Jobim Jr.: “Escrevo e ilustro para quem vai levar meus livros para a vida toda”

Jobim Jr.

Escritor, ilustrador e animador fala sobre trabalhar com o público infantil – de suas inspirações às dificuldades do mercado editorial brasileiro

Jobim Jr.
Ilustração de Jobim Jr.

Jobim Jr. (@jobimjr.art) é um autor relativamente novo no mercado editorial brasileiro. Escritor, ilustrador de livros infantis e animador. A sua escrita, porém, já chegou mostrando o seu potencial. Trata-se de um enfrentamento da ordem imposta, do racismo aos demais preconceitos, dialogando com aqueles que mais farão a diferença: as crianças.

O seu A Insólita História do Queijo que Queria ser Goiabada, livro publicado em 2021 pela editora Urutau que aborda o tema da transexualidade, desde a sua campanha de financiamento coletivo, gerou diversas reações – desde ataques vindos de “religiosos fundamentalistas e conservadores em geral” até críticas de militantes LGBTQIAP+ que acusaram o autor de “apropriação de espaço de fala”, sendo ele cisgênero. Mas a obra persistiu. A editora (que tem diversos autores e livros LGBTQIAP+ no seu catálogo) publicou-a. Uma obra encantadora, que, testada por esse que vos escreve com crianças de cinco anos, mostrou-se muito bem recebida.

Por que pessoas transgênero assustam tanto os “adultos”? De que formas publicações como a de Jobim Jr. ajudam nessa luta? Afinal, o que é escrever para crianças? Procurando alguma resposta (ou, quem sabe, buscando novas perguntas), conversei com Jobim uma pessoa simpática e animada, com um jeito divertido que dá certa luz de esperança de que, no fundo, as coisas vão dar certo (apesar da demora).

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Jobim Jr.: “Adultos fecham-se. Já crianças e adolescentes estão abertos para uma compreensão mais plural” | imagem: acervo do autor

Quem é Jobim Jr.? Onde ele nasceu, onde vive, o que faz quando está criando?

Sou gaúcho de Porto Alegre e nasci quatro meses antes do golpe de 1964. Já morei no Paraná, em São Paulo (capital e outras três cidades) e, hoje, vivo na Bahia, em Salvador. No ano que vem, voltarei para Araraquara, interior de São Paulo, cidade que adoro e onde já vivi por doze anos. A verdade é que eu amo o interior paulista.

Fui publicitário, cheguei a trabalhar em agências grandes, mas fui me inclinando, cada vez mais, à esquerda e me sentindo desconfortável na profissão. Em um país de grandes contrastes sociais como o nosso, propaganda, que incentiva as pessoas ao consumo, me parece algo injusto. Fiz dança por onze anos, sou ator, artista visual com várias exposições em galerias, escultor, animador, escritor, ilustrador, arte-educador (mantive uma oficina livre de cinema para adolescentes por cinco anos em Araraquara), grafiteiro… É muita coisa.

Além disso, gosto de passear de bicicleta, tomar banho de cachoeira, me reunir com os amigos para assistir a um filme em casa. Sou vegetariano em transição para o veganismo: não consumo açúcar refinado nem frito alimentos. Sou um natureba. 

De onde veio o interesse pelo livro infantil em sua vida? Por que você escolheu trabalhar com isso?

Não tem como falar do livro infantil sem antes falar da literatura em si. Sempre li e escrevi muito e me destacava na escola com redações inusitadas e bem acabadinhas. Cheguei a ganhar dois prêmios literários estudantis no Ensino Médio com uns contos meio surrealistas. Mas, olha só como são as coisas, nos anos 1980, precisava de uma graninha extra e comecei a escrever pulps para duas editoras. Como as editoras tinham muita demanda de leitores e os pacotes de licenciamento não davam conta, alguns títulos eram escritos aqui mesmo, por brasileiros. Eu escrevia trinta páginas datilografadas com cópia em carbono, enviava para a editora e o livrinho saía com um pseudônimo, geralmente um nome inglês, às vezes até feminino. Pagavam mal, mas como escrevia um por semana, acabava sendo um dinheirinho bem-vindo. Fiz isso por quase dois anos, mas nunca consegui localizar nas bancas um único livro que tenha escrito – e escrevi quase cem. Parei quando os pulps simplesmente acabaram.

Essa experiência me proporcionou muito traquejo com narrativas, embora não desse pra fugir muito de uma estrutura achatada que copiava os pulps estadunidenses. Foi só em 2000 que recebi um convite de uma editora paulistana para escrever uma versão pulp de 200 páginas do Mahabharata, aquela antiga lenda indiana. Como não entendia nada do assunto, designaram um expert que me contava a história em fitas cassete para que eu criasse o texto. Creditaram esse cara como coautor, mas ele não escreveu uma única linha. Em 2016, por incentivo de uma namorada, voltei a desenhar e decidi que seria autor/ilustrador de livros infantis. Salvo raras exceções, adultos têm certezas, fecham-se para mudanças. Já crianças e adolescentes estão abertos para as novidades e uma compreensão mais plural do mundo e da vida. Escrevo e ilustro para quem vai levar meus livros para a vida toda, o que me proporciona uma realização muito maior.

