A exposição “Pro Liturgia: Ordinatrices du Temps Présent”, na França, ressignifica uma abadia, retoma textos religiosos e discute nossa “existência digital”

imagem: Félicie d’Estienne d’Orves, Deep Field | imagem: © CDVO Catherine Brossais

“Nós estamos obcecados com a tecnologia da mesma forma como as pessoas não podiam escapar da influência das religiões 300 anos atrás. Nós temos ou somos seguidores, nós confiamos em um ser onisciente e imaterial para responder todas as nossas questões (Yahweh? Brahma? Google?) Nós seguimos as regras do livro… o Facebook…”. A fala é do produtor e pesquisador da cultura digital Julien Taïb, curador da exposição Pro Liturgia: Ordinatrices du Temps Présent, em exibição na Abadia de Maubuisson, na França até o dia 29 de março. Por ocasião dessa mostra coletiva, Taïb conversou com Úrsula sobre os temas que guiaram a curadoria: de um lado, a ambiência da abadia, sua história, sua fé; do outro, nossa relação com a tecnologia, que, vê-se acima, assume aspectos religiosos.

Pro Liturgia conta com cinco trabalhos, que põem em diálogo a arquitetura do local, textos cristãos (em particular, materiais relevantes para a Ordem de Cister, que fundou a abadia) e temáticas próprias aos artistas. Os criadores — Laura Haie, Cécile Babiole, Jean-Marie Boyer, Coletivo Iakeri, Marie-Julie Bourgeois, Félicie d’Estienne d’Orves, Cécile Beau — compuseram as obra em sintonia com o lugar e com a curadoria: “Conversamos sobre o que sabíamos sobre a vida dos monges que habitaram esse lugar sagrado. Há alguma conexão entre o modo de vida cisterciano e as nossas existências (pós) digitais?”.

Outro destaque da exposição é que ela é composta em sua maioria por artistas mulheres. “Foi intencional”, afirma o curador, “um lembrete de que 70% dos estudantes de arte são mulheres e de que 70% das mostras coletivas na França ainda são compostas de artistas do sexo masculino. Por quê?”. Taïb comenta mais sobre os temas mulheres nas artes visuais/mulheres e tecnologia, e fala também sobre o modo como Pro Liturgia foi importante para ele em nível pessoal: “É uma ‘expiação’ da minha própria dependência da tecnologia”.

Como Pro Liturgia foi desenvolvida? Que ideias guiaram a seleção dos trabalhos?

Ela nasceu de um diálogo entre a equipe da abadia, que queria fazer algo diferente das exposições individuais que eles usualmente fazem. Da vontade de fazer uma mostra de arte coletiva consistente veio a surgir essa proposição de arte contemporânea digital.

Duas questões: a) Entendo que Pro Liturgia tem algo de site-specific — pelo que se lê no site, o edifício da Abadia inspirou a seleção. Como foi isso? b) também se pode ler no site que a mostra é “uma reflexão sobre o equilíbrio entre o homem e a máquina, a natureza e o artifício, o material e o imaterial”. Você pode comentar esses pontos?

Eu produzi ressonâncias/equivalências entre as antigas funções das salas históricas da abadia e as obras dos artistas. Houve casos em que eu pedi um trabalho, e eles me propuseram algo diferente, como fez Félicie d’Estienne d’Orves, Cécile Babiole ou Marie-Julie Bourgeoius. Quanto a essa última, a sua Silence é inspirada pela Regra do Glorioso Patriarca São Bento: nela, o quarto mais iluminado tem só a luz de um sol ficcional.

Os artistas visitaram o espaço e nós conversamos sobre o que sabíamos sobre a vida dos monges que habitaram esse lugar sagrado durante 500 anos. Como era o seu dia a dia? Suas esperanças? Seus propósitos? Há alguma conexão entre o modo de vida cisterciano e as nossas existências (pós) digitais?

A tecnologia, para além da ferramenta, dos canais, usa as emoções de qualquer das civilizações contemporâneas para o melhor e para o pior

Pode falar um pouco sobre os trabalhos e artistas selecionados?

Cada obra conta duas histórias: uma mais contextual e outra mais geral:

Laura Haie, Confiez-leur vos désirs: próxima a uma máquina de café, na sala do capítulo [local de reunião dos monges com seus superiores] da abadia. Uma braço mecânico coloca um cubo de açúcar em um caneca, igual você faria. Em vez de você. Singularidade, transhumanismo, grande substituição ou dispositivo emocional pobre (espelhado).

Cécile Babiole, Bzzz le son de l’électricité and Copy That [esta, com Jean-Marie Boyer]: duas obras que trabalham o som e a comunicação no único quarto em que — alguns — monges tinham o direito de falar.

