Toda vez que nossa contemporaneidade foge do controle, a gente busca refúgio em algum lugar acabado e certo, em que nossas ações estão bem asseguradas

imagem: DRKulturaVSProjekt

Este texto é uma pequena observação que parte, mas não apenas, de uma leitura da música de Raul Seixas “A Verdade sobre a Nostalgia“. Começo dizendo que aqui não vou chegar a nenhuma conclusão. Me agrada muito mais ser a pessoa que “coloca o elefante na sala” e “sai com pés de veludo”: apontarei uma questão, algumas hipóteses e encerrarei; cabe aos meus leitores discutirem o que eu coloco e aí apontarem novas perspectivas. Acredito, por minhas leituras sobre a metodologia do ceticismo, que essa é uma forma muito mais interessante de debater qualquer coisa.

O que é a nostalgia? Pensar a nostalgia é pensar nossa relação com o passado. “Memória” é uma palavra-chave. Existe tanta gente de calibre que estudou essa temática que citar cinco delas é não citar outras dez igualmente importantes. Então, para obter uma definição genérica sobre a forma como vemos o passado, vou fazer algo horrível: resumir extremamente conceitos de dois teóricos sobre os quais tenho um pouco mais de conhecimento. Vale ressaltar que ler os conceitos na fonte é bem mais proveitoso do que ficar só com o que traz esse artigo, o qual se propõe, como eu disse, a ser uma simples observação.

O primeiro, claro, é Walter Benjamin, que pensa a memória e o passado pela alegoria do “anjo da história”, a figura que, sendo empurrada para o futuro, está de frente para o passado, de onde se afasta; porém, a todo o momento, interpretando-o. Como assim? A gente pode dizer que, segundo Benjamin, manter viva uma memória significa olhar para um fato passado e, à luz de perspectivas contínuas e sobrepostas, analisar e reanalisar, procurar novos pontos de vista.

Outro ponto importante é o narrar. Benjamin fala sobre a perda da experiência narrativa pura, ou seja, que o narrador contemporâneo narra abrindo margens para dúvidas. Ele o faz sem autoridade, do seu ponto de vista particular, e, nós, como leitores críticos e interessados em captar a essência da história, começamos a debater. Começamos a questionar sua narrativa, a analisar a história, e, de certa forma, a romper a idealização da narrativa. Algo que o saudosismo quebra, e assim, facilita nossa assimilação e apreciação inquestionável.

Contemporâneo a Benjamin, Henri Bergson tem uma perspectiva sobre memória que me agrada também. Quando teoriza que todas as nossas memórias existem como potência, o filósofo francês afirma que, para serem retomadas, essas memórias precisam ser colhidas e recolhidas. Compreendo que Henri Bergson nos diz que todas as nossas memórias existem como parte inerente de nossa mente e que rememorar/relembrar é, na verdade, acionar essa memória “adormecida”. Daí, então, começar a tecer interpretações e leituras sobre ela, sobre as lacunas e imprecisões. Isso, o francês chamou de refazer o passado no presente – algo que, no meu ver, é essencial pra falarmos de nostalgia.

Nesse sentido, pensemos no que Bergson chamou de duas realidades. De um lado existe o concreto, acessado por nosso cérebro, realidade que exige uma resposta imediata. Do outro, existem lembranças de situações às quais vivemos, e que ajudam o inconsciente a produzir reações no momento presente. Isso é, ao mesmo tempo em que nós seríamos fruto de um “estar no mundo agora” — o momento que é nesse exato segundo e nunca vai se repetir —, existe, em nós, um “eu já vivi algo assim” que nos ajuda a pensar no que fazer (e no que pensar) diante de uma situação vivida nova (o agora que nunca vai se repetir).

Assim colocados os conceitos que eu quero usar pra guiar minha leitura, vamos ao nosso fatídico objeto, a nostalgia.

Saudades? Não tem fim!

