imagem destacada: Sala de Extensão/UFRGS

Em março, a escritora e educadora Kiusam de Oliveira esteve no centro de uma polêmica: seu livro Omo-Oba: Histórias de Princesas (2009), publicado pela Mazza Edições, havia sido alvo de censura. Escolhido pelo Sesi Volta Redonda (interior do Rio de Janeiro) para compor o projeto pedagógico, sofreu “questionamentos de alguns pais em relação ao conteúdo” — isto é, críticas em relação à sua temática, fundada na cultura afrobrasileira — e correu o risco de ser excluído. A reação da autora e de apoiadores nas redes sociais evitou que isso ocorresse. Nesta entrevista, Kiusam fala à Úrsula sobre o caso, analisa as resistências nas escolas, instituições e famílias ao ensino das culturas afrobrasileira e indígena — que é previsto por lei — e comenta do papel que obras como a sua têm no combate ao racismo que estrutura as relações sociais no Brasil e na afirmação da identidade negra.

Veja também:

série Trouxeste a Chave?, com Maria Mazarello Rodrigues, da Mazza Edições
“O Berço Africano da Filosofia”, entrevista com Renato Noguera

Como entende essa posição dúbia do Sesi enquanto instituição — de um lado, capaz de colocar a obra no seu currículo, buscar essa diversidade; de outro, suscetível a essa pressão reacionária. Há uma verdadeira compreensão da importância disso ou só uma adesão ao “bom mocismo”?

A posição dúbia do Sesi coloca na roda algo que profissionais da educação conhecem muito bem: a falta de formação na temática da educação das relações étnico-raciais, consequência da falta de investimento e acompanhamento da aplicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) em seus artigos 26A e 79B, que tratam especificamente das leis 10639/03 e 11645/08 e obrigam o ensino da história da África e das culturas afro-brasileira e Indígena. Governos em todos os seus níveis — municipal, estadual e federal — custam a destinar verba do plano diretor para investir em contratação de especialistas na área, em formação por uma educação antirracista.

Importante destacar aqui uma exceção nesse sentido durante governo Haddad em São Paulo, quando, na Secretaria Municipal de Educação, houve planejamento e investimento  real e concreto em prol do  combate ao racismo, a partir de contratação de inúmeros especialistas e consultores focados nessa temática. Houve um investimento gigantesco na compra de livros de literatura focados nas questões étnico-raciais para as escolas e bibliotecas do município. Uma política educacional focada na luta antirracista é potente para nos ajudar a encontrar dentro de nós onde escondemos nosso racismo: de que forma ele se manifesta a partir de mim, o que eu penso sobre isso e o que fazer com tudo o que for descoberto. E aí a possibilidade de atuarmos incansavelmente nessa luta, por finalmente perceber que as guerras raciais serão o grande mal desse século (e no Brasil essa questão terá consequências dramáticas) para além da disputa tensa entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, conforme tem refletido o historiador pós-colonial Achile Mbembe.

Esse é um assunto que nós estamos ávidos para discutir nas formações de profissionais da educação: relações de poder estabelecidas entre brancos com os não-brancos, suas vantagens e necessidade de rupturas com esse pensamento linear e posto no Brasil de que vale mais quem tem a pele branca; aos demais, todo o escárnio de uma nação

O que revela o Sesi com toda a polêmica gerada por sua postura de adotar meu livro Omo-Oba: Histórias de Princesas é somente a ponta do iceberg do calabouço que ainda tentam imputar como o local ideal para as histórias do continente africano e da cultura afro-brasileira. A postura do Sesi foi séria ao ter adotado o livro, premiadíssimo no país, que tem o propósito de empoderar meninas de todos os tempos. Houve um processo sério de seleção da obra que seria adotada como recurso paradidático do semestre e ele foi o vencedor. Com a polêmica, só veio à tona algo que é praxe nas escolas particulares: pais que buscam impor suas vontades para além do todo planejado, uma vez que buscam chantagear as coordenações escolares, intimidar professores a fim de impor suas formas de pensar. A falha foi em recuar a partir de uma tensão que partiu dos pais sem reuni-los para formá-los e informá-los, expondo que a linha seguida pela rede é de uma educação humanista, conforme fui informada pela gerência da rede. As escolas particulares precisam encontrar um caminho de cumprimento da LDB sem que se sintam sempre na corda bamba, com medo de perder alguns pais e a renda da escola cair, sem pensar nas consequências perversas de posturas excludentes capazes de exporem pessoas, como no meu caso, obras altamente reconhecidas e premiadas, como são as minhas e de várias pessoas que trabalham com as africanidades num país extremamente racista como é o nosso. Perdas para quase todos os lados.

Nesse sentido, como vê no geral a percepção das instituições — escolas, secretarias de educação etc — à urgência de discutir o racismo e de evidenciar outras identidades que não a hegemônica? Quais os gargalos nesse movimento?

