Política

Transição Socialista: "Não há qualquer partido de esquerda no Brasil"

Movimento ligado a trabalhadores e estudantes sobretudo de São Paulo, a Transição Socialista quer retomar experiências histórias de esquerda que afirma ignoradas. Em entrevista, Rafael Padial, um dos seus representantes, fala das perspectivas do grupo e analisa a conjuntura política nacional

Releitura imagética de Marx no site da Transição Socialista

De inspiração trotskista, a Transição Socialista (TS) é uma organização política que luta pela emancipação dos trabalhadores contra a exploração da ordem capitalista. Suas origens remontam à ruptura entre membros da antiga Organização Socialista Internacionalista (OSI) com o PT, no ano de fundação do partido (1980). Na contramão da maioria dos partidos e organizações de esquerda do Brasil, a TS se posicionou a favor do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Lula, por considerar o PT um partido burguês e de direita, e ao mesmo tempo defende o impeachment de Bolsonaro.

Conversamos com Rafael Padial, representante da TS, com o objetivo de conhecer melhor esta organização. Padial já havia estado na Úrsula: em 2017, ele comentou o trabalho de tradução de Minha Vida, do revolucionário russo Leon Trotski. Leia.

Onde está mais presente e atuante a Transição Socialista no Brasil?

A TS atua hoje em movimentos de trabalhadores, sobretudo na cidade de São Paulo e na grande São Paulo, e estudantis, com maior destaque para a USP. Com o jornal operário O Corneta, a TS busca dar voz aos trabalhadores em seus locais de trabalho. Muitas vezes, o jornal cumpre para os operários o papel de instrumento para denúncia das suas condições precárias de trabalho, de assédio dos chefes, de acidentes etc. Tal papel idealmente caberia aos sindicatos, mas estes no geral estão integrados à estrutura estatal que garante a manutenção da exploração capitalista.

Onde a TS pretende ampliar sua atuação?

A TS pretende ampliar sua atuação entre categorias produtivas da classe trabalhadora (ou seja, entre os setores que produzem valor-capital e, por isso mesmo, estruturam o ordenamento econômico-social).

Existe algum precedente histórico que sirva de inspiração aos membros da Transição? Alguma experiência revolucionária, no Brasil ou no mundo?

Do ponto de vista político mais geral, reivindicamos a experiência da Associação Internacional dos Trabalhadores (chamada de “Primeira Internacional”). Dirigida por Marx na segunda metade do século XIX, ela buscou organizar os trabalhadores dos países mais avançados para combater as leis gerais de acumulação do sistema capitalista. Marx escreveu O Capital para dar base teórica a tal organização, ou seja, para esclarecer a vanguarda dos trabalhadores sobre o erro da maioria das suas reivindicações usuais. Tragicamente, a maior parte da nossa “esquerda” ainda hoje defende as mesmas reivindicações que Marx apontou como erradas no século XIX (que não se contrapõem necessariamente às leis de acumulação do sistema). Do mesmo período, reivindicamos a experiência da Comuna de Paris (1871), o primeiro governo operário da história, que assentou a estratégia revolucionária da dualidade de poder – ou seja, a compreensão de que o novo poder social, da ampla maioria e para ampla maioria, não pode nascer dentro do poder político atual (o Estado oficial), mas somente em contraposição a ele. O objetivo do poder operário é a substituição do poder oficial. Após isso, reivindicamos a gigantesca experiência bolchevique em 1917, sintetizada nos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista (chamada de “Terceira Internacional”).

Todavia, devido à situação internacional não favorável (logo, à não expansão da revolução), o poder proletário soviético sofreu uma contrarrevolução interna, que ganhou o nome de “stalinismo”. Nós reivindicamos a luta da oposição de esquerda e da Quarta Internacional contra a burocracia contrarrevolucionária da URSS. Essa luta está sintetizada sobretudo como estratégia no Programa de Transição redigido por Leon Trotski em 1938.

Como o movimento revolucionário de esquerda da Transição dialoga com as lutas identitárias, relacionadas ao movimento negro, causa LGBTQIA+? Há mais convergências ou divergências?

