Quase chapa branca, filme deixa de lado questões fundamentais. Seu melhor aspecto é o de valorizar a inteligência popular — e assim apontar um caminho aos progressistas

imagem: Frame do filme

O Netflix lançou nos últimos dias o documentário Democracia em Vertigem, uma tentativa de reconstituir a história da política brasileira nos últimos anos até a vitória de Bolsonaro.

A diretora Petra Costa faz uma narrativa bem sad, que mistura vida pessoal e história do Brasil num filme que tenta produzir uma catarse cinematográfica. Não vou me ater ao que é técnico do audiovisual, pois o filme é muito bem produzido, é um fato. Minha análise, portanto, vai de encontro ao tipo de narrativa e à história quase chapa branca que o documentário conta. E por que eu disse “quase” chapa branca? Porque existem algumas poucas ressalvas no doc sobre as escolhas do PT em todo o processo.

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O que me incomodou é que essas poucas e raras ressalvas não explicam para o espectador todo o processo que culmina com a queda do PT em 2018. O ponto central levantado pela diretora é o fato do PT ter sido um partido conciliador. Para ela, esse tom mais amigável ao mercado e o fazer alianças políticas com partidos conservadores definhou e destronou o partido.

A pergunta que fica é: Como governar sem fazer alianças políticas dentro de um sistema democrático de conquista? Esse definitivamente não foi o problema. Um das discussões nesse sentido diz respeito a como essas alianças foram feitas e a baixa qualidade delas. E nisso o documentário falha feio. Uma segunda questão foi a ausência de projeto consistente de país, que ficou centrado num nacional consumismo à base de preços de commodities.

Outro aspecto a ressaltar é a ausência completa de outros agentes do campo progressista, como se o PT não tivesse relação com esses líderes e como se não tivesse trabalhado para miná-los. O documentário simplesmente não reconhece o apoio de Leonel Brizola em 2002 e não cita a articulação da esquerda em 1998 e 2002. Haddad, coitado, o documentário não problematiza o fato de ele ter sido preterido como liderança para o futuro da esquerda no comício de Lula, no Sindicato dos Metalúrgicos, quando o ex-presidente levanta as mãos de Manuela d’Ávila e Guilherme Boulos, deixando Haddad no vácuo.

O doc quer passar uma sensação de que o PT não foi agente no processo que culminou no antipetismo exacerbado que vivemos hoje. Nada é dito sobre as articulações nefastas que fizeram Eduardo Campos romper com o partido, nada é dito sobre as articulações que colocaram Michel Temer como vice [na reportagem “A Cara do PMDB“, da piauí, há dados sobre isso] e Eduardo Cunha com poderes políticos em Furnas. Nada é dito sobre as articulações, inclusive contra candidatos petistas no nordeste, para isolar Ciro Gomes nas últimas eleições. Enfim, há muito mais a ser debatido e discutido do que apenas essa visão romântica apresentada pela diretora.

E, como se não bastasse, temos outra ausência fundamental no documentário de duas horas: a inexistência de uma discussão sobre o apoio popular dado a Bolsonaro. Sem esse debate, é impossível compreender o fenômeno e criar alternativas de superação, e, mesmo reconhecendo que Lula esteja preso sem provas no processo do triplex, e que a Lava-Jato esteja em xeque por conta dos vazamentos do Intercept, o fato concreto é que o campo progressista não pode ficar refém de um único líder populista na esquerda, seja ele quem for. Nesse sentido, o documentário é muito melancólico.

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Talvez o melhor aspecto do discurso da diretora seja a esperança que ela demonstra indiretamente na sabedoria popular, ou seja, naqueles que um dia elegeram Lula, Dilma e, agora, Bolsonaro. Eles podem mudar de rumo novamente em 2022. Apostar nessa inteligência popular e trabalhar duro talvez seja um caminho para os progressistas.

 

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