Política

De Alborghetti a Bolsonaro, a Necropolítica de Centrão

Os pitbulls rosnam para aparecer, mas são mansos diante dos donos da casa

Há semelhanças de estilo e de efeito na política brasileira entre Bolsonaro e Alborghetti | imagem: montagem a partir de imagens divulgadas publicamente

Se um dia alguém quiser estudar as origens do discurso e dos métodos de Bolsonaro, sugiro começar pelo nome de Luís Carlos Alborghetti. Repórter policial, o paulista radicado no Paraná criou em seu programa na TV um estilo próprio que misturava discurso histriônico, produção tosca, palavrões, humor doentio, apelo à violência e fascismo em estado puro. Abaixo, um exemplo em vídeo, pois as palavras são insuficientes para defini-lo:

Alborghetti começou no rádio, no interior do Paraná, década de 1970. Em 1979, estreia na TV com o programa Cadeia, cobrindo as ocorrências policiais da região de Londrina (mais adiante, do estado todo). Com uma toalha no ombro e um cassetete na mão, Alborghetti era um autêntico filho do porão. Seu discurso raivoso é uma reação contra a redemocratização, que associava ao aumento da criminalidade e outras mazelas. Paradoxalmente, é a abertura que torna possível a sua ascensão, pois no auge da ditadura (e da censura) o discurso oficial enaltecia a “paz e tranquilidade da nação“, sem espaço para crime, miséria ou mesmo epidemias, e seus palavrões seriam vetados por “ofensa à moral”. Seus principais alvos eram o “pessoal dos direitos humanos”, os “defensores de bandidos”, mas também sobrava para os “comunistas”, homossexuais, indígenas e defensores da descriminalização das drogas. A solução de Alborghetti para o Brasil seria simples: exterminar “bandidos”. Deixar o porão fazer o trabalho dele enquanto se olha pro outro lado, como nos “bons tempos”:

Seu relativo estrelato na televisão rendeu lucrativa carreira política. Sempre em partidos de centro e direita, pulando de um para o outro, foi eleito vereador em Londrina no ano de 1982 e deputado estadual por quatro mandatos consecutivos (1987 a 2002). Durante todo esse período, manteve seu programa de TV basicamente no mesmo formato (desvinculando-se somente no período eleitoral, por força da legislação), ampliando sua audiência para outros estados a partir dos anos 1990 pelo sinal da emissora curitibana OM (atual CNT). A partir dos anos 2000, com a popularização da internet e das mídias sociais, os vídeos de Alborghetti ganharam repercussão (certamente maior que sua audiência na nanica CNT) e viraram “memes”, sobrevivendo ao falecimento do apresentador, em dezembro de 2009, por câncer no pulmão.

Numa televisão que, até os anos 1980, tinha como referencial a ser seguido o sisudo e insípido “Padrão Globo de Qualidade“, a esculhambação proposital e o extremismo de Alborghetti chamavam a atenção pelo contraste. Seu estilo fez vários discípulos Brasil afora. O apresentador Ratinho (Carlos Roberto Massa) era repórter policial do Cadeia quando foi eleito deputado federal pelo PRN, do então presidente Fernando Collor. Mais adiante, migrou para a Record e depois ao SBT, tornando-se um dos apresentadores mais conhecidos do país. Com o tempo, mudou seu estilo de “freak show do mundo cão” para um humorístico de auditório, mais ao gosto do patrão Sílvio Santos. Nunca se afastou totalmente da política e ajudou o filho, Ratinho Júnior, a se eleger governador do Paraná. No Amazonas, o apresentador Wallace Souza, cujo Canal Livre guardava muitas semelhanças com o paranaense Cadeia e as versões “originais” do Ratinho, também se aventurou na política, se elegendo deputado estadual – foi o mais votado em seu estado, nas eleições de 1998 – porém viu seu mundo desabar diante das denúncias de que alguns dos assassinatos exibidos em seu programa teriam sido encomendados por ele mesmo (tema da série Bandidos na TV, da plataforma Netflix)!

O falecido Wagner Montes, apresentador de programas policiais e deputado estadual no Rio de Janeiro, teria sido a inspiração para o personagem Fortunato, interpretado por André Mattos no filme “Tropa de Elite 2” – porém, na ficção o deputado/apresentador é um defensor das milícias, ao contrário da atuação do Wagner Montes “real” na Assembleia Legislativa. Em São Paulo, José Luiz Datena se consolidou como um dos apresentadores de maior audiência e já foi sondado para se candidatar à prefeitura, governo do estado e, mais recentemente, à vice-presidência. Em cada praça televisiva há pelo menos um programa parecido, mistura de “mundo cão” policial, humor, assistencialismo demagógico e fofoca, com algum restinho de jornalismo quando sobra tempo, quase sempre promovendo seus apresentadores rumo a candidaturas políticas. O desbocado Alborghetti, em vários aspectos, é o pioneiro deste estilo televisivo (e político).

