Cultura

Do Romance: Nunca Defender uma Tese

‘Contar boas histórias e aprimorar o uso da linguagem, creio, é o dever e o desafio do autor brasileiro contemporâneo’, afirma Marcos Vinícius Almeida, autor de Inércia (Desfecho Romances, Rio de Janeiro: 2009), tipo de romance de formação, influenciado por autores como Albert Camus, Henry Miller e Chuck Palahniuk, que narra — usando uma descrição de frase rápida e entrecortada; uns diálogos e situações com vitalidade de crônica; e trechos algo mais densos focados no fluxo de pensamento — a vida de Juan, estudante de Filosofia, vivendo com o dinheiro que ganha dos pais ou que consegue vendendo seus livros, bebendo o mais que pode, rapaz que abandonou a namorada de tantos anos porque a relação tinha se agastado além de um limite, entre o que seja a adolescência e o que se chame idade adulta, talvez bem descrito pelo que diga a frase de Clarice Lispector: ‘O cotidiano contém em si o abuso do cotidiano. O cotidiano tem a tragédia do tédio e da repetição’.

O livro tem inspiração autobiográfica, então Juan certamente tem algo de seu criador, que é, também, estudante de Filosofia, em Minas Gerais. ‘Juan foi uma espécie de alter-ego que conviveu comigo durante algum tempo, mas já me livrei dele. Não nos damos muito bem’, diz Almeida. Na entrevista abaixo, o autor fala sobre como as influências de outros autores e os fatos sugeridos pela própria vida agem sobre o seu trabalho, além de comentar sobre os temas que seu livro abrange, como fuga/responsabilidade, pragmatismo/metafísica, etc. As suas ideias a respeito do próprio conceito de romance também ficam claras: ‘encontrei essa constatação fundamental: nunca defender uma tese’.

Capitu — Quais são suas influências? Aposto em Chuck Palahniuk, pelas evidências no livro; creio que John Fante, pela aparência da problemática do seu protagonista e do de Pergunte ao Pó. No Skoob, vi que você leu uma série bem extensa de livros de Albert Camus. Bem, quais você definiria como influências de Inércia? E como, exatamente, eles o influenciaram?

Marcos Vinícius Almeida Tenho muita dificuldade em encontrar objetivamente os autores que leio nas coisas que escrevo. No Inércia, como você bem notou, Chuck Palahniuk, Camus, principalmente O Estrangeiro, e acrescentaria Graciliano Ramos, Luiz Vilela e Henry Miller. São os autores que mais lia na época, em 2004, quando o livro tomou sua forma bruta.

Vejo alguns recursos técnicos advindos de Palahniuk. Como o uso da segunda pessoa ‘você’ em algumas descrições, o uso da frase solta como parágrafo, a narrativa circular, entre outras coisas; e a temática de ‘os filhos do meio da história’, pouco desenvolvida é verdade, mesmo porque, o conflito de Juan é individual. De Miller vêm a metalinguagem, o lirismo e certas cenas surreais, por exemplo, quando Juan descreve as coisas que habitam a cabeça do motorista.

Leia o conto ‘O Relógio do Hospital‘, no Insônia de Graciliano e terá uma surpresa: ‘Inércia, um vácuo enorme, o prognóstico da mulher nova ameaçando-me(…)Escuridão, silêncio. Depois um instrumento de música a tocar, a sombra adelgando-se a distância.’ ‘A inércia findou num instante, o corpo morto levantou-se rápido, como se fosse impelido por um maquinismo'(…)’Um, dois, um, dois. Certamente são as pancadas de um pêndulo inexistente’.

Ler Vilela me fez buscar clareza. Da linguagem simples. Em Camus encontrei a constatação fundamental do romance, creio: nunca defender uma tese. Abre-se um mundo, mas não por meio de argumentações. Uma das falhas no meu livro foi justamente essa. Evitar demais a tese, evitar que o personagem agisse feito ‘ideia de chapéu’, escancarada. Talvez, por isso, falta uma obviedade estrutural; e sobre-lhe o discurso contraditório e por vezes maçante.

Capitu — Seu livro é ‘inspirado na sua própria vida’, como afirma a orelha, em qual medida isso se dá?

Almeida Parte de coisas que vivi, como uma espécie de superação intima; alguns dos conflitos de Juan são meus, outros não. Mas não somos a mesma pessoa. Juan foi uma espécie de alter-ego que conviveu comigo durante algum tempo, mas já me livrei dele. Um terceiro eu do passado que ganhou vida e vive por si mesmo. Não nos damos muito bem.

Capitu Daniel Piza afirmou:

‘a ficção nacional sempre soa como uma espécie de memória disfarçada, uma crônica rarefeita e emotiva, parasitária de alguma influência mal digerida. Os personagens nunca deixam de ser autobiográficos; o estilo sempre está a reboque de outro. Não se explora a língua nem em seu potencial de pensamento nem de percepção.’