Desde a obrigatoriedade do trato da história da África e das culturas afro-brasileira e indígena vemos, de forma geral, uma falta de vontade, por parte dos prefeitos e gestoras e gestores das secretarias de educação, para separar parte do orçamento para investir na formação dos seus profissionais e organização ou para a criação de departamentos e chefias destacadas para pensar em política pública focada na educação das relações étnico-raciais sob a perspectiva antirracista. A lei 10639 é de 2003 e a sua atualização (a lei 11645, de 2008), que obrigam o ensino da história da África e das culturas afro-brasileira e Indígena na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, há 15 anos têm sido motivo de questionamentos por parte dos professores que explicitam a falta de compreensão em se tratar de questões sobre o racismo na escola — partindo do pressuposto de que ele não existe no país ou que se ele existe nunca foi percebido, uma vez que se colocam como pessoas não racistas até porque seus amigos são negros, ou sua melhor amiga de infância era uma criança negra ou ainda porque as suas empregadas são negras. Com níveis tão rasteiros de compreensão sobre o racismo no país torna-se algo sempre muito caseiro e informal o trato dessas questões no âmbito educacional, sendo compreendido como sem impactos políticos, uma vez que, de fato, poucos gestores aceitam realmente enfrentar o combate ao racismo em suas gestões por reconhecerem que é uma pauta nada popular.

Acompanhei de perto gestões que optaram por não enfrentar o fato de professores da Educação de Jovens e Adultos não trabalharem, nas disciplinas de história e geografia, o continente africano, porque bastava para os estudantes evangélicos ouvirem a palavra África para se retirarem das salas de aula alegando que não falariam sobre macumba. Como as gestões não respaldavam o enfrentamento intolerante dos profissionais, esses decidiram, por vezes, pular conteúdos pautados nesse continente. O combate ao racismo tem sido muito desordenado e ínfimo diante da brutalidade racista presente no campo da educação. Tais conteúdos ficaram e ficam sempre à mercê da boa vontade de alguns professores nas unidades escolares, que são vistos e tratados como rebeldes ou como heróis e heroínas por resistirem a toda a soma de olhares e posturas excludentes, que os fazem se sentir sempre contra a maré é solitariamente no espaço escolar. Isso porque tal combate não tem sido pautado nem planejado como política pública necessária, capaz de provocar mudanças estruturais num país de negros, indígenas e mestiços, controlado financeira e intelectualmente por homens brancos.

A produção de conhecimento por intelectuais negras e negros ainda se mantém, intencionalmente, distante dos profissionais da educação, o que acaba por dificultar as rupturas capazes de colocar tais profissionais no campo do autoconhecimento e reconhecimento das  práticas racistas que reforçam no cotidiano e que os têm constituídos enquanto pessoas, o que também dificulta a compreensão de como a cor da pele determina o local social ocupado por um corpo, seu lugar de fala ou a produção de sua invisibilidade e do seu silêncio. Assuntos como branquitude e branquidade têm ficado do lado de fora das formações, nas raríssimas vezes que ocorrem, quando não ministradas por intelectuais negras e negros.

Pois bem, esse é um assunto que nós estamos ávidos para discutir nas formações de profissionais da educação: relações de poder estabelecidas entre brancos com os não-brancos, suas vantagens e necessidade de rupturas com esse pensamento linear e posto no Brasil de que vale mais quem tem a pele branca; aos demais, todo o escárnio de uma nação. É preciso combater tal forma de pensar nos territórios dos racistas: é o que temos historicamente feito e é o que torna tudo muito mais tenso e até mesmo perigoso para quem ousa romper com a estrutura racista existente no país. Em tempos de insanidade coletiva como temos vivido, os ataques intolerantes e racistas também têm acontecido de forma coletiva e altamente violenta, o que nos aponta para a necessidade de enfrentamentos estratégicos e coletivos a fim de buscarmos meios legais para responsabilizarmos quem se acha, pela cor da pele tão simplesmente, acima de tudo e de todos.

Qual o impacto que uma obra como a sua permaneça no currículo? Por exemplo, quais respostas você teve dos seus leitores sobre a importância do acesso a essas histórias, de ter a acesso a algo que lhes represente? Ou, no caso de leitores não-negros, o que o livro pode trazer?

Meu livros são fundamentais porque os textos são elaborados focando no empoderamento de meninas e jovens negras. Só por isso, já mereceriam toda a atenção, uma vez que são obras destinadas aos processos de construção das identidades de quem dificilmente se vê representado positivamente, inclusive nas obras literárias. Procuro em meus livros mostrar meninas altamente melaninadas e com cabelos crespos no penteado black power, o que por si só desvela um trato simbólico e politizado do combate ao racismo às pretas desse país. São personagens que se afirmam negras e belas, parte de uma realeza em sua matriz ancestral — esse é o meu diferencial e o legado que tenho construído nos campos teórico e práticos.