Eu comecei esse dizer com o Raul Seixas. Veja só o que ele fala na música A verdade sobre a nostalgia:

Na curva do futuro muito carro capotou
Talvez por causa disso é que a estrada ali parou
Porém, atrás da curva
Perigosa eu sei que existe
Alguma coisa nova
Mais vibrante e menos triste

O que posso supor que Raul traz aqui é uma metáfora sobre o tempo. O “carro” que “capotou” são as tendências culturais e sociais das mais diversas ordens de certo tempo que, na posteridade, são abandonadas. Por sua vez, a “(…) coisa nova // mais vibrante e menos triste” é a possibilidade do agora, a possibilidade de fazer algo diferente do que já se fez, a possibilidade de se quebrar um paradigma – menos triste, porque o saudosismo tem sempre certa dose de melancolia…

Those were the days, diz uma música da banda Cream, de Eric Clapton, e de outra da cantora inglesa de música meio folclórica, Mary Hopkins. O que isso significa? Que hoje em dia o mundo está complicado, está ruim, está em decadência. Uma visão bem mais nostálgica que a de Raul, que é crítico com o excesso de saudosismo de seus pares.

E como isso se liga à nostalgia e à memória? Acho que a pergunta mais interessante nesse ponto é: Por que sentimos saudades de algo? Penso aqui em hipóteses que ligam Raul, Walter, Henri, Eric e Mary.

Raul critica o saudosismo por preferir pensar no futuro, em novos paradigmas. E faz isso porque o saudosismo e a nostalgia, como aqui a entendo, não é simplesmente sentir falta de uma época (às vezes, até sentir falta de uma época que nós não vivemos, como no filme Meia-Noite em Paris, do Woody Allen); é sentir falta de uma época porque essa já acabou, portanto, é previsível. Como assim?

Como primeiro exemplo, vamos pensar numa festa de casamento. Na hora das danças acontecem as valsas e tudo. Nada demais. Começam as músicas do momento, o pessoal dança, se diverte. Normal. Começam músicas dos anos 1970 (disco), anos 1980 (new wave), a festa estoura! Por qual razão? Pela emoção do evento? Sem dúvida! Pelos efeitos da bebida? De minha parte, afirmo que sim. E por saudosismo?

Ora, Lucas, você está exagerando! Saudosismo, num casamento? Talvez eu esteja exagerando… Talvez eu esteja pensando no Bergson: nosso cérebro já tem todo o esquema daquela época montado, ali é um espaço de segurança e certeza. Começa um “Y.M.C.A., do Village People, e, inconscientemente, pensamos em todos os problemas daqueles dias e todas as soluções que hoje são óbvias. A gente tem saudades daquela época, porque nosso anjo da história está olhando para esse passado e pensando em todos os problemas que lá surgiram e que apenas hoje nós sabemos como solucionar.

Se nós pensamos no Balão Mágico, ouvimos a infante Simony e o balzaquiano Djavan, algo faz que nos sintamos bem. Que nos sintamos saudosistas de tudo aquilo. Por que? Pode ser porque nós acatamos a narrativa oficial, e ignoramos nossas visões contemporâneas sobre aquele mundo. Em nossa apreciação Simony será sempre uma menininha banguela e inocente e Djavan, o grande artista que não apoia governantes controversos. Surgem as respostas para os problemas que sabemos vir a existir depois. Ali, no acesso saudosista, tudo parece “perfeito”, porque para qualquer pergunta há uma resposta.

Não falei de Jung, mas poderia tê-lo citado, porque se a gente pensar no seu conceito de “inconsciente coletivo”, nos aparecem alguns outros caminhos; o Balão Mágico e o Village People fazem parte de nossa cultura, e em nossos primeiros anos de vida ouvimos as suas músicas e isso em momentos de alegria e prazer, segurança e satisfação. Em nosso inconsciente, na parte do cérebro que, voluntariamente, a gente não acessa com facilidade, estão esses ícones, e isso é coletivo, porque eles são construções sociais e culturais dotadas de valores que são comuns a uma boa parcela da população.

