Por quem queremos no poder (de um lado e do outro aceitando muito menos do que o ideal) e por querer qualquer grau de justiça (de um lado e do outro tendo de aceitar nesse pacote justiceiro também a injustiça), somos tristes e alegres

Por que sinto tristeza com a ordem de prisão à Luiz Inácio? E por que sentem alegria aqueles que o detestam?

Estritamente quanto à execução de qualquer trâmite jurídico — com exceção daqueles em que estamos implicados — nos ocorre apenas indiferença (se vemos esse movimento como a prossecução de uma máquina mais ou menos alheia a nós) ou um consentimento pouco emocional (se acreditamos que o processo foi razoavelmente executado ou possui bases justas). Indiferença quanto às idas e vindas de pautas e recursos no dia a dia comum do Supremo Tribunal Federal. Indiferença quanto aos discursos protocolares e ignorados no Congresso Nacional. Consentimento amortecido às eleições.

Posso sentir indiferença pelo caso de Lula — já escrevi antes que há temas mais prementes e que seria consequente construir outras alternativas de esquerda — que estão sendo construídas essas outras alternativas. Posso consentir às decisões do STF e à investigação da Lava-Jato (em algum nível): pois, no limite, apesar do dois pesos, duas medidas ter sido aplicado como nunca antes na história desse país, um mínimo de respeitabilidade há de se encontrar, um mínimo de relação escusa entre Lula e empreiteira.

Mas, ainda assim, tristeza… em um formato de luto. Por que? E, do outro lado, a alegria, uma euforia de desforra, como não sentiriam em relação à maioria dos veredictos.

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Quando entrei na faculdade de jornalismo (pelo Prouni), foi feita uma exibição de cinema em que dois documentários passaram na sequência: Entreatos, de João Moreira Salles, e Peões, de Eduardo Coutinho. Complementavam-se para apresentar um símbolo poderoso: o primeiro acompanhava a campanha de Lula antes de chegar à presidência pela primeira vez, deixa o personagem à beira da posse. O segundo exibe o movimento popular que levou o candidato até lá.

Me lembro de poucas cenas dos filmes. De Entreatos, apenas a de uma conversa de Lula com não sei quem, falando que pela primeira vez ia ter alguém lá no planalto que bebe uma caninha ou que bate uma bola. Algo do tipo. Como eu sinto essa declaração: Lula expressava que uma vivência popular alcançava um espaço do qual sempre fora expulsa. A complexidade das pessoas ditas simples, uma naturalidade — enfim ali nos palácios dos eufemismos empedernidos.

Não fui criado por uma família de esquerda; meus avós eram malufistas. Minhas veleidades políticas eram de esquerda, mas não tinham forma quando da sua eleição e ele se elegeu antes que eu fizesse 16 (e só votei pós 18). Porém aquilo me convenceu de algo profundo; pode me ter remetido à minha avó, ambos de Pernambuco, ambos migrantes; certa tendência sufocada na sociedade brasileira se erguia.

Já de Peões, só me recordo desses mesmos, os tais peões, os trabalhadores de todo país que encheram a esplanada para comemorar. Aquilo que se contara na anedota estava aqui em corpo: esses personagens em um palco que não fora montado para eles. Não “fora do lugar”: finalmente, no lugar.

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Do outro lado, a percepção parece ser análoga: a sensação desses outros quando Dilma foi alijada do cargo (ou o que se ouviu dizer quando Michel Temer, ao lado de um derrotado nas últimas eleições, Aécio Neves, foi empossado), foi que tínhamos um presidente que se portava bem, que falava nos conformes. Sim: sentiam que algo estava deslocado com o PT, principalmente com Lula; e que algo se reposicionava.

Não quero cair no simplismo de dizer que “o ódio ao PT é um ódio das elites” ou que se fez o impeachment e se conseguiu a ordem de prisão porque “não aguentam pobre na faculdade ou andando de avião”. É certo, esses sentimentos circulam, mas não bastam para explicar a derrocada do PT; para nós da esquerda, aliás, é pedir para continuar sendo derrotados e para falhar no mesmo sentido se um dia voltarmos a vencer acreditar simplesmente que esse ressentimento foi a causa única.