A TS é favorável à livre expressão e ao desenvolvimento das individualidades. Portanto, é contra toda forma de opressão social. No entanto, sempre comentamos o problema das opressões a partir das seguintes considerações:

1. o maior mal da sociedade capitalista (e que impede o desenvolvimento do conjunto das individualidades) é a exploração capitalista no processo de trabalho; e

2. a luta identitária, em si e por si, está circunscrita apenas ao âmbito superestrutural estatal (luta por novas leis, direitos etc, sempre dentro da ordem atual).

A TS norteia sua atuação a partir de alguns vetores, considerando inclusive o problema das opressões. O primeiro vetor é o caráter produtivo da base social (setores produtivos de valor-capital, como operariado fabril, são prioritários na ordenação econômica e social). O segundo vetor é o “departamento” industrial (o departamento que produz os chamados “bens de capital”, meios de produção, é economicamente mais importante do que o que produz meios de subsistência). O terceiro vetor é o perfil da base social operária das fábricas. Nesse vetor (submetido aos dois acima), a TS busca pelos setores de classe mais oprimidos. As bases operárias onde há uma maioria de negros e mulheres, no Brasil, são potencialmente as mais explosivas, se comparadas às bases onde há uma “aristocracia operária” (bem controlada por sindicatos integrados ao Estado).

Considerando esses três vetores – que contêm em si, como se vê, o problema da opressão –, a TS faz entre os trabalhadores uma agitação com reivindicações de transição ao socialismo. Ou seja: não encontramos bases operárias mais “oprimidas” para reivindicar igualdades “positivas” ou “afirmativas”, no âmbito dos direitos estatais (igualdade jurídica), e sim as encontramos para propagandear nelas as reivindicações de superação do capitalismo. Mais do que “afirmar” e “positivar” direitos, tais bases são a ponta de lança na negação do sistema. Isso nos diferencia da “esquerda”, que no geral dilui-se em pautas democráticas (afirmativas) mas não tem reivindicações estratégicas para superação do capitalismo (e, por isso mesmo, torna-se indireta e inconscientemente cúmplice do aumento da miséria e da opressão).

“O PT se tornou o principal partido da burguesia brasileira, porque, além de defender as mesmas reformas que os demais partidos burgueses, tinha um plus: controlava sindicatos e movimentos sociais.”

No espectro partidário brasileiro, a defesa aberta da revolução só é vista em partidos considerados como “extrema esquerda”, como PSTU e PCO. Como a Transição se situa em relação a estes partidos, ou outros movimentos de esquerda?

A chamada “extrema esquerda” só trata de “revolução” no âmbito do discurso. Na prática cotidiana, nos sindicatos que dirige, ela não apresenta qualquer reivindicação que atue concretamente para a transição ao socialismo (ou seja, que se contraponha de verdade às leis econômicas de acumulação do sistema capitalista).

Na realidade, não há qualquer partido de esquerda no Brasil. Para compreender isso, é necessário entender que os termos “esquerda” e “direita” mudaram ao longo do tempo. A forma inicial, advinda da Revolução Francesa (1789) ainda é usada pelo senso-comum e por ideólogos, mas é falsa. A forma correta, atual, surgiu em junho de 1848 na mesma França, quando pela primeira vez a classe trabalhadora fez uma luta independente da burguesia e contra a ordem burguesa. A grande mídia e os “sociólogos” usam a forma anacrônica, equivocada (que afinal lhes corresponde, como classe social). Assim, criam um véu ideológico que dificulta a compreensão real dos fenômenos políticos e sociais atuais.

Julgando pelo programa, a maioria da nossa “extrema esquerda” hoje é de centro (tem um programa não-comunista, correspondente às aspirações da pequena-burguesia enquanto classe social intermediária entre a burguesia e o proletariado). O PT é um partido que, a despeito das bases operárias e sindicais (sempre manobradas), nasceu no centro político, pois teve desde o início um programa não-comunista, pequeno-burguês. O PT migrou do centro para a direita ao longo da década de 1990. No início dos anos 2000, consolidou-se como força de direita, na prática (não no discurso) similar a PSDB, MDB etc. A rigor, o PT se tornou o principal partido da burguesia brasileira (aliás, que mais fez ela lucrar nas últimas décadas) porque, além de defender as mesmas reformas que os demais partidos burgueses, tinha um plus: controlava sindicatos e movimentos sociais.

