Devíamos ter dito não que “não existe objetividade”, mas que essa é uma empreitada difícil cuja intensidade de realização pode ser medida

No simpósio Subjetividade e Cultura Digital, um homem comenta: “Um efeito das fake news é que agora achamos a mídia boa. Passamos 20 anos criticando os meios de comunicação de massa. Agora eu leio a Folha de São Paulo e acho uma maravilha!”. A plateia ri, cúmplice: é como se todos estivéssemos nos agarrando a qualquer espécie de rigor agora que a mentira está tão na ordem do dia que os presidentes e seu asseclas não recorrem a ela furtivamente, mas com método e decisão, abertamente, e, se forem desmentidos, tanto faz. A mentira hoje segue com pernas curtas, mas se especializou em corridas de tiro rápido. A nós restaria voltar à objetividade que, sempre soubemos, é bem menos objetiva do que gosta de aparentar.

Breves surrealismos do cotidiano: vemos com assombro que uma capa da Veja “acertou” ou, o horror!, concordamos com Reinaldo Azevedo.

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Talvez haja mais nesse cenário do que o nosso desconforto, porém. Essa história não pode ser contada de outra forma? Por 20 anos a crítica à mídia avançou – e foi bem-sucedida. O viés dos meios de comunicação ficou estabelecido, contra uma época em que se aceitavam muito mais singelamente as informações de jornais e programas de televisão. Os cartazes gritavam: “Globo mente!” – e agora isso está na boca de todos, tão sólido quanto antes “é verdade, está na TV”. Alertava-se: não há objetividade! Pois bem, este é hoje o credo universal.

Vejamos: se podemos afirmar que uma crítica vulgar à mídia, altamente popularizada, provê um horizonte (pseudo)teórico em que as fake news (que não se reconhecem como “fake” – são, antes, mais próximas, mais “reveladoras”, mais situadas, mais dirigidas a um particular) podem se alastrar, o que faltou? Penso que o bebê foi jogado fora com a água do banho. O necessário era evidenciar os limites de toda cobertura jornalística e a capacidade de criar o real de toda construção midiática. Mas isso fornecendo recursos analíticos, não induzindo a uma espécie de solipsismo comunicacional.

Isto é, cabia instruir sobre como avaliar como e quando “a Globo mente”. E como e quando não exatamente mente, mas não abrange tudo o que poderia abranger, não aprofunda tudo o que poderia aprofundar. Mais: como escolheu mostrar o que mostra, com que ângulos, quais declarantes, quais recortes. Devíamos ter dito não que “não existe objetividade”, mas – o que é, aliás, mais objetivo – que a objetividade é um ideal, uma empreitada difícil cuja intensidade de realização pode ser medida.

Uma crítica da crítica à mídia pode, então, ser necessária. Atenta a quanto a mídia elude e ao que produz. Capaz até de escapar desse termo redutor, “A Mídia”, quando cada jornal, cada TV, são conjuntos dinâmicos em que repórteres, editores, produtores, donos do dinheiro são relacionados de acordo com um jogo de forças que não é simples como “o chefe mandou e o canal falou”. Uma mesma publicação pode ter áreas de disputa diferenciadas, um mesmo texto, parágrafos disputados diferentemente. Temos de descer às realidades de fato.

E, para além disso, talvez voltar aos textos que pintamos como heresias e perceber o que de fato recusávamos; e o que havia ali para se concordar. Reinaldo Azevedo, Veja, Folha de São Paulo não têm sua carga de objetividade agora. Sempre tiveram. O que nos levou a não querer ver? O que teríamos ganho se tivéssemos aprendido qualquer coisa? O que teríamos estado prontos para combater?

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