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Jobim Jr.: “O que digo é que se deve dialogar com sinceridade com as crianças” | imagem: acervo do autor

Qual é a maior dificuldade em escrever e desenhar para crianças? Como é a linguagem do livro infantil? 

A dificuldade está em administrar a responsabilidade, porque a criança é uma identidade em formação, um espírito com amplos espaços vazios e é preciso ter em mente que pode ser um livro a preencher alguns desses espaços. Tenho lido muitos trabalhos acadêmicos sobre pedagogia e linguagens em livros infantis e, a cada leitura, me aperfeiçoo mais. Dedico mais tempo a aprender sobre o assunto do que trabalhando, de fato, em algum livro. E as linguagens para os livros infantis são múltiplas e pluriculturais. É impossível determinar uma régua. O que digo é que se deve dialogar com sinceridade com as crianças.

As crianças de hoje estão mais exigentes?

É um assunto que pode vir em vários recortes. Poderia dizer que as crianças hoje são mais exigentes quanto aos conteúdos, mas seria uma fala vazia. Quais crianças são exigentes e o que exigem? O buraco é mais embaixo. Moro em Salvador e, aqui, a maioria da população é bastante pobre e os desafios ainda são manter as crianças na escola, longe do trabalho infantil e bem alimentadas. Adoraria que o Estado comprasse numerosas tiragens de meus livros e os distribuíssem nas escolas, mas as crianças precisam estar lá (e não vendendo balas no semáforo, sendo agredidas, abandonadas, abusadas e tendo suas infâncias e seus futuros roubados). As crianças exigentes vão bem, obrigado. Eu me preocupo com todas as outras.

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Jobim Jr.: “[Um livro de Tim Burton] mudou a minha percepção do que se pode narrar para crianças: qualquer assunto pode ser abordado” | imagem: acervo do autor
Em 2020, você começou, com a Urutau, a campanha de financiamento pela obra A Insólita História do Queijo que Queria Ser Goiabada. Como surgiu a ideia desse livro e o produziu?

Foi uma junção de muitas coisas. Quando eu adolescente, lá em Porto Alegre, ajudava um casal de amigos indo buscar a filhinha deles na creche. Um dia, resolvi cortar caminho pela Avenida Voluntários da Pátria (conhecida, na época, como zona de meretrício noturno). Era final de tarde e algumas travestis estavam tomando seus postos. A menina percebeu algo de diferente naquelas garotas e me perguntou o que era. Paramos em uma sorveteria e, então, expliquei do jeito que deu (não se tinha acesso a tantas informações como hoje), com muito carinho e respeito. A partir desse episódio, percebi que certos assuntos tidos como “adultos” devem ser explicados para as crianças, sem a carga de preconceitos conservadores do tradicional ambiente familiar de classe média.

Pulando para 2012, mais uma cena importante. Estava em uma festa junina em Araraquara, com aquele monte de guloseimas típicas do interior paulista. Entre elas, Romeu e Julieta (que é, simplesmente, goiabada com queijo). Uma amiga pegou um e comentou: “Esse aí é um docinho típico: shakespeariano, heteronormativo e cisgênero”. Achei graça e guardei essa fala. No final de 2016, resolvi fazer o meu primeiro livro infantil. Ao pesquisar e experimentar estilos e técnicas, tive como inspiração [o cineasta e escritor] Tim Burton. O livro dele, O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias (1997), conta com personagens que estão em busca de suas identidades, algo que sempre me instigou. Esse título mudou a minha percepção do que se pode narrar para crianças: qualquer assunto pode ser abordado.

Juntei essas referências todas e criei A Insólita História do Queijo que Queria Ser Goiabada, cuja primeira campanha de crowdfunding, no início de 2017, acabou contaminada com discursos de ódio, o que me assustou. Cancelei a campanha antes do prazo, deixei que aquela carga negativa me afetasse e fiquei desapontado. Já com a Urutau foi completamente diferente: o meu trabalho foi acolhido com afeto e escolhido como título inaugural do selo infantil da editora, Tádesol Tádelua. Durante o processo, conversei com amigas e amigos trans, revi alguns pontos e cheguei a uma forma de texto e imagem que me satisfez. Hoje, o meu estilo de traço mudou, firmei uma identidade visual própria, mas mantenho a mania de nomes longos para livros.