O PSOL é um partido de centro, pois seu programa é pequeno-burguês e sua base social não é operária (e sim pequeno-burguesa ou proletária de âmbito social improdutivo, como o funcionalismo público). O PSTU também é um partido de centro (devido ao programa pequeno-burguês, estatista e reformista na atuação cotidiana), mas se diferencia do PSOL por ter vinculação com importantes bases operárias. Tais bases às vezes fazem com que o PSTU penda uma pouco mais para a esquerda (em suma, é um centro que pende às vezes à esquerda). Entretanto, o PSTU controla tais bases sindicais de forma burocrática. Em todos os momentos candentes da conjuntura, PSOL, PCB e PSTU, devido a seus programas pequeno-burgueses, dão cobertura ao burguês PT.

Tudo isso não significa que não exista esquerda no Brasil. Há aguerridos militantes revolucionários, marxistas, tanto no PSTU quanto no PSOL (embora minoritários em tais partidos). Não há no Brasil propriamente um partido de esquerda, com programa comunista e inserido em bases operárias. Isso ainda está para ser criado e possivelmente envolverá setores à esquerda nos referidos partidos. A proposta de Comitê de Enlace que hoje a TS apresenta visa a atuar nesse sentido.

“A política atual do PT, impedindo o crescimento das manifestações contra Bolsonaro (dividindo-as e espaçando-as) é só continuidade disso que nós da TS chamamos (antes de todos os grupos políticos e mesmo da maioria da grande mídia) de ‘bolsolulismo’ ”

Nas últimas semanas, temos testemunhado a mobilização de militantes bolsonaristas em favor das rupturas institucionais, tais como intervenção militar e fechamento do Supremo Tribunal Federal. Por outro lado, partidos de esquerda como PT e PSOL saem em defesa da manutenção das instituições, que historicamente chamaram de “burguesas”. Por que a esquerda passou à posição de defesa das instituições, deixando a bandeira da ação pela mudança para a Direita?

O PT e o PSOL não chamaram historicamente as instituições estatais de “burguesas”. Apenas setores minoritários desses partidos fizeram isso. Tais partidos têm como base, desde sua fundação, a concepção de que é possível mudar o sistema capitalista por dentro do Estado. Logo, nada mais natural para eles do que a defesa das instituições capitalistas e da democracia capitalista.

O problema da “ação pela mudança” estar na mão da direita advém de junho de 2013 e o compromisso da “esquerda” com a ordem capitalista. O enorme cataclismo político e social iniciado com aquelas manifestações proletárias – e os “vinte centavos” eram apenas a ponta do iceberg, de uma crise capitalista em larga escala – foi capitalizado pela chamada “direita” porque a chamada “esquerda” ficou vinculada ao PT. Os grupos mais “radicais”, como PSOL e PSTU, em todos os momentos decisivos dos últimos anos deram suporte ao PT (com destaque para as manifestações contra Dilma desde 2015). As manifestações e a radicalidade de 2013 avançaram apesar desses grupos, sobretudo graças à revolta espontânea da maioria da população trabalhadora.

A burguesia está em fragilidade de dominação política desde junho de 2013, porque o principal partido da ordem burguesa (aquele que além de aprovar reformas capitalistas controlava perfeitamente a base operária e os “movimentos sociais”) foi à falência. Desde então, tivemos passeatas contra a copa em 2014, centenas de escolas ocupadas em 2015, multitudinárias manifestações (com destaque para as grandes cidades) contra a eleição do PT em 2015, multitudinárias manifestações pelo impeachment da presidenta burguesa até 2016, o maior pico de greves proletárias desde os anos 1980 (basta ver dados do DIEESE) etc. Qualquer coisa traz ainda centenas de milhares ou mesmo milhões de pessoas às ruas, coisa inimaginável nas décadas anteriores. Isso para a burguesia não é nada ideal.

