Cultura

Lucila Nogueira

De ancestrais luso-galegos, carioca de nascimento, pernambucana de alma, Lucila Nogueira percorre a poesia como se percorre um caminho de descobertas contínuas, elevando ao máximo grau suas significações e potencialidades. Tradutora, editora, contista e professora de literatura brasileira e portuguesa, além de teoria literária, da Universidade Federal de Pernambuco, está sempre lançando pontes entre si e os alunos, para que a comunhão de experiências permaneça sempre a tônica do seu trabalho. Em vez de simplesmente fazer com que os acadêmicos tomem contato com as escolas estéticas e com a mera História da Literatura, os impulsiona sempre para um contato maior, uma vivência quase intrínseca com os personagens que compõem o imaginário literário. Exemplo dessa parceria entre professora e alunos é o conjunto de ensaios comemorativos aos 650 anos da morte da amante do rei de Portugal, D. Pedro : Saudades de Inês de Castro, publicado em 2005, pela Edições Bagaço.

De Almenara (1979), passando por Desespero Blue (2003), até Poesia em Caracas e Poesia em Cuba (2007) (espera reunir em volume único sua tetralogia ibérica, compostos pelos já publicados Ainadamar, Ilaiana, Imilce e Amaya) o confessionalismo e os valores culturais da sua ascendência lusitana e galega se revezam na sua escrita, criando um ambiente único, somado à sua técnica. Foi o que chamou tanto a atenção dos expoentes da Geração 65 da poesia pernambucana, um grupo admirável composto, entre outros poetas e escritores, de Alberto da Cunha Melo, Marcus Accioly, Ângelo Monteiro, José Rodrigues de Paiva, Maximiano de Campos, Raimundo Carrero, Jaci Bezerra — há quem compare tal grupo (devido à movimentação artística que causou no Recife) ao famoso Orpheu portuguê, de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro.

Nesta entrevista, ela fala da Geração 65, de confessionalismo, da divulgação da poesia e mostra que, mesmo sem uma grande divulgação, a poesia pernambucana permanece viva e ativa.

Lucila, geralmente você é conhecida como uma das integrantes da Geração 65 da poesia pernambucana. O que há de positivo e negativo em determinadas classificações? Para você, quão significativa é a Geração 65?

Eu fui publicada em jornal por membros da Geração 65 , no caso Ângelo Monteiro, Alberto da Cunha Melo, Jaci Bezerra. Foi em 1975, no Jornal Universitário e no suplemento literário do Jornal do Commercio. Era amiga, desde 1971, de Terêza Tenório, que editara seu primeiro livro em 1969, dez anos antes de mim, pois Almenara só surgiu em 1979. A chamada geração 65 é um momento muito forte na literatura brasileira, como a geração Orpheu foi para a portuguesa. Só com um certo distanciamento é que se torna possível melhor avaliar.

Você sempre diz que todo poeta é marginal. O que há de mais marginal na poetisa Lucila Nogueira? É possível ao poeta hoje em dia estar completamente ao largo do mundo? Ou totalmente integrado nele, até se dispondo à uma perfeita integração com a comunidade acadêmica?

Essa marginalidade está bem nítida no que escrevo, como falou o Jefferson Souza [aluno do mestrado] outro dia, só que as pessoas não prestam muita atenção. Estão muito presas aos clichês, não dá para ficar explicando (risos). Quanto à universidade, ela é a minha segunda casa, nisso não estou longe dos poetas contemporâneos, em grande parte professores.

Como acadêmica o que você tem a dizer aos jovens estudantes sobre os poetas mais novos, ou antes, os poetas que não são considerados canônicos?

Sempre estou chamando a atenção deles para o novo, há muitos anos levei seguidamente poetas como Miró e Espinhara para a sala de aula, trabalho muito as velhas e as novas vanguardas. O que é passado aos alunos do Curso de Letras é esse estado de eterna vigilância quanto ao surgimento dos valores, uma consciência intersemiótica de seu estar no mundo. E do papel da literatura no resgate do mais profundo que há na condição humana.

Sua poesia é marcadamente confessional. Como não confundir o confessionalismo com aquele velho cacoete dos jovens poetas de crerem que a simples expressão do sentimento, sem uma técnica, se constitui poesia?Qual o limite entre o pacto autobiográfico , o puro “fingimento” e um desabafo?

A poesia que escrevo é diversificada, há vários livros não confessionais, como Quasar, Ainadamar, Imilce, Ilaiana. Observe que o confessionalismo não se confunde com a autobiografia. Tenho trabalhado muito a linha do pacto autobiográfico de [Philippe] Lejeune na graduação e na pós. Existe o diário, o autorretrato, as memórias, o romance autobiográfico, existe o blog.

Esta semana, na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), um ex-casal de escritores debateu o livro-questionário feito pela mulher a mais de cem pessoas sobre o e-mail com que ele terminou o relacionamento que ambos mantinham. Essa visão romântica do sujeito e sua vida pessoal está com muita força presente na literatura contemporânea. [Lucila parece se referir ao trabalho da artista Sophie Calle. Ela teve seu relacionamento com o escritor Gregoire Bouillet encerrado por uma mensagem de email. Calle então mostrou a mensagem para 104 pessoas, entre artistas, escritores, fotográfos, e pediu que realizassem obras baseadas em suas reações. O resultado não foi um livro-questionário, e sim uma exposição que atualmente está no Sesc Pompéia. A Bravo! tratou da exposição e disse a respeito: “Desde o começo da carreira, em 1979, a francesa sobressai por questionar e embaralhar os limites que separam o público do privado. Usa a própria intimidade — e a alheia — como matéria-prima”]

No que concerne à poesia, a da experiência (norte-americana) se vincula ao trânsito pelos fatos do cotidiano. Eu me identifico, sempre escrevi versos como uma reportagem do que vivo, penso, sinto, espero e imagino. E aí surge o aspecto marginal que nos caracteriza a todos, nessa rejeição da falsa estabilidade, da turva mediocridade, da automação que nos impõe o sistema, inda que a aceitação no gosto do público venha, mais cedo ou mais tarde, a nos tornar canônicos.

O Daniel Piza, em seu site, diz o seguinte:

“a ficção nacional sempre soa como uma espécie de memória disfarçada, uma crônica rarefeita e emotiva, parasitária de alguma influência mal digerida. Os personagens nunca deixam de ser autobiográficos; o estilo sempre está a reboque de outro. Não se explora a língua nem em seu potencial de pensamento nem de percepção.” (texto completo)

Como você liga sua poesia à sua própria intimidade e que isso é uma característica da literatura contemporânea, como você comentaria essa “provocação” do Piza?

Esse rapaz escreveu uma biografia com muitos erros sobre Machado de Assis, parece que o fizeram recolher o livro — vamos deixá-lo descansando em seu jornalismo cultural?

Como você enxerga o panorama atual da poesia recifense e pernambucana? O que falta a Pernambuco, tão pródigo em poetas, demonstrar que a poesia daqui não parou no tempo?

Nunca faltou poesia a Pernambuco. Como imaginar o modernismo sem Bandeira, a vanguarda sem Cabral, como esquecer um Mauro Mota, um Carlos Pena Filho, um Audálio Alves, um Alberto da Cunha Melo ? Fora os que vieram de longe e aqui ficaram , como César Leal, Angelo Monteiro, Jaci Bezerra, tantos tantos. E os de hoje, então? As inúmeras publicações, os continuados recitais. Poesia nos bares, nas universidades. Em livros, em fanzines, nos blogs, nas revistas online. Do que sobra não podemos dizer que falta.

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