O Medo de Morrer/Viver

Jean-Paul Sartre e Roger Waters conseguiram expressar angústias e medos que afligiam, além deles, toda sua geração

Jean-Paul Sartre, no sufocante existencialismo do livro O Muro nos narra cinco histórias que a princípio parecem dissociadas entre si, tão diversos são seus temas e personagens; mas que logo nos mostra a que vieram e sob qual ideário foram criadas. Em 1939, ano de publicação da obra, também foi o ano em que se iniciou a Segunda Guerra Mundial, ano em que os muros do medo tomaram conta de toda Europa, de toda casa e família européia; ano também, em que as mais horrendas injustiças cometidas contra a humanidade começaram a tomar forma. Imbuído de um espírito crítico contra o que o início da guerra previa, Sartre cria personagens que levam à ruína os valores vigentes em sua sociedade, e afirma a “autenticidade da existência sem valores preestabelecidos”.

O primeiro valor derrubado por Sartre na primeira narrativa, também entitulada de “O Muro” é o valor que se espera ser dado à vida por um indivíduo à beira da morte. Pablo Ibbieta, o personagem condenado à morte por pertencer ao movimento anarquista, nos descreve em primeira pessoa sua passagem pela prisão desde o interrogatório até as últimas consequências de sua condenação à morte. Acompanhamos com angústia as diversas fases pelas quais os condenados — Pablo e seus dois companheiros de cela — passam após receber sua condenação, desde o pânico até a indiferença diante de sua própria morte; e a indiferença para com aqueles que à pouco mais de vinte quatro horas julgavam amar ou preocuparem-se, por quem agora já não sentiam mais nada, nem ao menos se preocupavam.

Pablo e seus dois companheiros de cela passam a noite que antecede a execução na companhia de um médico que parece ali ter sido posicionado pelo autor para expressar as enormes diferenças entre um ser vivo e um “ser” morto, como nos relata o personagem:

Nós três o olhávamos porque ele estava vivo. Fazia gestos de gente viva, tinha as inquietações de um vivo… possuía um corpo obediente e bem nutrido. Nós não sentíamos mais nosso corpo — não o sentíamos como ele, em todo o caso.” — e após um incidente em que o médico tenta ajudar o condenado de nome Tom acalmando-o, que em resposta, tenta irracionalmente morder a mão do médico, Pablo descreve a reação deste após fugir para longe de Tom: — “Durante um segundo ele olhou-nos com horror, devia ter compreendido de repente que não éramos mais homens como ele.

Sartre, emprestando novamente a voz do personagem Pablo, nos mostra as possibilidades que sentimentos causados por conceitos tão opostos como vida e morte, tem de entranhar nas mentes e sensações corpóreas dos condenados (e também nas mentes da humanidade condenada a viver sob tal efemeridade da existência):

No estado em que me achava, se viessem me avisar que eu poderia voltar tranquilamente para casa, que a minha vida estava salva, ficaria indiferente; algumas horas ou alguns anos de espera dão na mesma, quando se perdeu a ilusão de ser eterno… Estava calmo. Era, porém, uma calma horrível — por causa do corpo; enxergava com seus olhos, ouvia com seus ouvidos, mas não era mais eu; ele suava e tremia sozinho e eu não o reconhecia.

Um Muro em Torno da Consciência

Em 1979, o álbum The Wall, do Pink Floyd, apresentava ao mundo um grito contra o autoritarismo, a música que clamava pelo direito de expressão, que expressava ojeriza contra o mundo que dava forma à cidadãos cindidos, indivíduos que viam como única possibilidade de sobreviver separar-se do mundo por um muro imaginário:

Ooooh, you cannot reach me now
Ooooh, no matter how you try
Goodbye, cruel world, it’s over
Walk on by

Sitting in a bunker here behind my wall
Waiting for the worms to come.
In perfect isolation here behind my wall
Waiting for the worms to come.

