É bem provável que tenhamos testemunhado, neste sábado, ao canto de cisne de Lula. Seu discurso onde tudo começou, em frente à sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, foi histórico. Quem esperava a imagem de um Lula derrotado, solitário, algemado, sendo conduzido a uma viatura cercado de policiais federais, frustrou-se. Lula conseguiu sair por cima mesmo no pior dos desfechos possíveis.

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Pode até ser que ele seja libertado em questão de dias, se o Supremo Tribunal Federal voltar atrás na questão do encarceramento após condenação em 2ª instância. Mas não ficará livre por muito tempo. Contra ele, a Justiça brasileira tem uma agilidade fora do comum. Cedo ou tarde, vai ter que pagar sua pena pelo tríplex — na melhor das hipóteses, dois anos em regime fechado, para então migrar para o semi-aberto. Mas depois deve enfrentar outra condenação, pelo sítio de Atibaia. E mais uma, pelo outro apartamento, o de São Bernardo, onde guardava umas tralhas. E talvez mais uma, pelos pedalinhos do sítio. Não tem fim. Se a Justiça seguir seu ritmo ligeiro e implacável contra Lula, ele só deve sair da cadeia quando estiver muito velho (já tem 72) e doente, para morrer em casa. Salvo alguma reviravolta espetacular (e no Brasil tudo é possível!), nunca mais será candidato a nada. Sua carreira política está acabada. Mas nenhuma cadeia impede que ele siga como um oráculo, um guru. Um líder.

Se engana quem associa a admiração que Lula mantém em vários segmentos da sociedade à velha ideologia “rouba, mas faz” de Paulo Maluf, Antônio Carlos Magalhães e outros do passado e do presente (e do futuro?). Como se as pessoas estivessem dispostas a aceitar a corrupção de Lula apenas pelo sucesso de seu governo, por terem ganhado “migalhas”, um “bolsa-esmola” ou um pão com mortadela. Não há comparação. Maluf e ACM receberam muitos votos do povo, mas jamais foram genuína e amplamente admirados como Lula. Nunca foram vistos pelos mais pobres como um deles, sempre mantendo um distanciamento seguro. A mística de Lula não vem do “rouba, mas faz”.

Muito antes de Lula, outros líderes despertaram admiração semelhante. Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, suicidou-se no Palácio sob pressão. Juscelino Kubitschek, o “presidente bossa nova”, fez 50 anos em 5 (e também foi acusado de receber um apartamento de presente, e também foi impedido de concorrer a uma nova eleição em que despontava como favorito, com o Golpe de 1964). Ambos suscitaram intensa comoção quando morreram. Nenhum deles representava a direita udenista, reacionária, que está aí até hoje, fabricando “anti-Lulas” descartáveis. Mas eram vistos como filhos da elite (Getúlio, um estanceiro do Sul; JK, um médico de Minas) que governaram “ajudando” os mais pobres, que se beneficiariam por tabela do nacional-desenvolvimentismo. Somente Lula encarna o “povo no poder”.

Quem será o (a) “novo (a) Lula”? O que a esquerda precisa fazer agora é ir atrás das pessoas do povo, lançar pessoas na política que destoem do que a gente se acostumou a aceitar como “classe política”. Levar subalternos ao poder!

Na sua despedida, Lula disse que vai sobreviver como uma ideia em cada um de nós que acreditamos na esquerda, na justiça social, na emancipação dos pobres e da classe trabalhadora. Talvez seja melhor cultuar isso, a ideia Lula, o Lula idealizado, do que a pessoa Lula. A pessoa Lula é acusada de corrupção e lavagem de dinheiro (e se podemos desconfiar das provas e do processo legal, é difícil acreditar que não havia nenhum envolvimento dele num escândalo de corrupção de tamanhas proporções). A pessoa Lula errou ao apostar nas práticas podres da política brasileira. A pessoa Lula errou ao achar que era possível governar sempre fazendo concessões aos setores conservadores e alianças com políticos espúrios. A pessoa é humana, cheia de falhas. Vai presa e pode morrer na prisão. A ideia, não.

A ideia Lula é o homem do povo, que se indigna com as injustiças, denuncia, luta, mobiliza as pessoas, lidera, inflama as massas, organiza frente sindical, partido político, disputa eleições, perde, depois ganha e chega onde nenhum peão jamais imaginou. É o Lula do palanque, da campanha de 1989, suado, pizza no suvaco, barba por fazer, rouco de tanto gritar.

(Aliás, as novas gerações, que desenvolveram suas consciências políticas já durante os governos de Lula e Dilma, que se acostumaram ao “Lulinha paz e amor”, sempre de terno e gravata, fala suave e tom conciliador, tiveram agora a chance de conhecer a versão ’89 do Lula, “full pistola”, hipnotizando as pessoas com o microfone nas mãos. Até os desafetos pararam pra ouvir.)

Quem melhor encarna essa ideia, essa imagem do Lula idealizado? Quem será o (a) “novo (a) Lula”? O empregado assalariado? O trabalhador informal, precarizado? O pequeno empreendedor, o dono da padaria que tenta sobreviver com sua família em meio à burocracia estatal e a concorrência de gigantes? A mulher da favela, negra, feminista, lutadora como Marielle Franco? A camponesa sem-terra? A indígena, como Sonia Guajajara, candidata a vice-presidente pelo PSOL? O policial militar, brutalizado, sucateado, tratado como bucha de canhão na guerra burra contra as drogas? O seringueiro lá do Acre, como Chico Mendes, perseguido e assassinado por “coronéis”? O transsexual, marginalizado, estigmatizado, como o que a Costa Rica elegeu para vice-presidente (desbancando um conservador neopentecostal)? O professor? O estudante pobre? Talvez todos eles. O que a esquerda precisa fazer agora é ir atrás destas pessoas do povo, dar voz a elas, transformar a indignação com o rumo das coisas em ação política, lançar candidaturas que sejam de fato uma alternativa à velha hegemonia política dos homens-ricos-brancos-caretas de terno, à desgraça da bancada “BBB” (boi, bala e Bíblia) que domina os legislativos e executivos pelo Brasil afora. Lançar pessoas na política que destoem do que a gente se acostumou a aceitar como “classe política”. Levar subalternos ao poder!

Lula só fez (e faz!) tanto sucesso porque, no imaginário popular, ainda representa o pobre que chegou lá, o estranho no ninho do poder, que governou para os mais pobres. Essa ideia, essa imagem do Lula ainda é muito forte, resiste a todas as denúncias e erros e crimes e alianças com Sarney que a pessoa Lula cometeu ou tenha cometido.

Talvez a política do século XXI não tenha lugar para lideranças messiânicas, seja menos individualista e mais coletivista. Mas o simbolismo do “povo no poder” não pode ser abandonado. É a essência da esquerda. É a ideia Lula.

imagem destacada: Francisco Proner

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