, têm que estar juntas. Não existe arte se uma delas faltar, porque arte é artesanato também. Mas não é só artesanato, é mais do que artesanato, aí entra o mundo da sensibilidade. Se não houver artesanato, é impossível haver a arte, mas se só houver artesanato, não há arte. O artista tem que ser antes de tudo, um grande artesão, e tão bom que você não perceba o artesanato nele. Quando você percebe muito o artesanato, isso não é virtude, é defeito… Ficar falando o tempo todo na arte de escrever, como escrever… isso não é virtude, não é grandeza não. Grandeza é você ler um autor, fruir, participar dessa emoção e achar que ele escreveu com simplicidade. Simplicidade é a coisa mais difícil que existe. Só escreve com simplicidade quem é muito bom. Ele é tão bom que você não percebe que aquele trabalho custou um determinado esforço. Parece que ele fluiu naturalmente. Nunca flui naturalmente.

Tanto a forma quanto a emoção tem de estar juntas. Porque a arte em última análise é forma… arte é forma. Forma e conteúdo são uma coisa só. As pessoas ficam discutindo: “é mais ou menos, mas o conteúdo é muito bom”. Olha, se é mais ou menos, não presta, por melhor que seja o conteúdo. Como dizia Carlos Drummond de Andrade: “de boas intenções não nascem necessariamente bons versos”. Não existe essa diferença.

Há espaço hoje para a poesia ou já não há mais pessoas interessadas — usando a metáfora de Drummond — nos segredos que podem ser revelados pela “Máquina do Mundo”?

Não. A poesia continua. Como em toda época, tem gente que não tem necessidade, ou, melhor dizendo, não tem… não merece… tem gente que se consola com coisas inferiores e para elas isso é suficiente. E tem gente que não. Tem gente que tem uma necessidade lírica maior. A poesia continua sendo necessária para aqueles que chegam até ela, que precisam dela.

Se um dia isso não for possível, vai ser muito difícil viver. Eu não sei se vai valer a pena. Porque, através das eras, os homens criaram as artes porque precisam delas. Ninguém criou isso porque é bonitinho, engraçadinho. É porque você não passa sem ela. Ninguém vive sem arte. Não há nenhuma cultura, por mais primitiva que seja (esse termo, “primitivo”, é preconceituoso, na verdade) que não tenha a arte. É arte, seja ela qual for, canto, dança (na qual a poesia já está presente), pintura e vem o resto todo. Então, nós criamos isso porque precisamos disso. Nós não podemos viver sem isso.

O senhor considera que a função da arte no mundo contemporâneo seria a de desautomatização e desmecanização dos indivíduos nas sociedades tecnológicas e logocêntricas?

Não, eu não acredito que a arte tenha uma função. A arte é inútil. Ela é. Ela existe. Nós precisamos dela. Ela não deve jamais ser posta a serviço de qualquer coisa. Ela deve ser inteiramente livre. Sempre que houve uma ditadura, como na União Soviética, que criou o tal realismo socialista, uma literatura dirigida, pode observar que essa literatura dirigida não vale nada, não tem qualidade nenhuma, porque é dirigida pelo raciocínio, pela ideologia, e a arte não se cria assim. A arte é epifania, é inspiração.

Existem os artistas e aqueles que não são artistas, algumas pessoas são capazes de criar apenas. Agora, todos os seres humanos são capazes de fruir a arte. Todos têm os mesmos sentimentos. Um poeta não é diferente, nem superior às outras pessoas. Ele é apenas aquele que (ele nem sabe o por quê) é capaz de colocar no papel, de colocar em versos, os sentimentos que são de todo mundo.

O senhor concordaria com o poeta Alberto Caeiro [Fernando Pessoa] que “pensar é não compreender” e que o poeta “não deve ter filosofia, mas sim possuir sentidos”. Seria a racionalidade excessiva uma das causas de isolamento e da solidão do homem contemporâneo?

