Um depoimento sobre as barreiras de classe no estudo e no convívio universitário

imagem: Gabriel de Andrade Fernandes

Eu lembro até hoje do primeiro dia de aula na faculdade. Foi uma coisa que me assustou: o primeiro professor que tive de cara falou que teríamos que nos virar para ler mais de 100 páginas na semana (às vezes para uma única aula). Tínhamos que nos acostumar a ler no ponto de ônibus, no próprio ônibus (em pé, que fosse), mas que era necessário ter essa leitura. Fiquei chocada e tentei ler todos.

O primeiro semestre eu ainda não trabalhava, mas estava em busca de um trabalho. Meu contrato de jovem aprendiz tinha terminado em 1 de janeiro de 2015 e era necessário que eu conseguisse um novo emprego o mais rápido possível. A princípio, eu poderia ter aproveitado as horas maiores de dedicação. Mas como ter cabeça para estudar quando você sabe da necessidade maior de comer e não ter ninguém na sua casa trabalhando? Na época, para completar a cereja do bolo, tinha um vazamento em casa que deixavam a conta em mais de 200 reais. A gente fechava o relógio de água toda noite para evitar que a conta viesse com um valor mais alto. Como ter atenção aos estudos, às mais de 100 páginas de leitura (devo lembrar que era muito difícil — mais do que hoje, concordo — ler os textos passados para as aulas) quando tudo isso acontecia essa sua casa?

Meu primeiro ano de faculdade foi perdido. Nem prestar atenção nas aulas conseguia. Cheguei a comentar com dois professores que estava com dificuldade para acompanhar as aulas. Um deles em especial me deixou um canal aberto para que pudesse enviar dúvidas sobre as leituras. E aí batemos novamente na questão da dificuldade de ler quando sua cabeça está a milhão, preocupada em conseguir um emprego.

Consegui um estágio no segundo semestre. Tive sorte, certeza. Era no mesmo lugar em que fui jovem aprendiz. Minha chefa na época já me conhecia e acredito que isso tenha me ajudado. Ufa, né?! Aí entramos na outra questão: conciliar trabalho e faculdade, cansaço e estudo. Vivia com dor de cabeça. Na época entrava às 7h. O trabalho era muito perto de casa, o que ajudava demais. Assim como a faculdade fica perto também, apenas péssimo para usar transporte público: os caminhos são contramão. Mas enfim. Eu poderia entrar mais tarde se eu quisesse, porém sempre achava que era melhor entrar cedo e conseguir chegar cedo na faculdade para estudar. E, realmente, saia 14h do estágio e antes das 16h já estava lá. Só que o cansaço estava junto… E as dores de cabeça por causa do sono. Acho que nunca tomei tanta dipirona na vida, como nos dois primeiros anos de faculdade. Quantas vezes chorei sozinha querendo desistir de tudo. Quantas vezes me senti tão incompetente de não conseguir ler os textos para a aula.

E junta tudo isso com a dificuldade de compreensão das pessoas. A última pessoa com que rompi contato na faculdade foi justamente por não entender que não conseguiria comemorar o aniversário dela em dois lugares diferentes. Lembro que tinha guardado meu vale-refeição (já estava no segundo estágio) para ir ao bar que ela tinha reservado. Tinha me programado para que fosse possível. Mas era isso, tudo contadinho. No fim das contas, não houve compreensão quando disse que não poderia ir em outro rolê no mesmo dia. Não houve compreensão quando disse que tínhamos realidades diferentes. Enfim, a comunidade uspiana às vezes fode a gente.

Hoje estou tentando fazer iniciação científica. E o ciclo volta novamente. Eu poderia ter escrito meu projeto nas férias de final de ano. Mas minha única vontade era ficar longe das coisas da faculdade. Precisava descansar, dormir, tentar viver um pouco. E ao mesmo tempo eu ficava noiada pensando no que não estava fazendo. Saúde mental não existe tem um tempinho.

(Antes que eu me esqueça: tive um privilégio (ou sorte) enorme de ser bolsista a vida toda. Certeza que só entrei na faculdade por causa disso. Não teria como bancar cursinho.)

Falei demais, mas o que quero dizer é: faculdade, no meu caso a USP, para gente que vem de baixo é sempre um enfrentamento, uma luta diária contra o cansaço, contra as barreiras sociais. É sobreviver a cada dia.

Força para todos nós nessa luta!

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