(“Waiting for the Worms“)

Roger Waters, líder da banda e responsável pela criação artística e conceitual do álbum e da maioria das músicas, é um war baby — conceito usado na Inglaterra para designar as crianças nascidas da Segunda Guerra Mundial, que por consequência desta nasciam sem pai. Foi à partir de sua história de vida que concebeu o álbum The Wall, que conta através de suas músicas a história do anti-herói Pink oprimido pela sociedade pós-guerra desde a infância; sofrendo sob os cuidados abusivos da mãe viúva e tolhido pela escola rígida da época:

We don’t need no education
We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers! Leave them kids alone!
All in all it’s just another brick in the wall.
All in all you’re just another brick in the wall.

“Wrong, Do it again!” / “If you don’t eat yer meat, you can’t have any pudding. How can you have any pudding if you don’t eat yer meat?” / “You! Yes, you behind the bikesheds, stand still laddy!”

(“Another Brick in the Wall – Part 2“)

Pink constrói um muro em sua consciência que tem o poder de isolá-lo da sociedade, e passa assim, a viver em um mundo de fantasia e alucinações; numa das quais se vê condenado por um tribunal a derrubar seu muro e abrir-se para o mundo exterior. Ele expressa, na música “Outside the Wall”, à que o levou sua condenação final:

All alone, or in two’s,
The ones who really love you
Walk up and down outside the wall.
Some hand in hand
And some gathered together in bands.
The bleeding hearts and artists
Make their stand.
And when they’ve given you their all
Some stagger and fall, after all it’s not easy
Banging your heart against some mad bugger’s wall.
“Isn’t this where….”

(“Outside the Wall“)

The Wall apropria-se da possibilidade que cada indivíduo possui de absorver e compreender a vida e a morte de acordo com suas próprias experiências. Não há um final feliz. Não há um final propriamente dito. Waters, ou seu auterego Pink, nos fala sobre morrer e renascer: matar dentro de si o medo de viver (derrubar o muro) e escolher viver realmente, renascer sob uma nova perspectiva que não pode enxergar pelo um muro que tapa sua visão e o protege da vida. “The Wall” também nos fala sobre a ironia da vida, sobre o esforço tremendo de se fazer viver, enxergar, se entregar, para apenas descobrir que… “Isn’t this where…” dejavu!!

Além do álbum, o conceito resultou em um filme que trabalhava as ideias do CD de forma imagética [assista ao filme completo no Youtube].

“Quando se trata de agir ‘em nome de outra coisa que não de si mesmos’, as paixões, o bem-estar e saúde física tendem a estabelecer o quanto estamos dispostos a ajudar”

O Ego acima da Bondade

As duas obras nos falam desse oculto e ambíguo sentimento: o medo de morrer/viver. Ambas nos empurram em direção a este sentimento controverso e confuso, mais comumente identificado pelo puro medo de morrer, de não mais existir. Mas esta identificação se mostra bastante simplista se analisada sob a ótica do sofrimento de Pink — que, diante do medo de viver em um mundo tão horroroso e injusto, escolhe morrer para a vida exterior, e viver somente para si; ou até mesmo diante da constatação de Pablo sobre já não estar mais vivo à partir do momento de sua condenação à morte, e refletir o quão insignificante seria não mais morrer “quando se perdeu a ilusão de ser eterno“.

Tanto Sartre quanto Waters conseguiram expressar angústias e medos que também afligiam, além deles, toda sua geração. E foram além, suas ideias permanecem coerentes para uma posteridade que vive o medo e a angústia — não apenas da guerra — mas da violência que se entranha em cada canto da sociedade, do terrorismo, das epidemias que agora viajam pelos aeroportos do mundo, da miséria e pobreza, das diferenças sociais e da injustiça, da força de destruição da natureza, das ainda existentes guerras santas; ou ainda da distorção dos valores e princípios humanos — que antes eram paradigmas, e agora já não se sabe mais o que são.

