Um padrão do presidente é a tentativa de se alhear do seu papel e dizer que, como indivíduo, não tem nada a ver com nada

Nem sempre Bolsonaro lembra que é portador dessa faixa | imagem: Jeso Carneiro

A mais recente “indelicadeza” de Bolsonaro — sobre mais de cinco mil mortos por covid-19 no país, “e daí? Lamento, quer que eu faça o quê?” — acrescenta só mais uma gota no caldo de choque e dessensibilização que implica acompanhar tudo o que dizem o presidente e seus funcionários. Mas há algo de particular nessa declaração, uma identidade forte, um padrão que se exibe quando temos em vista outra fala em especial.

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Atente-se a tudo o que ele enunciou, pois a estrutura se repete: “E daí? Lamento, quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre​”. Adicionou ainda: “As mortes de hoje, a princípio, essas pessoas foram infectadas há duas semanas. É o que eu digo para vocês: o vírus vai atingir 70% da população, infelizmente é a realidade. Mortes vão haver. Ninguém nunca negou que haveria mortes”.

O eco mais importante a perceber é o desse discurso com o “o que eu tenho a ver com isso?” proferido pelo recém-eleito Bolsonaro sobre o assassinato de Moa do Katende, homem negro de 63 anos, capoeirista, morto por um bolsonarista, que o esfaqueou “durante uma discussão política” e “ao revelar que vota no PT”, como informou o G1. Lembremos toda a fala daquele que estava prestes a assumir a República:

Pô, cara! Foi lá pergunta essa invertida… quem tomou a facada fui eu, pô! O cara lá que tem uma camisa minha, comete lá um excesso. O que eu tenho a ver com isso? Eu lamento. Peço ao pessoal que não pratique isso. Eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam.

Assemelham-se essas posições desde o mais trivial dos seus recursos retóricos. Bolsonaro puxa a simpatia para o seu lado ou pelo humor (“Sou Messias, mas não faço milagre”) ou por uma requisição de camaradagem (esse “pô, cara!” que critica o que seria um jogo baixo). De saída, ele procura fazer-se um não-presidente, só uma pessoa comum, em uma troca comum. Isso é potente, isso cativa o seu eleitorado e é apenas nesses momentos em que a obrigação que devia ter se impõe é que essa postura aparece como antiética ou engodo.

Mais relevante, contudo, é a analogia entre os dois momentos em que Bolsonaro não tanto se esquiva da responsabilidade como pretende nem reconhecer que tem responsabilidade. Igualmente análogas são a demagogia e a hipocrisia dessas posições: de um lado, o então candidato um mês antes do assassinato estava dizendo “vamos fuzilar a petralhada” e um mês depois avisava que “quem quer atrapalhar o progresso vai atrapalhar na Ponta da Praia” — nome de um local de execuções da ditadura militar; de outro, foi aferido que os lugares de menor adesão ao distanciamento social são os ocupados por um maior número de bolsonaristas.

Há conexões, mais ou menos difusas, entre o que faz e fala o presidente e o que se efetiva por via dos seus seguidores. Ele sabe disso; o que usa em sua defesa é o mesmo pessoalismo que já havia construído na retórica: não fui eu, em pessoa, que fiz, não fui eu, em pessoa, que mandei, não sou eu, em pessoa, que posso fazer nada. Bolsonaro, político, não se separa da gente que mobiliza; Bolsonaro, presidente, não se separa da máquina institucional à sua mão — mas se impõe como “só uma pessoa”. No fundo, o que se desloca é o significado da palavra “responsabilidade”. Podemos entendê-la em sentidos mais amplos; o presidente a vê como “imputabilidade”.

O assassinato de Katende? “Eu sou inimputável”. Cinco mil mortes (e subindo) por covid-19? “Eu sou inimputável”. Para firmar ainda mais essa condição que o deixa “além da crítica”, “além da repreensão”, “além da exigência” — aliás, é esse o espaço de atuação que ele construiu para si — a chave de ouro de Bolsonaro é anular o problema, seja negando a sua existência (“gripezinha“), seja tratando-o como inevitável, ou seja, fora do campo da ação. “Não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas” ecoa “mortes vão haver. Ninguém nunca negou que haveria mortes”. Fora do campo da ação: fora da ética e da responsabilidade. Inimputável.

Para além dessa análise do discurso, o crucial talvez seja o seguinte: frente à morte de um homem negro de 63 anos e a morte de milhares no Brasil, centenas de milhares no mundo, o mesmo egocentrismo, a mesma negação de si como parte de uma sociedade. Quando Bolsonaro fez pouco da morte de Katende, isso já anunciava o “e daí?” dito agora. No micro e no macro se desdobram perguntas éticas idênticas. Bolsonaro decidia a sua postura quanto ao destino de vários nesse ato de decidir a sua postura sobre o destino de um. E Bolsonaro faz mais do que se esconder quando afasta o “ser responsável” mais intensificado e afirma o “ser inimputável”. Decide em si e para muitos outros a sociedade inteira e o seu destino.

Categorias:Política

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