Nosso inconsciente coletivo resgata essas memórias, tudo aquilo que surgiu quando ouvimos essas músicas, associa essas canções ao prazer, à satisfação, à afetividade, além de valores culturais (quanto aos exemplos citados, o caso da inocência de Simony, o orgulho e resistência LGBTQI+ do Village People, que enfrenta o preconceito com humor e coragem).

Somos transportados a uma época que, diferente da nossa, está acabada. Acabada, ela pode ser analisada com mais segurança. A todos os problemas desse período, sobejam respostas, daí temos nostalgia, daí pensamos “Eu queria ter vivido nessa época!”. Queríamos ter vivido os anos 1960, 1970, 1980, nossa adolescência colegial? Isso porque hoje sabemos com enfrentar todos os problemas que lá tivemos.

Falei de música porque esse meu gatilho de opinião surgiu, precisamente, com músicas. Mas vamos pensar em outros ícones de nossos tempos: o que Os Flintstones significam para você? O Laboratório de Dexter? O cheiro de café de coador? O cheiro de chuva? A sensação de saudosismo que afeta a tudo e a todos, alguns menos que outros. Mas veja que eu não quero incluir totalmente a parcela de crítica estética, como fator incisivo para um sentimento nostálgico.

Não quero entrar no mérito da estética; talvez, a consagração por seu valor estético, mais do que qualquer outro, seja aquilo que se chama de um “clássico”; a gente gosta, não (só) porque isso nos remete a algum período; pela sua forma estética, por sua quebra de paradigmas num segmento, por ser uma obra de arte com toda a complexidade que tem uma obra de arte. “Toy Story, um desenho clássico e inovador”; “The Smiths, uma banda canônica”; “’Smells Like Teen Spirit‘”, um hino dos anos 1990”. Ícones culturais de intrínseco valor estético, que redefiniram os padrões de seus tempos, que nos afetam porque foram feitos para nos causar sentimentos dos mais variados.

Diferente do objeto do saudosismo que, às vezes, não quebra nenhum paradigma e, na sua época, foi feito apenas pra dar uns minutos de diversão. Se a gente pensa no valor estético de uma música como “Freak Le Boom Boom“, existe aí uma quebra de paradigmas? Uma revolução na indústria musical brasileira? Afirmo sem ser acusatório à nossa cara Maria Odete que não. E, mesmo assim, é um ícone dos bailes de “revival”, um nome comercial bom pra bailes-da-saudade de anos 1980. É uma volta a certa forma de viver o mundo para a qual não existem surpresas; uma forma de nos integrarmos a uma certa forma de cultura (aqui, como sinônimo de sociedade e tudo que vem com ela) que nós já sabemos o que esperar, como agir, e o que fazer.

Efetivamente, a nostalgia significa esquecer dos nossos problemas de hoje, esquecer de nossas questões sem caminho claro e óbvio, esquecer de temas novos que surgem e que trazem questões com eles, mas que nós não conseguimos responder. Diz a música do 14 Bis.

Toda a vez que o adulto balança, o menino me dá a mão

O menino, no caso, pode ser as nossas certezas. Toda vez que a contemporaneidade foge do controle, a gente busca refúgio em algum lugar acabado e certo, em que não temos nenhum enfrentamento, em que nossas ações estão bem asseguradas: nossas lembranças e a nostalgia de certa época.

Outros exemplos, há milhares. Chaves, Dançando na Chuva, o canal Viva… Termino, porém, com uma única narrativa. Alguém está, em seu canto, a ouvir “Trem da Alegria” no Youtube, e pensa: “Queria ter vivido nessa época! Iria em todos os shows do Cazuza, faria uma campanha ferrada contra o Sarney, compraria ações da IBM…”. Claro que sim. Claro que faria isso tudo: faria por saber do que se passou. Não há, hoje, mistério em saber que os shows do Cazuza eram grandes acontecimentos, que o Sarney fez um governo horrível ou que a IBM vale bilhões. Não há mistério, porque hoje sabemos isso.

Mas e naquela época — saberíamos?

Uma resposta sincera a essa pergunta pode ser “a verdade sobre a nostalgia”.

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