Amigos de ascendência japonesa e chinesa têm sofrido xenofobia nessa crise. A dignidade dessas populações é uma prioridade

imagem: Thomas Roggero

Um casal de amigos, ela de ascendência japonesa, ele de ascendência chinesa, tem sido alvo de xenofobia nessa crise do coronavírus. O apartamento deles foi arrombado, dinheiro e joias foram roubados (a administração do prédio se recusa a liberar os vídeos do sistema de segurança). O mercadinho dos pais dele teve de fechar, porque sofreram ameaças. Até na feira meus amigos foram ofendidos. E eles ouviram de outros descendentes de orientais relatos semelhantes.

Eu gostaria de crer que não é preciso enfatizar o quanto isso não é um problema menor. Mas os tempos não são assim (ou nunca foram) e é sempre preciso se engajar pela humanidade apesar de tudo em contrário. Ressalto, então: o que pode se espalhar ainda mais velozmente que a covid-19 são o ódio ao diferente, a paixão doentia pela identidade — pessoal, grupal, nacional — o pânico que busca respostas fáceis e imunidades fantasiosas. A pandemia biológica comporta outra, cultural.

A violência que atinge meus amigos tem exemplos mundiais. Ontem, o New York Times publicou um editorial sobre isso, recuperando tanto o longo histórico, desde a Idade Média, da vilanização do estrangeiro (ou “estrangeiro”, no meu contexto: meus amigos são tão brasileiros quanto eu) até casos atuais nos Estados Unidos, no Egito, no Japão. É isso o que termos como “vírus chinês” ou “vírus de Wuhan” alimentam. É isso o que a crítica, até um ponto justa, de como o governo da China lidou com o início da pandemia, se permite ignorar.

A segurança e a dignidade dessas populações é também uma prioridade. Não atentar ao bem-estar de todos esses homens e mulheres como eu e como você é perder mais do que uma doença pode nos tirar. Aliás — os tempos demandam que se enfatize! — se nos falta a verdade de que essas mulheres e esses homens são como você e eu, já estamos, em um nível a que o corona não chega, profundamente doentes.

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