Cultura

“Fill All My Holes”: A Ninfomaníaca de Lars Von Trier

Ao nomear sua última obra cinematográfica como Ninfomaníaca (Nynphomaniac, 2013), Lars Von Trier traz à tona uma personagem que atravessa distintos tempos e momentos de nossa cultura, desde as ninfas gregas – entre as quais estão as musas, filhas de Mnemosyne – até a acepção popular da ninfa como a representação de uma mulher jovem e sedutora. A presença da ninfa no título do filme de Lars Von Trier não parece, portanto, ser gratuita: em todas as suas acepções, a ninfa remete invariavelmente ao feminino, e ao fim dos créditos de Ninfomaníaca II, uma primeira interpretação nos leva a crer que a longa obra cinematográfica (originalmente contendo cinco horas de duração, e editada para o cinema em dois filmes de pouco mais de duas horas de duração cada) trate, justamente, de certos aspectos da questão feminina na sociedade atual.

Após os minutos de tela preta que iniciam a primeira parte do filme, encontramos Joe (Charlotte Gainsbourg, dando vida, mais uma vez, a uma personagem feminina no cinema de Von Trier, na repetição de uma tarefa aparentemente tão difícil que beira a entrega absoluta ou até a própria loucura) semi-acordada em um beco escuro. Ela é socorrida por Seligman (Stellan Skarsgaard), um judeu intelectual de meia idade. Após se recompor na casa de Seligman, Joe, como as musas, filhas da memória, inicia a narração de sua história para aquele que a resgatou. Como as musas faziam com os poetas e artistas, ela inspira-o, não sexualmente, a princípio, mas intelectualmente. A cada capítulo da vida de Joe segue a intervenção erudita de Seligman, que vê nas ações de Joe correspondências com a arte (o número de vezes em que Joe é penetrada em sua primeira experiência sexual correspondem aos números da sequência Fibonacci, cuja simetria, encontrada na natureza, é mimetizada nas artes plásticas e na música), com a literatura (a excitação de Joe frente à morte de seu pai coincide com episódios da literatura, afirma Seligman, em uma provável alusão à História do Olho, de George Bataille), e até mesmo com a pesca (a sedução com a qual a jovem Joe atrai seus parceiros segue, para Seligman, mecanismos semelhantes ao da isca denominada ninfa, no momento da pesca). O personagem de Skarsgaard, portanto, parece funcionar como um mediador (por vezes insistentemente didático) entre os símbolos propostos por Von Trier e o espectador menos erudito. Aparentemente não resta símbolo a ser decodificado pelo público, já que Seligman traça o caminho pelo qual deve seguir a interpretação do espectador.

É a partir desse mecanismo que conhecemos a conduta da jovem Joe, interpretada por Stacy Martin. Quando adolescente, a personagem utiliza o sexo como jogo com a melhor amiga – ambas chegam a fundar uma espécie de clube, no qual compartilham o incentivo ao sexo com o maior número de homens sem envolvimento sentimental -, mas sua história tem seu ponto de virada quando ela se reencontra com Jerome (Shia Le Beouf), o rapaz que, anos antes, havia tirado sua virgindade em precisos 7 movimentos. Após passar um longo período se relacionando sexualmente com o maior número de homens possível – o que acarreta a destruição de famílias, como a que testemunhamos no capítulo Mrs. H, no qual Uma Thurman interpreta uma mulher cujo marido a trai com Joe, aparentemente indiferente ao estrago provocado pelo adultério no qual se envolve – ela se reencontra com Jerome e se envolve sentimentalmente com ele. Na cena que finaliza a primeira parte de Ninfomaníaca, a personagem pede a Jerome: preencha todos os meus buracos. A alusão ao uso do sexo como tentativa de preencher não só as ausências físicas como também as emocionais e psicológicas é óbvia, mas a falta em Joe não advém, inicialmente, dos planos sentimentais – ela menciona, na segunda parte, seu repúdio ao sentimentalismo -; ela já não consegue mais sentir prazer sexual.

