A autora do documentário “What is Democracy?” fala da complexa tarefa dos movimentos democráticos: “Ser desregrados ao mesmo tempo em que buscam construir novas regras”

publicado originalmente pela New Statesman America. Autor e revista autorizaram a publicação
tradução: Duanne Ribeiro
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No dia 30 de novembro de 1999, 40 mil manifestantes bloquearam uma reunião de representantes dos países associados à Organização Mundial do Comércio; a Batalha de Seattle, como ficou conhecida, conseguiu manchetes nos jornais e estimulou um movimento que, no início do novo milênio, rapidamente se espalhou pelo mundo, de Quebec a Gênova a Cancun. Críticos desqualificaram a onda de protestos como sendo aa ação de ativistas “anti-globalização”. Mas o movimento nunca foi sobre um retorno ao passado: seu objetivo era a justiça global.

Duas décadas depois, nós assistimos a um ressurgimento dos protestos de massa: manifestações no Chile contra um legado de aumento dos custos de vida, privatização e desigualdade; os milhares de homens e mulheres iraquianos demandando uma vida digna; os manifestantes nas ruas de Hong Kong clamando por democracia; e os grevistas do clima que se alastraram pelo mundo. O contexto pode variar, mas muitos dos temas trazidos pelos ativistas em Seattle reverberam nesses levantes: globalização corporativa, corrupção das elites, a exploração dos trabalhadores e do meio ambiente, o déficit de direitos políticos e a natureza da democracia ela mesma.

Mas os vinte anos da Batalha de Seattle também servem como um lembrete doloroso de que antes era a esquerda quem oferecia a crítica mais imperiosa da ordem econômica dominante. Quando da crise financeira de 2018, um vazio político e intelectual foi aberto, e a direita se aprestou a preenchê-lo. Donald Trump, Boris Johnson e outros populistas nacionalistas como eles se colocaram contra acordos financeiros transnacionais e prometeram ajudar o cidadão médio a “recuperar o controle”.

O problema, claro, é que o protecionismo deles é da boca pra fora. Como todos os plutocratas, visam a um mundo em que o dinheiro e as mercadorias são livres, e as pessoas (especialmente os imigrantes) não são. Ao ignorar, nos anos 1990, o movimento por justiça global, os políticos nos colocaram em perigo.

Hoje com frequência se diz que estamos vivendo um momento de crise política. A palavra “crise”, assim como “democracia”, vem do grego antigo. Ela designa o ponto de alteração de uma doença — a mudança que indica ou morte ou recuperação, duas cruas alternativas. É apropriado, assim, que duas possibilidades divergentes se anunciem para o ocidente democrático: de um lado, o caminho para sociedades mais igualitárias, alicerçadas em maciças transformações dos sistemas econômico e energético; de outro, um retrocesso nostálgico, étnico-nacionalista, de direita.

Já argumentei muito que a democracia nunca existiu realmente. Em vez de ser algo que nós tínhamos e que apenas recentemente perdemos, eu vejo a democracia como um horizonte ao qual temos de continuamente avançar. É um ideal que precisa ser aprofundado e expandido. As massivas reuniões nas praças e nas plataformas de metrô em Santiago, Bagdá, Hong Kong e, em escala menor, Nova York, onde protestos contra a violência policial ocorreram no início de novembro de 2019, estão tentando fazer exatamente isso.

O que faz a democracia tão evasiva é que sua natureza inerentemente contraditória. Trabalhar em vista de uma sociedade mais democrática envolverá equilibrar uma gama de valores opostos uns aos outros; liberdade e igualdade, conflito e consenso, o local e o global, o presente e o futuro. Democracia também requer pesar espontaneidade e estruturação, revolta aberta e formulação de regras, insurreição e gestão do estado — ambos os lados são necessários para que o progresso seja alcançado.

A democracia é bagunçada. Uma e outra vez, rebeliões, greves, calotes e levantes urbanos dobraram a vontade de autoridades recalcitrantes. Mas a história também mostra que não existem atalhos: ondas repentinas de descontentamento têm de ser expandidas, administradas e avançadas pelo trabalho lento e difícil da organização pela mudança. Nós devemos celebrar a contagiosa energia dos protestos de massa e dos confrontos de rua ao mesmo tempo em que canalizamos o seu fervor em esforços focados e estratégicos que tenham mais potencial de perenidade.

Essa foi a lição que eu aprendi em 2011, quando estive envolvida no Occupy Wall Street, um protesto viral e horizontal não diferente do movimento por justiça global (com efeito, veteranos dos protestos de Seattle podem ser encontrados no parque Zuccotti, em Nova York, onde se reuniam os manifestantes do Occupy). Muito antes da polícia ter desocupado o último acampamento, era evidente que um movimento que se recusava a apresentar demandas à gestão pública ou a considerar a possibilidade de tentar tomar o poder nunca atingiria os seus objetivos.

E ainda assim, mesmo que destinado a esboroar, o Occupy serviu a um propósito crucial. Ele forçou uma conversa sobre capitalismo e classe nos Estados Unidos e estabeleceu o cenário para uma insurgência de esquerda ao redor de Bernie Sanders que abalou o Partido Democrata.

Minha esperança é que daqui a duas décadas alguém não tenha de escrever um artigo sobre como este nosso momento de crise política e protestos de massa foi uma chance perdida. Assim como o movimento por justiça global há 20 anos, o movimento pelo clima e a onda internacional de levantes democráticos estão chamando atenção para problemas que nos afligem a todos. Para vencer, eles terão de ser desregrados ao mesmo tempo em que buscam estar em posição de construir novas regras. Que essa geração possa olhar para trás e não se arrepender por não ter tentado.

 

Categorias:Política

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