O sacramento cristão é signo e mais do que signo — e essa estrutura aparece em outras tradições — mágicas, medicinais — o que sugere uma origem comum

Problemática: o histórico e desenvolvimento de um tema (a conceituação de sacramento) que se estende pela patrística e pela escolástica e tem ecos na tradição mágica, na astrologia e na medicina.

Premissa da pesquisa encontrada no livro Signatura Rerum, de Giorgio Agamben. Nas páginas 61 e 62, trecho do ensaio “Teoria das Assinaturas”, o filósofo italiano diz:

Costuma-se descrever o processo que leva à formação da teoria escolástica dos sacramentos como a convergência ou a alternância de três doutrinas: a do sacramento-mistério (que teria seu paradigma em Isidoro), a do sacramento-medicamento (ainda presente em Hugo de São Vítor e na Summa contra gentiles de Tomás) e a do sacramento-signo (que proporcionará a forma canônica definitiva da doutrina escolástica dos sacramentos). Uma análise mais atenta mostra que os três elementos continuam presentes em todos os estágios da elaboração da teoria, como testemunho de uma origem compósita que a investigação histórica ainda não esclareceu e que a teoria do sacramento-signo nunca consegue levar a termo.

Agamben provê essa “análise mais atenta”, demonstrando que o sacramento opera menos como signo (item designativo de algo) e mais de assinatura, noção que ele trabalha no ensaio e que, grosso modo, significa um operador que carrega um excesso em relação à significação, produzindo um novo regime de relações no sujeito ou objeto em que é inscrito. No caso dos sacramentos, esse excedente se evidencia no debate teológico da “eficácia do signo” (de modo simples, a capacidade do sacramento de conferir um novo “caráter” ao sacramentado), que demanda atenção de Agostinho a Tomás de Aquino.

Essa estrutura excessiva, Agamben já havia anteriormente mostrado em Paracelso, no que se refere a questões medicinais, e mostrará na magia e na astrologia. A relação com o cristianismo é próxima: o filósofo italiano conta como a conceituação de um filósofo da magia, Jâmblico, foi transposta para a teoria dos sacramentos com poucos reparos pelo filósofo Marcílio Ficino.

Uma hipótese a ser perseguida pela “investigação histórica” é, assim, a seguinte: “Tanto a doutrina teológica do caráter sacramental quanto a doutrina médica das assinaturas devem sua origem, muito provavelmente, a uma tradição mágico-teúrgica (…)”.

Metodologia: Signatura Rerum é também um livro de debate metodológico; a arqueologia, no sentido de Michel Foucault e de Agamben, discutida nele, pode ser um caminho. Mas haverá outros.

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