De todo modo, é nesse nível das metáforas — do deslocado e do bem posto, dos personagens corretamente posicionados, dos bons e dos maus símbolos — é na recepção sentimental desses ícones que se encontra a resposta para a alegria e para a tristeza que me separa dos meus vizinhos.

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Minha tristeza pelo Lula, assim, é a tristeza pelo afastamento da possibilidade de um subalterno estar no poder. Sei do quanto Lula se afasta de um estereótipo tão angélico (pode ser visto como um burguês, traidor velado dos movimentos sindicais que liderou, conciliador perverso, que, no fim das contas, só mitiga a revolta e a verdadeira mudança; podemos perceber como o sucesso do PT solapou a própria esquerda). Por outro lado, não sinto que se faz justiça, mesmo que se sigam regras escritas pelo judiciário; justiça só o será se para todos, e, no jogo da política, mesmo que alguns como Aécio e Cunha sejam rifados, o núcleo duro continuará o business as usual, cada vez mais às claras, sob a vista grossa e a indignação para inglês ver da imprensa, dos poderes, de parcelas da população.

Já a alegria vem tanto do que parece vitória sobre tudo o que coloca (mesmo da forma mais amainada) a reivindicação de um poder popular (imagine só, o PT hoje, poder popular!); vem de um horror ao povo, ao descontrole da pluralidade, medo do demos, manifestado desde Platão. Por outro lado, surge sim de certa fruição de justiça, pois mesmo que Lula não tenha recebido o tríplex como suborno, não é possível que não tenha qualquer implicação em todo o resto. Seria razoável notar que pode não ser possível agir no sistema como está sem partilhar da culpa, mas isso não limparia a culpa. A alegria faria tábula rasa de todos os abusos e do insuficiente nas induções de Moro; Lula é culpado de algo, pensam, o pegaremos por onde der, como um mafioso.

Então, por quem queremos no poder (de um lado e do outro aceitando muito menos do que o ideal) e por querer qualquer grau de justiça (de um lado e do outro tendo de aceitar nesse pacote justiceiro também a injustiça), somos tristes e alegres.

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(O que seriam esses ideais? Justiça de ponta a ponta? Corrupção combatida desde a estrutura? Poder popular de fato — com as várias vozes do Brasil sendo ouvidas e sem as rédeas do país entregues a quem tenha dinheiro? Nós poderíamos, ambos os lados, nos encontrar nisso, pois é do nosso consenso que surge a possibilidade de qualquer justiça, e nós, todos, somos o povo, e o poder.)

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Abandonar Lula poderia resolver a aporia entre o que sinto e o que sei. Mas quais as chances dos demais candidatos que se filiam às classes mais baixas, que as ouvem? Qual o tempo da longa construção até chegar ao espaço de decisões institucionais outra vez? Quanto atraso será impingido se uma barreira não for colocada agora ante as forças de sempre que avançam? Uma batalha está posta e largar a posição por pudor trará mais mal do que bem. Como desarticular e articular, a um passo?

Essas são avaliações fundamentais do curto prazo e do nível da tática. Pois no longo prazo e no nível da estratégia, abandonar Lula tanto resolve a contradição de consciência e sentimento como serve a uma focalização do que realmente se quer: você sabe, eu sei, eu disse agora pouco, não se trata de Lula. Eu quero (nós queremos?) o subalterno sem nome com a faixa presidencial. Quero (queremos?) que se contem nos palácios histórias que os seus corredores nunca ouvem. Quero (queremos?) que preencham as supostas casas do povo risos diferentes daqueles da concórdia dos aristocratas. Que ancestrais outros abençoem a alvorada. Que o Brasil concreto se saiba poder e se veja no poder. Lula é isso? Talvez, mas não o encerra. Isso o excede e antecede; é devir.

imagem: Cancillería del Ecuador

Categorias:Maquiavel

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