Coletivo Iakeri, Murs Invisibles [formado por Alice Guerlot-Kourouklis, Jimena Royo-Letelier, Aneymone Wilhelm): a instalação está em um corredor que originalmente levava à lavoura. Agora a colheita é de dados. O que esses dados nos dizem? Um desequilíbrio massivo entre homens e mulheres nos campos pessoal e profissional.

Marie-Julie Bourgeois, Silence: São Benedito rege esses espaços de trabalho dos monges. A tecnologia, seu charme e sua propaganda constantes, nos mesmeriza?

Félicie d’Estienne d’Orves, Deep Field: um espaço pequeno e uma fronteira entre a promiscuidade humana e a salvação prometida, entre o material e o imaterial. Uma pequena e frágil flama de uma vela ilumina um diapositivo de uma vista do [telescópio] Hubble representando três mil galáxias. A primeira tecnologia dominada pelo homem, o fogo, encontra a derradeira, o profundo olho no céu.

Cécile Beau, Fontaine Hépatiques: o trabalho oferece um Jardim do Éden, como ele era antes da aparição do homem. Fim? Começo?

Esses são artistas que, na maioria, eu já conhecia com quem já havia trabalhado em mostras anteriores… ou de quem admirava os trabalhos e queria muito que estivessem em Pro Liturgia.

Quase todos os artistas de Pro Liturgia são mulheres. Isso foi intencional, você quis enfatizar trabalhos femininos?

Foi intencional, um tributo para os 500 anos de atividade das monjas que foram parados pela Revolução Francesa. Um lembrete de que 70% dos estudantes de arte são mulheres e de que 70% das mostras coletivas na França ainda são compostas de artistas do sexo masculino. Por quê?

A participação das mulheres na tecnologia (por exemplo, o trabalho de Ada Lovelace) é frequentemente apagado, e o seu papel frente à tecnologia (assim como com a razão) foi, na filosofia e em outras áreas, considerado diferente daquele dos homens. Essa distância imposta a elas lhes proporciona um ponto de vista único da tecnologia? Especulando, a relação das mulheres com a tecnologia é diferente em algum sentido?

Sendo radical, eu penso que depois de 300 mil anos sob um modo de vida patriarcal, as mulheres fazem o que podem, como podem. Com facilidade, os artistas homens usam a tecnologia para o empoderamento, a luta de poder, a espetacularidade, a necessidade de pervasividade. Arte maior, melhor, mais forte, mais engraçada. Porque suas mães e seus pais disseram a eles que é assim mesmo antes de que decidissem ser artistas. Eu não sinto esses impulsos constantes ou obsessivos nas artistas com que trabalhei. Eu partilhei frações de um espaço sagrado, os artistas fizeram sete incríveis santuários a partir disso: um mundo por artista, nos quais você se sente bem-vindo, estimulado no corpo e na alma.

No site da Abadia de Maubuisson, nós lemos: “Não teríamos nós insidiosamente ritualizado a nossa relação com os nossos telefones e outras tecnologias de ponta?”. Como você vê isso? Podemos falar de um relacionamento religioso com a tecnologia?

Nós estamos obcecados com a tecnologia da mesma forma como as pessoas não podiam escapar da influência das religiões 300 anos atrás. Nós temos ou somos seguidores, nós confiamos em um ser onisciente e imaterial para responder todas as nossas questões (Yahweh? Brahma? Google?) Nós seguimos as regras do livro… o Facebook… nós desenvolvemos em 30 anos uma nova e persistente liturgia: essas ferramentas que em sua maioria certamente podem nos levar a algo melhor. Ou não.

Talvez nós possamos dizer que a tecnologia nos dá um senso de totalidade que tínhamos na religião e que meio que se perdeu. Totalidade na sociedade, no comportamento, de perspectivas, no campo das conexões — tudo isso era provido pelo cristianismo (ou pelo nacionalismo, se quisermos outro exemplo), mas não mais. Em um mundo fragmentado, há essa experiência que todos têm: a tecnologia. Você concorda?

Sim, eu concordo com essa “ideia Esperanto”: a tecnologia, para além da ferramenta, dos canais, usa as emoções de qualquer das civilizações contemporâneas para o melhor e para o pior. Nós nos sentimos em um purgatório do qual as nossas ações digitais poderiam nos fazer “ascender”.

Como a curadoria de Pro Liturgia se relaciona com os seus projetos pessoais e pesquisas?

É uma “expiação” da minha própria dependência da tecnologia. Um contraponto, uma pequena tomada de distância frente à minha resfolegante produção artística. Ainda tenho um longo caminho até a salvação.

 

 

Categorias:Cultura

Participe da conversa