Diário do México #2 | Assentamento

Ainda não te desvendei, México. E nem você a mim

Essa foi a semana do assentamento da rotina, da confecção da agenda, da organização, já que estou aqui para estudar, antes de tudo, talvez. Não, não acredito que seja assim porque antes de tudo estão essas novas sensações que me assaltam a cada dia vivido nesse país. E elas vêm de diferentes direções, pertencem a distintos motivos. Me tomam, seja pelo gesto de um senhor que encontrei casualmente no trolebús que pego para ir à universidade (ele disse que sabia que eu estudava na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), pois me via todos os dias no ônibus e, depois que disse ser uma intercambista brasileira, me deu seu cartão, dizendo que lhe podia escrever caso me faltasse alguma coisa), seja pela garoa que deixei molhar meu rosto com pleno gozo uma noite voltando da aula (e disseram que só choveria em julho e que o ar seco incomodaria cada vez mais), seja pelas ruas de Copilco onde meu grupo de intercambistas se juntou à procissão de estudantes que passam por ali diariamente e que fazem com que os carros mal possam circular (aqui, na verdade, os carros não circulam, ziguezagueam pelas avenidas tentando achar brechas no tráfego intenso, infringindo todas as leis de trânsito existentes e ainda por ser inventadas).

Agora, caminho pelas ruas próximas à casa onde estou… morando… já distraída, já perdida em pensamentos, sem me ater a cada esquina, a cada detalhe, para não perder a rua em que deveria entrar. Já não confundo mais um chile (pimenta) com um nopal (cacto comestível) perdido num taco aparentemente inocente (nem me iludo mais com o no pica mucho [não é muito apimentado] dos mexicanos). Já sei usar o guey e o híjole, recursos enfáticos do espanhol mexicano, usados para chamar a atenção de alguém e para expressar assombro/surpresa, respectivamente. Mas ainda somos desconhecidos, eu e este país. Nessa semana, fechei-me num bairro (aqui se diz colonia), numas ruas repetidas, no meu caminho que já virou caminho de sempre (casa-universidade-casa), porque o cansaço da primeira semana foi tão intenso que quis — precisei — descansar. E adiei algumas sensações que ainda estão por vir.

Troquei um passeio a Teotihuacan por um passeio de trajinera (que eu diria ser uma gôndola mexicana) em Xochimilco, onde naveguei pelas águas calmas dos canais da delegação ao sudoeste da Cidade do México, onde algumas tribos indígenas pré-colombianas se instalaram e costumavam também navegar. Sobre as águas destes canais, ouvi os mariachis cantar suas músicas típicas, tomei cerveja com pimenta, limão e sal (qualquer item comestível e “bebível” tem sua versão que pica por aqui) e cantarolei músicas brasileiras para os mexicanos ouvir.

E, ainda na bucólica trajinera, vi a senhora que, ao lado de um adorno de caveira, na varanda de uma casa à beira de um dos canais, me dirigia olhares de estranhamento. Em meio à minha semana de descanso, os olhos anciões me lembraram:

— Ainda não te desvendei, México. E nem você a mim.

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