Minhas histórias partem de vivências reais, todas elas frutos de minha experiência profissional de 23 anos no chão das escolas do ABC paulista e de São Paulo; também partem de minha experiência de 15 anos diretamente formando profissionais da educação desse país. Minha preocupação é contar histórias que rompam com as grandes narrativas universais, também presentes no nosso país e que reforçam, por exemplo, a existência de princesas brancas, de origem europeia, presentes de forma massificada num país de negros e mestiços como é o nosso. A partir dessa massificação, apresentam-se tais princesas como se fossem o ideal a ser seguido, e é exatamente isso que as crianças entendem. Elas são capazes de afirmar, mesmo lendo meu livro Omo-Oba, que princesas negras não existem ou que as princesas do livro são feias porque são negras.

Devo sobrevoar as pessoas para compreender o que está ocorrendo, procurarei a energia da borboleta; devo adoçar com firmeza as pessoas que estão amargas, procurarei a energia da abelha; devo ainda ser capaz de trazer para o campo de ação a energia de um búfalo

Dessa forma, colocam profissionais da educação muito mais que bem intencionados — aquelas e aqueles que trabalham com a temática pautados talvez uma proposta curricular afrorreferenciada — em posição de desenvolver um projeto que de fato rompa com estruturas cristalizadas de pensamento, as quais criam, desde a mais tenra infância, a ideia de um único tipo de realeza, que aponta para a supremacia branca. Rompo com a metanarrativa que traz a invisibilidade da criança negra atrelada à da ancestralidade africana, berço de toda a nossa humanidade, num respeito profundo àquelas rainhas e princesas consideradas inclusive, as primeiras feministas de que temos notícias, revelando em minhas histórias um jeito outro de ser e estar menina, jovem e mulher na sociedade brasileira.

Qual o impacto que uma obra como a sua permaneça no currículo? Por exemplo, quais respostas você teve dos seus leitores sobre a importância do acesso a essas histórias, de ter a acesso a algo que lhes represente? Ou, no caso de leitores não-negros, o que o livro pode trazer?

Tal leitura é fundamental também por revelar princesas, que são na realidade rainhas, que não estão preocupadas com casamento aos 15/16 anos com um homem jovem, rico e branco, montado num cavalo também branco; essas princesas mostram um jeito autônomo de ser associado aos elementos da natureza, trazendo a ideia de que cada uma de nós guarda dentro de si um poder incrível que nos dá força para enfrentar qualquer situação, porque carregamos o poder da transformação como grande mistério e ferramenta para a nossa libertação: uma realeza feminina capaz de se transformar em abelhas, borboletas ou mesmo búfalos, o que revela algo no trato das questões raciais em territórios racistas e sexistas como vivemos. A depender da situação, devo sobrevoar as pessoas para compreender o que de fato está ocorrendo, aí eu procurarei a energia da borboleta; em outras situações, eu devo adoçar com firmeza as pessoas que estão amargas, então procurarei a energia da abelha; em outros momentos devo ser capaz de trazer para o campo de ação a energia de um búfalo, porque é com força e determinação a resposta a ser dada às pessoas.

Também trago uma princesa sereia que tem o poder de se transformar em menina, é muito tímida e se recolhe nas profundezas do mar quando algo ruim acontece. Dessa história, por exemplo, as crianças recriam o final constantemente, porque não estão acostumadas a finais tristes, e na nova proposta de escrita as crianças a mostram dando uma resposta ao mundo de enfrentamento a traição por ela sofrida. Reconto a história de uma princesa que ficou cega e não voltou mais a enxergar e nem por isso deixou de fazer as coisas que mais amava. São conteúdos altruístas como esses citados e muito mais nesse livro de reconto de mitos africanos e afro-brasileiros. Acredito que são valores essenciais para a sobrevivência feminina e negra em um país que mata inúmeras mulheres por dia, em sua maioria negras. Por que pais e mães que se consideram na luta pela moral e bons costumes da família não focam seus olhares críticos também para os contos de fadas europeus, tão propagados em nossa sociedade e que dirigem o olhar das meninas para casamentos precoces, heteronormativos, pautados no dinheiro, na cor da pele, nos bens, no poder de submissão que o homem sobre as mulheres? Aí está toda a contradição da situação ocorrida no Sesi Volta Redonda. Tenho certeza que se o livro escolhido fosse um conto de fada europeu, teria passado ao largo.

Por isso dizemos que no Brasil o racismo é estrutural: ensina-se a ser racista, aprende-se a ser racista. A hipocrisia está no olhar relativizado onde pessoas brancas se posicionam, em nome da boa família, como combatentes da moral e dos bons costumes por meio de um olhar parcial sobre as questões nacionais sem enfrentar de fato a educação racista e sexista que os levaram a posições tão limitadas de ser e compreender a diversidade humana e o fato de vivermos num país pluriétnico e multicultural, construído por negros e negras, escravizados por quase quatro séculos. Por isso, focar em formação para profissionais da educação, estudantes, pais e mães torna-se imprescindível para o combate ao racismo.

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