O poeta fala do álbum dos Racionais MCs e da sua importância, tanto para a sua obra quanto para a arte brasileira em geral

A Companhia das Letras publicou em novembro uma edição em livro das letras de Sobrevivendo no Inferno, álbum dos Racionais MCs lançado em 1997. Úrsula pediu depoimentos sobre o disco e sua importância. Neste depoimento, fala o poeta Marcelo Ariel. Leia também o perfil de Ariel e a a entrevista feita com ele em 2009: “A Poesia é uma Antiforça“.

Leia também o depoimento do ator, dramaturgo e diretor de teatro Jé Oliveira.

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Lancei meu primeiro livro Tratado Dos Anjos Afogados em 2008 e a influência de Sobrevivendo no Inferno no meu processo de criação dos poemas foi imensa. Seria ótimo se alguém realizasse um estudo sobre este disco e os livros de poetas negros lançados na época. Considero Pedro Paulo Soares Ferreira, o Mano Brown, um dos grandes poetas da minha geração.

Sobrevivendo no Inferno possui uma “dramaturgia de imagens” densa e de grande complexidade semântica, não deve nada aos melhores discos de Gill Scott Heron e Linton Kwesi Johnson. Aliás, gostaria que os Racionais dialogassem mais com essas fontes, elaborando parcerias mais profundas com o jazz e o dub, por exemplo. Seria maravilhoso um disco deles com participação do genial pianista Amaro Freitas, de Recife, ou com samples de Moacir Santos e John Coltrane.

Sonhava com um encontro entre ele e Gilberto Mendes, que, infelizmente, nunca aconteceu, cheguei a mostrar faixas desse disco para o Giba, que dizia que era um “interessante e enérgico canto falado”. Dediquei meu poema “Caranguejos Aplaudem Nagasaki” [disponível aqui] aos dois.

Sinto que os Racionais e esse álbum são fruto da abertura democrática, de uma liberdade maior de expressão, algo que sempre precisaremos reivindicar, principalmente neste momento em que um político de extrema direita chega ao cargo de presidente do Brasil. A ponte ontológica que esse disco levanta entre Jorge Ben e o poeta e romancista presidiário Jocenir, as óbvias citações de Dante, a visão épica da vida em uma favela, foram estas coisas que me tocaram. Esse disco e uma canção do anterior, “Homem Na Estrada”, foram decisivos para que houvesse uma “ruptura” na história política da música brasileira, embora exista uma ligação profunda, a tal ponte mencionada, que os liga ao samba de um Moreira da Silva, do grupo Os Três do Rio, de Germano Mathias e de Zé Keti. Sempre houve a crônica social, mas com os Racionais MCs ela ganha um acento lírico furioso e um corte cinematográfico também. Sobrevivendo no Inferno é um filme de Glauber Rocha dirigido por Abdias Nascimento.

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