Será a vida (ainda) um valor acima de tudo? Ou terá esta importância sido ultrapassada por crenças religiosas e seus derramamentos de sangue em nome de um Deus? Será a vida tão valiosa para aqueles que nada possuem além de perdas, tristezas e sofrimentos? Será valiosa a ponto de criar uma preocupação com o próximo, empatia, solidariedade? Com certeza existem ainda aqueles que ainda veem na vida, no milagre de existir, algo que incentiva a solidariedade, mas não terá também este termo sofrido suas distorções? O sociólogo Zigmunt Bauman pensa que sim:

“Não que tenhamos ficado surdos às nossas preocupações com os infortúnios de outras pessoas, ou com o triste estado do planeta, nem que tenhamos deixado de ser sinceros sobre tais ansiedades. Também não deixamos de declarar nossa disposição de agir em defesa dos oprimidos, assim como na proteção do planeta que eles compartilham conosco, nem de atuar (ao menos ocasionalmente) a partir dessas declarações. O oposto parece ser o caso: a ascensão espetacular da auto-referencialidade egotística, paradoxalmente, caminha de par a uma crescente sensibilidade à miséria humana, a execração da violência, dor e sofrimento que afligem o mais distante dos estranhos, e as erupções regulares de caridade focalizada (terapêutica). Mas, como Lipovetsky corretamente observa, esses impulsos morais e essas explosões de magnanimidade são casos de ‘moralidade indolor’, moralidade privada de obrigações e sanções executivas, ‘adaptada à prioridade do Ego’. Quando se trata de agir ‘em nome de outra coisa que não de si mesmos’, as paixões, o bem-estar e saúde física do Ego tendem a ser tanto as considerações preliminares quanto as derradeiras. Também tendem a estabelecer os limites do caminho que estamos preparados para percorrer em nossa disposição de ajudar.”

O medo da morte é iminente; assim também o é o medo de viver, mesmo àqueles com sorte — pois estes podem viver bem, mas ainda passam pelas mesma ruas onde outros catam do lixo suas refeições, assistem aos mesmo telejornais sensacionalistas que apropriam-se da imagem das crianças feridas pela guerra ou pelos terremotos. Viver em um mundo tão cruel pode nos parecer muitas vezes, mais doloroso que morrer. Este sentimento ambíguo cria indivíduos cindidos, sem um rumo certo à seguir, com valores e princípios cambiantes ao sabor das boas-más novas. Bauman descreve-nos um experimento realizado com ratos que nos elucida o tema:

“N.F. Miller e J. Dollard, psicólogos americanos, conduziram um experimento com ratos defrontados com um ‘pacote’ composto por uma saborosa porção de banha e um desagradável choque elétrico. Os ratos circulavam em torno da fonte dessa mensagem ambivalente, incapazes de fazer algo racional (dificilmente haveria algo racional para ser feito…). Os dois pesquisadores desenvolveram uma teoria em 1941: no momento em que há um equilíbrio entre adiance e abiance (impulsão e repulsão, atração e aversão, a atração crescendo com a fome, a aversão aumentando com a proximidade do fio elétrico exposto), o desequilíbrio mental e a irracionalidade de comportamento são as reações mais prováveis.”

Sob esta premissa, a atração e a aversão provocadas pelo viver e pelo morrer respectivamente, transformam cada indivíduo no mundo em seres propensos ao “desequilíbrio mental e a irracionalidade de comportamento“. O sistema de vida em que hoje nos encontramos dá vida a indivíduos que explodem escolas por explodir, que metralham dúzias de pessoas no cinema como se brincassem de guerra, indivíduos como o idiota descrito pelo gênio da literatura e do pensamento filosófico do século XIX, Dostoiévski:

“O pintor Kramskói tem um quadro magnífico chamado O Contemplador. Representa um bosque no inverno e, numa trilha do bosque, um mujiquezinho embrenhado… está parado sozinho na mais profunda solidão, postado e como que mergulhado em meditação, só que não está pensando e sim ‘contemplando’ algo. Se alguém o tocasse, ele estremeceria e o olharia como se tivesse despertado, mas sem compreender nada. É verdade que voltaria a si no mesmo instante, mas se alguém lhe perguntasse em que estava pensando ali postado, ele com certeza não se lembraria de nada, mas seguramente conservaria em si a impressão sob a qual se encontrava durante sua contemplação. Essas impressões lhe são caras e é possível que ele as venha acumulando, sem se dar conta e até sem tomar consciência — e também sem saber, é claro, por quê para quê. Súbito, depois de haver acumulado impressões durante muitos anos, pode largar tudo e ir para Jerusalém em peregrinação e tentando salvar a alma, como também pode, num átimo, atear fogo à aldeia natal e pode igualmente fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Há bastante contempladores no meio do povo.”

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