Trouxeste a Chave? é uma série da revista Capitu que reúne depoimentos de editores sobre o seu ofício e sobre como escolhem os bons autores. Desta vez, falamos com Maria Mazarello Rodrigues, da Mazza Edições, professora, escritora e editora, mestre em editoração pela Universidade Paris-Nord Paris XIII e graduada em jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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Eu diria que uma editora pode, sim, influir na cultura. Eu, por exemplo, escolhi trabalhar com editoração, batalhei — e ainda batalho — para manter uma editora, porque acredito no poder da leitura, na força do texto escrito, na mensagem que ele transmite.

Aos quatro anos descobri que sabia ler. Depois que minha mãe colocou um livro em minhas mãos, nunca mais parei de ler e, por meio da leitura, conheci o mundo.

Então, quando me dei conta do malefício produzido pelo preconceito e pelo racismo entre nós, descendentes de um povo escravizado, num país que não considera a importância dos povos indígenas e negros na sua formação, me lembrei que já tinha uma trajetória na área de edição e que poderia — e deveria — colocar meu conhecimento a serviço. Com essa preocupação, resolvi abrir uma editora em 1981 para trabalhar a questão étnico-racial — tema difícil de ser abordado e ausente nos currículos escolares quando da abertura da editora, condição que só foi alterada a partir da Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e particulares.

Já que a editora tem uma linha editorial, surgiu com a proposta de atuar num nicho editorial e fortalecer esse segmento, a seleção das obras passa pela análise do conteúdo, claro, e da temática, nos diversos gêneros.

Com relação aos autores, praticamente não somos nós que os escolhemos: são eles que nos escolhem, devido à especificidade de nossa linha editorial e à longa trajetória da editora. Daí, recebemos os originais e fazemos uma seleção considerando a situação do mercado, as demandas que percebemos entre nossos leitores, as conversas que temos com alunos e professores e, sobretudo, os objetivos da editora.

Temos uma boa relação com nossos autores, mas, sendo uma editora pequena e sofrendo as agruras da distribuição, nem sempre conseguimos atender às suas expectativas em relação a uma divulgação nacional e à presença da obra nas melhores livrarias do país. Continuamos nos esforçando para fazer o melhor — especialmente no cuidado gráfico e editorial da obra — e buscando alternativas para melhorar divulgação e distribuição.

A atividade editorial no Brasil é uma empreitada dura, e nos dois últimos anos tem sido ainda mais difícil. Considerando a especificidade da nossa linha editorial — determinante na maior parte das nossas publicações — e a demanda que normalmente temos também nas escolas e entre os profissionais da educação, sofremos muito com a ausência de políticas públicas e com a suspensão de muitos programas de compra nas diferentes instâncias governamentais, o que prejudica nosso cronograma de produção. O momento exige esforço e criatividade para repensar alguns modelos e buscar novos caminhos.

De todo modo, trabalhar com editoração e produzir livros nos quais acreditamos, persistindo na proposta que idealizamos lá atrás, é extremamente gratificante. Quando vemos nossos livros circulando, quando recebemos mensagens de nossos leitores ou informações de professores sobre a importância das obras, quando estamos nas feiras e vemos o brilho nos olhinhos das crianças ou ouvimos de um pesquisador a importância de livros da editora em sua trajetória, nos sentimos recompensados. Não posso dizer que foram lições, mas apenas a constatação de que os frutos do nosso trabalho nos dão os nutrientes necessários para continuarmos resistindo na caminhada, por mais espinhosa que ela seja, especialmente nesse Brasil que estamos vivenciando nos dias de hoje.

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