Em certo sentido, Jair Bolsonaro fez o caminho inverso: enquanto outros construíram carreiras políticas a partir de absurdos ditos na TV, Bolsonaro já tinha uma carreira política, graças ao voto da caserna, quando começou a aparecer na mídia vomitando impropérios. Em algum momento, Bolsonaro deve ter percebido que os votos dos militares seriam insuficientes para alçar voos maiores ou mesmo para manter seu eterno mandato como deputado federal (foram SEIS reeleições consecutivas, entre 1990 e 2018). Como convidado recorrente de programas de TV como CQC ou Super Pop, o atual presidente se projetou com um discurso que guarda muitas semelhanças com as arengas desconexas de Alborghetti – de quem, inclusive, recebeu elogios quando ainda era um pouco conhecido deputado do chamado “baixo clero”.

A simbiose entre a ira teatral dos defensores da pena de morte e da ditadura, como Alborghetti e Bolsonaro, e a conversa mole dos caciques do Centrão, sempre voltados à conciliação com o governo (seja ele qual for), é uma característica do meio político brasileiro – ou, parafraseando Romero Jucá, parte do “Grande Acordo Nacional“. Os partidos do Centrão precisam dos votos destes “pittbulls com palanque”, com suas extensas bases eleitorais – policiais, militares, audiências cativas de rádio, TV e (mais recentemente) mídias sociais. Por outro lado, uma vez eleitos, os “pitbulls” desfrutam das vantagens que os verdadeiros donos do poder lhes têm a oferecer: emendas parlamentares no orçamento público, nomeações em gabinetes e órgãos estatais, verbas para campanhas eleitorais, espaço nos partidos com melhor chance de elegê-los e nas emissoras de rádio e TV. De quebra, a parceria garante a propagação ideológica da direita nas emissoras de rádio e TV, com ampla penetração nos segmentos menos escolarizados e com menos opções de entretenimento. É um ciclo que se retroalimenta. Exemplo: a emissora CNT, que levou os horrores da Cadeia de Alborghetti para lares do Brasil inteiro, foi fundada por José Carlos Martinez, empresário, político, tesoureiro da campanha vitoriosa de Fernando Collor e sócio de PC Farias. Martinez era também presidente nacional do PTB, legenda que abrigou Alborghetti em uma de suas eleições.

Se por um lado os petistas são acusados acenar para as esquerdas nas eleições para depois governar para a direita, podemos dizer que estes discípulos de Alborghetti se elegem prometendo  “varrer os bandidos do País”, mas, na presença de alguns dos corruptos mais notórios do Congresso, constroem frutíferas alianças. Pulam do punitivismo (“bandido bom é bandido morto!”) para o legalismo (“veja bem, só a Justiça pode julgar…”) num piscar de olhos, a depender das alianças de ocasião.

Jair Bolsonaro e Paulo Maluf no plenário da Câmara dos Deputados
Bolsonaro e Maluf foram correligionários no PP por mais de uma década | imagem: página de Paulo Maluf no Facebook

O mais bem sucedido dentre os formadores de opinião que falam grosso com quilombolas e fino com os ricos, Bolsonaro foi deputado federal por vários partidos diferentes, quase sempre da base aliada do governo (mesmo os do PT). Respondeu a processos no Conselho de Ética, mas jamais foi cassado, nem quando defendeu o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Em um dos processos, foi defendido pelo presidente da Câmara, o futuro presidente da República Michel Temer. No voto pelo impeachment de Dilma Rousseff, saldou não só o torturador Ustra, mas também elogiou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (que já respondia por corrupção, sendo cassado e preso meses depois). De “outsider“, só o discurso. No fundo, sempre soube construir relações com quem importava. Como ele mesmo admitiria mais tarde, já como presidente da República: “Eu sou do Centrão!” E são as alianças com o Centrão que mantêm seu governo de pé, ignorando todos os arroubos autoritários e abusos às instituições, repetidos nas lives de quinta-feira, cuja forma e conteúdo nos lembram a tosquice do antigo Cadeia e seu apresentador Alborghetti.

É tudo parte do show!

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