O autor tem de descobrir que ele é ele mesmo, e não vai ser algo menor ou maior

imagem: Kevin Hutchinson

Acho que todos os autores de ficção especulativa da minha geração começaram querendo ser a próxima Rowling ou o próximo Tolkien. Digo isso porque na minha infância e adolescência a série Harry Potter — e suas adaptações —, bem como a trilogia O Senhor dos Anéis, foram os grandes fenômenos mundiais da fantasia.

Não sei nem se ser o Tolkien também era mesmo um desejo concreto quando um autor iniciante pensava na própria carreira — Tolkien já tinha morrido havia muito tempo quando a minha geração o descobriu, e ele nunca ilustrou tão bem o imaginário rags-to-riches em torno da Rowling, uma Cinderela da literatura fantástica que ficou milionária escrevendo sobre bruxos. Mas a história era mais ou menos essa: quem não queria escrever o próximo Harry Potter, queria escrever o próximo O Senhor dos Anéis. E todo mundo se achava plenamente capaz disso (me incluo nesse meio).

A evolução de um autor — quando se pode dizer que está amadurecendo — passa inevitavelmente por descobrir que ele não vai ser o próximo X ou Y. Passa, inevitavelmente, por parar de produzir cópia para produzir algo original. E, quando você descobre o que é seu, é raríssimo que você olhe para trás e prefira abandonar o que se tornou para voltar à imitação. Em resumo, o amadurecimento do autor se dá quando ele descobre que ele é ele mesmo, e que não vai ser algo menor ou maior do que isso. Você pode ser maior do que X ou Y, mas não pode ser maior do que você e de suas capacidades.

Ser maior do que X ou Y não significa que a possibilidade de ganhar milhões com literatura seja grande. Não, não estou falando de dinheiro, porque seria ridículo. Mas pode chegar o momento em que você se pegue relendo X ou Y e perceba que a magia se foi — que você superou o que ajudou a te formar e que, no presente, preza pelo que você escreve muito mais do que preza pelo que seus antigos ídolos escreviam.

Nada disso significa que você é, para os olhos dos outros, dos leitores, dos críticos, melhor do que X ou Y. O que significa é que você simplesmente chegou no estágio de se aceitar como o autor que é e de respeitar o que você faz. Você enfim parou de se comparar com X ou Y.

O autor que entende quem ele é não é, tampouco, o autor que se acha a última Coca-Cola do deserto. Pelo contrário: o autor que se conhece sabe muito bem onde estão os próprios pecados e vai dedicar a vida/carreira a tentar superá-los. Mas a chave é essa: você vai tentar superar seus pecados e colher seus louros, e não superar os pecados dos outros e colher louros que não são seus.

 

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