Ao ser destituída daquilo sobre o qual sua vida se construiu, a histeria de Joe se manifesta em agressividade. A segunda parte de Ninfomaníaca,portanto, representada por Joe em sua fase adulta, mostra a personagem se desfazendo de sua família e de seu emprego enquanto busca a violência como satisfação sexual. Para a personagem, a partir desse ponto, a dor sentida ou infligida é sua forma de sentir prazer – e a agressividade chega à sua manifestação física: seu órgão sexual chega a se transformar em uma ferida. Sexo e violência, agora, se confundem. É justamente por isso que Joe consegue passar por um período sem ter relações sexuais – não sem sofrer, como qualquer outro viciado, com as crises de abstinência – quando trabalha extorquindo pessoas a partir de violência física ou psíquica.

O sexo para a ninfomaníaca de Lars Von Trier assume diversas faces, e Joe as persegue em todas as fases de sua vida. Por essa atitude, a personagem é vista como uma peça fora de seu meio, como representante de um desajuste social. Quando compara sua solidão e seu desajuste aos de uma árvore resistente, retorcida e isolada em cima de uma montanha, a estrutura narrativa do filme, em que a história de Joe era decodificada por um homem que revela, na segunda parte do filme, não ter tido experiência sexual nenhuma, é interrompida. Não coincidentemente, é também na segunda parte do filme que Joe, após ouvir sem reconhecer as referências de Seligman, afirma que seu interlocutor parece se interessar mais pelas conexões eruditas que estabelece com sua história do que pela própria história em si. A partir de então, a trilha através da qual Seligman conduzia o espectador parece se mostrar não tão confiável quanto de início. Se estamos frente à história da ninfa, por que é o homem virgem o responsável por ressignificá-la e fazer com que o público a assimile?

Talvez porque a narração de Joe se construa a partir da culpa e a mediação de Seligman funcione como a absolvição da personagem feminina. Para todos seus supostos desvios morais, há uma referência biológica, artística, bíblica, literária, entre tantas outras, que mostram a Joe que ela não estreia nenhuma perversão ou desvio: estes já foram todos catalogados na cultura, e Seligman está a par de todos.

Porém, quando Seligman interpreta a fala de Joe, que se descreve como alguém que sempre exigiu mais cores do pôr-do-sol, como a fala de uma mulher em busca de seus direitos, Lars Von Trier propõe outra trilha desconfiável para seu espectador percorrer. A leitura proposta por Seligman é possível, mas se contradiz nos minutos finais do filme. Se, através da atitude final do personagem judeu – assim como através da iniciação de um novo ciclo com Jerome e P., a pupila de Joe – Von Trier mostra o pior lado do humano, e, também, o pior lado do homem, que trairá seu discurso libertário à primeira tentação, talvez não devamos interpretar a história de Joe apenas como a história da repressão sexual feminina. Não porque a repressão não exista, mas porque, na história de Joe, uma personagem com todos seus desvios morais e lados humanamente sombrios, não há espaço para medirmos o justo e o injusto, o repressor e o reprimido, em termos políticos. Joe é, ao mesmo tempo, vítima e produtora de injustiças, assim como Jerome, assim como P., assim como Seligman. Sua culpa, a qual Seligman tenta absolver (talvez não sem cobrar uma penitência final), é grande o suficiente para fazê-la, após experimentar o sexo em todas as suas variantes – e sofrer, por isso, consequências que, como de fato, não seriam todas elas sofridas por homens -, querer abdicar da experiência sexual e se reconstruir sobre outras perspectivas, sobre outras faltas. A impotência de Jerome, no início do segundo filme, reconhecida quando ele diz que não pode preencher todas as ausências de sua mulher, é a impotência universal sobre a qual se constrói Ninfomaníaca: o que fazemos com as nossas faltas, com nossas ausências?

Joe representa, como ela mesma quer acreditar, uma exceção, uma mulher em um milhão, a mulher cujos impulsos sexuais não podem ser reprimidos – nem por ela mesma. Suas colegas de terapia de grupo a denominam “viciada em sexo”. Porém, utilizando a terminologia “Ninfomaníaca”, a personagem assume as qualidades, ao mesmo tempo, da ninfa – a mulher, a sedutora, a musa contadora de histórias – e da maníaca – aquela que sofre com alguma obsessão. É, portanto, enquanto ninfomaníaca que Joe se reconhece e se orgulha de quem é, durante grande parte de sua trajetória. Talvez porque, mesmo frente à solidão, à culpa e ao desajuste provenientes de seu estilo de vida, ela saiba o que busca para preencher seus próprios buracos, e, sabendo disso, busca-o de forma incansável.

 

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