Seis imersões narrativas em pinturas de Edward Hopper (1882-1967)

Estrada em Maine

Toda vez que avistava aquela curva na estrada em Maine pensava que para algumas coisas não há mesmo solução. Tinha a sensação que precisava fazer a curva bem devagar. Pensava em tragédias. Sempre imaginava acidentes terríveis que nunca aconteceram. E fazia, realmente fazia a curva lentamente, pensando em morte e dor. Toda vez que avistava aquela curva na estrada em Maine ficava na dúvida se o que sentia pelos otimistas era admiração ou desprezo.

Noite no El Train

Que diferença há entre a primeira e a última viagem? Um instante congelado pode só ser triste para quem de fato mergulhou nele. Ninguém no El Train poderia adivinhar que os dois, tão aninhados perto da janela, faziam a sua última viagem. Quem a olhasse de costas, bem vestida, chapéu no lugar, não adivinharia jamais que tinha o rosto molhado por lágrimas. O amor, quando acaba, também pode parecer apenas um vagão de trem praticamente vazio.

Automat

Quando Hilda tinha quatro anos, seu pai telefonou para casa e disse que estava a caminho, saindo do trabalho, e que levava uma surpresa para ela. Com a euforia típica das crianças, ela gritou ao telefone, perguntando o que receberia de presente. O pai disse que surpresa era surpresa e que ela deveria aprender a ter paciência. “Em meia hora, o papai estará na sua frente, entregando o seu lindo presente”. A duas quadras de casa, o pai de Hilda foi atropelado. Morreu na hora. A menina de quatro anos nunca descobriu o que receberia de presente naquela quarta-feira chuvosa. Passados quinze anos daquele dia triste, ela ainda tinha a mesma sensação. Toda vez que se encontrava sozinha, quieta e calada, Hilda ainda se sentia culpada. Ela pensava muito mais no que teria sido aquela surpresa do que exatamente no fato de ter crescido sem o seu pai.

Aposento em Nova York

Poly costurava seu vestido branco como se costurasse a vida. Com o mesmo entusiasmo. Unia as partes com agulha e linha em cima do tecido com a mesma força com que unia as pessoas ao redor dela. Gostava de estar sozinha, concentrada naquilo, no mais absoluto silêncio. Era o seu momento de ser só e aquilo era realmente muito importante para ela. Mas, ao costurar, unindo as partes, amarrando as pontas, juntando os pedaços, Poly lembrava que, para além da solidão que tanto prezava, amava fazer isso também com as pessoas. No fundo, no fundo, ela sabia: era uma pessoa entusiasmada.

Falcões da Noite

Toda noite aquele casal ia ao bar e pedia duas doses de gim, uma para cada. Sempre elegantes, sempre no mesmo horário. Nunca davam boa noite ou gorjeta. Jamais sorriam. Saíam calados, como entravam. Mas o que mais doía no coração do atendente nem era o fato de eles ignorarem a sua presença. Era a forma cortante como eles ignoravam um ao outro.

Posto de Gasolina

O tempo parecia ter mesmo parado naquele posto de gasolina. Não chegava carro algum, não aparecia viva alma sequer para pedir uma informação. Enquanto mexia nas bombas de combustível, Thomas só conseguia pensar que tudo o que ele queria era que aparecesse alguém ali. Não pelo dinheiro, tampouco para ganhar uma companhia diária. A vontade imensa de ver uma pessoa caminhando em sua direção se dava por apenas um motivo: Thomas, aquele homem que não se importava de viver sozinho e de trabalhar em vão,  só queria contar para um ser – qualquer ser que chegasse de passagem – que continuava vivo. Havia morrido de amor. Mas continuava vivo. Para um homem modesto como ele era, só cabia na alma um único desejo: compartilhar que ali, no meio do nada, vivia isolado do mundo um verdadeiro milagre.

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