Sem entrar no mérito de o quanto suas influências foram ou não digeridas, crê que essa possa ser uma crítica ao seu livro? Ele seria uma ‘memória disfarçada’? ‘Crônica rarefeita e emotiva’? Você considera que usar a própria vida para escrever possa ser um problema, como o Piza parece dizer nesse caso?

Almeida Camus, no discurso de recebimento do Nobel, disse:

‘Jamais pude renunciar à luz, à felicidade de existir, à vida de liberdade em que cresci. Mais certo é afirmar que esta nostalgia explica muitos dos meus erros e faltas, ela certamente me ajudou a compreender melhor meu ofício, ela ainda me auxilia a me manter, cegamente, junto a todos esses homens silenciosos que não suportam, mundo afora, a vida que lhes coube senão através das lembranças e dos retornos a esses breves e livres momentos de felicidade.’

Não concordo com essa constatação de Daniel Piza. A memória por si só é uma representação, uma ficção, um recorte intencional do sujeito. É impossível escrever sobre si mesmo, a intencionalidade da consciência forja uma memória deformada; já existe uma intenção estética à desviar-se da autobiografia. Não que seja mentira ou verdade. As histórias dos livros são melhores quanto mais distantes estão de necrópsias da verdade por trás da história. O que vale é o texto por si. O problema da literatura brasileira é buscar confetes lá fora, um reconhecimento que não faz sentido algum, exceto vaidade. Cheira à complexo de província, de pinto pequeno. Recorda-me do conto Silveira Pereira, de Graciliano Ramos, onde um jovem literato divide uma pensão com um sujeito que julga ser escritor. O Silveira Pereira escreve um conto, e mostra pro sujeito, que lê silencioso e devolve. Esse silêncio deixa o personagem aspirante escritor com a vaidade atacada. Acho que acontece o mesmo com a tal literatura brasileira… Vaidade, vaidade…

‘O sertão é dentro da gente’, já dizia Guimarães. A transcendência está na imanência. O universal no cotidiano. Contar boas histórias e aprimorar o uso da linguagem, creio, é o dever e o desafio do autor brasileiro contemporâneo.

Não vejo problema algum em usar a vida pra escrever; como não vejo vantagem alguma: o que importa é o texto. A rotulação que é perigosa.

Claro que pode ser uma crítica, mesmo porque é um livro de estréia, escrito quando eu tinha 23 anos. E mesmo que tenha investido sobre ele nesses anos, não consegui atingir aquilo que desejaria. Já tenho outra obra em andamento, e os desafios são outros, principalmente quanto a questão da relação entre silêncio e linguagem. Vou me frustrar com certeza, mas não há outra saída.

Capitu — Me parece haver um certo desprezo pela filosofia, ou pelo pensamento pelo pensamento, pelo raciocínio metafísico — quero dizer, uma defesa de uma postura pragmática frente a tudo isso. Vê-se isso na descrição dos trabalhos que são apenas ‘paráfrases de filósofos’, pelo sucesso nas provas por ‘assimilar o tipo de raciocínio do professor’, entre outros exemplos. Você é partidário dos que pensam que tudo isso é só ‘masturbação intelectual’? Que resta à filosofia hoje em dia?

Almeida Marx disse que a filosofia passou muito tempo pensando o mundo, e que era hora de transformá-lo. Eu acho que essa fase também passou… Agora é hora da filosofia começar a viver, descer do castelo e atolar-se na lama, onde a vida acontece. As dicotomias não foram superadas e o pensamento metafísico ainda nos fascina, disfarçado de outras vestes: como um bezerro de ouro.

A função da filosofia é construir relações éticas e verdadeiras: do indivíduo com si mesmo, com os outros e com mundo. Construir e arejar essas relações.

Capitu — No fim das contas, depois de uma adolescência com algumas paixões, algum tédio, bebedeira, drogas, música, conversa, piada, ressaca, danceteria, nostalgia, um senso vago de obrigação, tempo que passa e não volta — depois de tudo isso, o protagonista se decide por não ‘ser mais um garotinho’, ele diz: estou com medo. Nunca tive tanto medo em toda a minha vida. Medo de crescer, sim. De tornar-me um homem. O que me parece dizer que todas aqueles atividades são parte de uma espécie de infância, e que há uma vida real e ela consiste em trabalhar, se sustentar, guiar a vida, assumir responsabilidades. Não sei se me fiz claro. Mas, no final do livro, viver é essa luta comum pela vida, essa luta quotidiana que todos têm?

Almeida Talvez… Pelo menos da perspectiva do Juan, pode ser. Ou talvez, por outro lado, seja sua última e derradeira desculpa pra se esconder da maior de todas as responsabilidades.

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