O fato de a “esquerda” estar sempre no lado errado ou na conciliação em todo esse processo permitiu à chamada “direita” nadar de braçada. Um aventureiro desconhecido chegou ao poder federal (e diversos outros nos demais níveis de poder). Grupos nefastos e visivelmente desmoralizados (como o MBL) ganharam proeminência. Todavia, todos esses sujeitos com quinze minutos de fama, epifenômenos das contradições reais, são inconsistentes. Vários deles já desapareceram, alguns estão presos, outros já impeachmados. Bolsonaro só não caiu até agora porque em abril de 2019 (logo no começo do governo, portanto) fez um acordo com o ministro petista Toffoli (o qual presidia então o STF). Os petistas André Mendonça e Augusto Aras, próximos a Toffoli, assumiram a AGU e a PGR, respectivamente. A essência do acordo consistiu em destruir a Lava-Jato (algo de interesse dos petistas, psdbistas, centrão etc) e em paralisar as investigações contra Bolsonaro e sua família. A política atual do PT, impedindo o crescimento das manifestações contra Bolsonaro (dividindo-as e espaçando-as) é só continuidade disso que nós da TS chamamos (antes de todos os grupos políticos e mesmo da maioria da grande mídia) de “bolsolulismo”.

Lula quer Bolsonaro no segundo turno, pois só assim tem chances de ser eleito. Lula não quer que Bolsonaro caia, quer apenas sangrá-lo até outubro de 2022.

Num eventual segundo turno em 2022 entre Lula e Bolsonaro, qual seria a posição da Transição?

Em tal situação, a TS provavelmente votaria nulo (como votou em 2018, quando era o poste de Lula, Haddad, contra Bolsonaro). Ainda não fizemos uma conferência para definir isso, mas é o que nos parece mais provável, dada a conformação política atual.

Tanto Bolsonaro quanto Lula fazem apenas cálculo político em cima da miséria nacional, do desespero e das mortes da pandemia. No caso do PT, vê-se isso nas manifestações atuais, em que esse partido faz o máximo possível para impedir a massificação e sobretudo ações de trabalhadores nos locais de trabalho (paralisações). Se o PT fosse coerente com a luta contra a covid, tinha acelerado a queda de Bolsonaro há muito tempo.

Aliás, nada garante que a atuação do PT à frente da pandemia seria significativamente diferente da de Bolsonaro. Na Argentina, o “esquerdista” Alberto Fernández não buscou inicialmente contratos com a Pfizer, com o argumento de que os preços estavam altos (na verdade, abrindo espaço para lobbies). No México, o “esquerdista” López Obrador tomou sua vacina de covid há poucos meses, após sistemática campanha contra. É bastante duvidoso que se o PT estivesse à frente do país medidas sanitárias radicais e das mais efetivas, como lockdowns, teriam sido tomadas. O PT não fez nada disso nos estados federais que dirige. A “sagrada” produção de capital, acreditam todos eles, não pode parar. O grosso dos contágios se deu entre trabalhadores em transportes públicos e em empresas com grande número de funcionários num mesmo ambiente.

A burguesia já sabe que Bolsonaro é um candidato frágil demais para a manutenção da sua ordem. A maior parte da burguesia já migra para Lula, e por isso liberou-o arbitrariamente das várias acusações jurídicas consistentes em que estava envolvido. Lula já é incensado como o salvador da pátria burguesa, para que retome alguma governabilidade.

Neste contexto político de criminalização dos movimentos de esquerda no governo Bolsonaro, os membros da Transição Socialista têm enfrentado maiores dificuldades e perseguições? Ou não há diferença em relação aos governos anteriores?

Devido ao fato de atuarmos sobretudo em bases operárias (nos locais que realmente importam para o capital, pois é onde se produz a riqueza capitalista), nada de relevante mudou para nós com o governo Bolsonaro. O maior risco que enfrentamos cotidianamente são as burocracias sindicais e o gangsterismo sindical, com maior destaque para o da CUT (que algumas vezes já agrediu nossos militantes, apontou armas, apreendeu materiais etc).

Em relação às mídias sociais, onde podemos encontrar e interagir com a Transição Socialista? Considerando que este é um terreno muito explorado pelos movimentos bolsonaristas e, posteriormente, pelo petismo, como a Transição pretende fazer uso destas novas mídias?

 A Transição Socialista pode ser encontrada no Facebook, Instagram e listas de distribuição de Whatsapp. Nossa principal pretensão, entretanto, é expandir o bom e velho papel, o jornal distribuído nas portas das fábricas do país, com a voz dos trabalhadores sobre suas próprias condições de trabalho.

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