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Jobim Jr.: “Todo mundo já se sentiu inadequado e não se aceitou. Se para adultos isso tem tanto peso, pense como uma criança administra esses sentimentos” | imagem: acervo do autor

A transfobia mudou algo na sua produção literária?

Como comentei, a transfobia atrapalhou mais a primeira campanha de financiamento coletivo. Vários discursos de ódio por parte de religiosos fundamentalistas e conservadores em geral. E houve também alguns militantes LGBTQIAP+ que me acusaram de apropriação do seu espaço de fala, uma vez que sou hétero e cisgênero e o meu livro aborda a transexualidade. Não lhes tiro a razão, mas a verdade é que só localizei alguns autores trans de livros infantis na Holanda. Por isso, acho que só ocupei um espaço ainda vazio. Mesmo assim, a maioria dos comentários vindos desse segmento foram positivos e motivadores. Vê-se, de uns tempos para cá, um ódio plural, destinado a gays, artistas, religiões não-cristãs, políticas sociais, pessoas não-brancas etc. É um ódio que, infelizmente, sempre existiu e está potencializado pela internet. O Brasil está nos primeiros lugares em rankings de violência e homicídios motivados por homofobia, transfobia, pedofilia e misoginia e isso não pode deixar de ser discutido. Precisamos, com urgência, de políticas funcionais e, a longo prazo, de uma educação mais humanista e inclusiva para acabarmos com tantos preconceitos. 

Notei que os temas inadequação (se é que essa é a palavra certa) e diferenças aparecem em outros livros e trabalhos seus, como é o caso de O Triste Drama do Pato que Não Queria Ser Pato. Como lidar com esses temas em livros infantis? Qual é a importância de levar eles para crianças?

O livro O Triste Drama do Pato que Não Queria Ser Pato não foi publicado. Na verdade, nem o submeti à apreciação de nenhuma editora. É um trabalho experimental e eu apenas publiquei algumas imagens no Instagram. E você usou as palavras certas: inadequação e diferenças. Podemos acrescentar também: auto-aceitação. Todo mundo, em algum momento, já se sentiu inadequado, errado, quebrado, imperfeito e não se aceitou por isso. Se, quando somos adultos, isso já tem tanto peso, pense como uma criança administra esses sentimentos. Eu, por exemplo, fui criado em um ambiente onde a criança boa era a criança quietinha, calada, que brincava sem se sujar e ia bem na escola. Educam-se as crianças para o conforto dos adultos, não para que elas sejam felizes. Eu, ao contrário, por meio das minhas obras, digo às crianças: vocês já são alguém, alguém que importa e tem muito valor.

Como construir uma relação imagem-texto em livros infantis? Há alguma ordem hierárquica desses elementos?

Não há uma ordem de importância entre os elementos. Os livros infantis são divididos em categorias: começa com aqueles com imagens de página inteira e pouco ou nenhum texto, passa por categorias intermediárias até chegar naqueles com apenas texto (os primeiros da saga Harry Potter, por exemplo). Eu faço picture books, justamente essa primeira categoria, que privilegia as imagens. O processo de criação vai de cada autor. No meu caso, cada livro tem uma história e tudo ocorre de forma orgânica e natural.

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Jobim Jr.: “Eu, pelas minhas obras, digo às crianças: vocês já são alguém, alguém que importa e tem muito valor” | imagem: acervo do autor

Teremos mais livros de Jobim Jr. no Brasil e em português?

Essa questão é delicada. A verdade é que o mercado editorial no Brasil é, em termos de negócios, muito hostil ao autor/ilustrador. Quando você publica um livro na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália ou no Canadá, recebe, de cara, um generoso advance, ou seja, um adiantamento – que, hoje, faz uma grande diferença no bolso. No Brasil, as grandes editoras não pagam nada adiantado e você recebe entre 4 e 6% do valor de venda ao consumidor, por exemplar. Juro que tentei, mas recebi propostas muito ofensivas. Se você não é um Ziraldo da vida, uma celebridade que bota seu próprio preço, está ferrado. É uma alegria poder publicar no meu país, mas eu já sei, de antemão, que aquele livro não vai se constituir em um acréscimo substancial no meu orçamento pessoal. E os editores não têm culpa disso: trata-se de um reflexo da nossa realidade socioeconômica e cultural.

Por fim, que autoras e autores você leu e gostou recentemente? 

Tenho um certo ecletismo literário. Cito cinco livros dos quais gostei: Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), um romance do português Júlio Dinis; Failed States: The Abuse of Power and the Assault on Democracy (2006), do linguista Noam Chomsky, autor que todo mundo deveria ler se quiser entender o enrosco em que estamos metidos no Ocidente; A Tenda Vermelha (1997), de Anita Diamant, uma narrativa sensível e inteligente; O Menino do Dedo Verde (1957), um clássico de Maurice Druon para crianças; Caetés (1933), de Graciliano Ramos, que dispensa comentários.

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