O homem sempre foi solitário. A solidão não foi inventada pelo mundo contemporâneo. Se você pegar os autores mais antigos, você vai ver eles falando de solidão. A solidão é um dado da existência humana. Nós somos animais solitários, principalmente porque nós somos perplexos, ou seja, nós não sabemos o que é a vida, não sabemos se tem um sentido, não sabemos de onde viemos, nem para onde nós vamos. A única coisa que a gente tem certeza é de que um dia a gente vai morrer. E como a gente morre de medo de morrer, então a gente fica inventando as religiões, os paraísos depois da morte e coisas desse tipo.

Agora, veja você, tem um verso de Fernando Pessoa que eu acho importantíssimo: “o que em mim sente está pensando”. Não há sentimento sem pensamento. Essas coisas estão juntas em todos nós. Você não pode deslocar… você não pode ser um homem 100% frio. Não pode. Você não pode tirar o emocional e jogar fora. Você não pode ser 100% emocional. Você não pode, porque você tem um lado de raciocínio. O homem é esse amálgama. o que ele produz é resultado desse amálgama. E a arte é isso, é tudo isso, essa mistura. Se você racionalizar demais, você mata a arte. Se ela é apenas emoção, se não existe um artesanato, se não existe o conhecimento técnico, se não existe essa ajuda, também não vai dar certo. Será apenas um grito de angústia, um ataque de choro, uma risada solta no espaço, mas não será arte, porque a arte é composta por isso que nós somos. E nós somos… nós não somos nem totalmente bons, nem totalmente maus. Nós não somos nem totalmente racionais, nem totalmente emocionais. Somos uma mistura disso.

Atualmente, o senhor atua como professor de literatura brasileira na Universidade Federal da Bahia. O senhor acha possível formar escritores nas academias universitárias?

Uma coisa é certa, arte não se ensina. Não existe ensino de arte. É impossível ensinar arte. O que a gente pode ensinar é teoria de arte, história da arte, técnicas artísticas. Numa escola, por exemplo, de Belas Artes, você não transforma ninguém em pintor, nem em escultor. Você ensina a ele técnicas. Ele na verdade vai ser professor e vai ser crítico, aí sim, vai ser um estudioso. Agora se ele for artista, por ter nascido artista e está na escola, ele vai aprender aqueles ensinamentos e vai aplicar na sua arte. Mas ele terá que ter nascido artista. Então, em uma escola como essa, não existe a pretensão de ensinar literatura, a não ser que seja alguém muito ingênuo, porque literatura não se ensina, você ensina essas coisas em torno dela. Você comenta, você procura despertar um senso crítico, aí é o lado intelectual. Mas não é um diploma que vai fazer ninguém escritor. Não há como ensinar arte, há como ensinar técnicas de arte. Formação de críticos, sim, formação de professores, sim, formação de ensaístas, sim; formação de escritores, não.

O processo de criação, por exemplo, é uma coisa muito complexa, do qual a gente só desconfia de algumas coisas. A gente não tem certeza do que escreve. E depois, muitas vezes, a gente estranha o que escreveu como se fosse outra pessoa que estivesse escrito. E na verdade foi outra pessoa, porque foi uma pessoa que naquele momento escreveu, que já não é mais. O artista não pode produzir uma obra e depois, como ele tem conhecimento, produzir outra e mais outra e mais outras. Não pode. Ele produz quando isso acontece.

Essas coisas são bastante obscuras. Porque literatura é arte, não é linguagem referencial, é uma linguagem metafórica, é uma linguagem simbólica. O objetivo da literatura não é falar à inteligência das pessoas, é mexer com os sentimentos delas, é despertar outro tipo de conhecimento, que é o emocional. É interessante o seguinte: nós somos educados e as pessoas sempre valorizam a inteligência. A gente não é educado emocionalmente. Por isso a gente se perde tantas vezes, por falta de educação emocional. Quer dizer, o sujeito é inteligente, mas como um sujeito tão inteligente como fulano de tal foi fazer uma besteira daquela? Ele tem maturidade intelectual, mas não tem emocional. A literatura e as artes, de um modo geral, ajudam muito nisso. Porque, através delas, você cresce emocionalmente.

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