Como os eleitores de Bolsonaro chegaram a se auto-intitular “cidadãos de bem” e acreditar que votando nele seriam vingados ou justiçados diante do mundo?

A grande pergunta que se impõe acerca do que leva uma pessoa a ter a intenção de voto em Bolsonaro não tem a ver com grau de instrução, gênero, idade, etnia, mas sim sobre quais estruturas e visões de mundo essa pessoa desenvolveu até se auto-intitular “cidadão de bem” e acreditar que votando em Bolsonaro ela estaria sendo vingada ou justiçada diante do mundo. Há duas espécies de eleitores do capitão reformado que se confundem dentro da estrutura social que formou o Brasil contemporâneo. Uma é aquela cujos membros veem Bolsonaro uma potencial alternativa para seu ódio contra o PT e tudo o que representa a esquerda. Outra, reúne aqueles que, mais do que uma potencial alternativa, enxerga Bolsonaro como representante legítimo de seus anseios, se identifica com ele, e o toma, realmente, como um mito, ao ponto de reverenciá-lo pelo que ele tem de pior, ao passo que ignoram totalmente sua incapacidade de articular um raciocínio razoável ou ter alguma proposta concreta para tirar o país da grave crise em que se encontra. Nenhuma delas, até onde alcanço, parece estar preocupada nem pelo que representa seu “Posto Ipiranga”, Paulo Guedes, nem pelo que representa seu vice, o ex-General Mourão.

Guedes, ultraliberal, acredita na fantasia de que as forças espontâneas do mercado, com cada agente atuando por interesse próprio, faria o Brasil sair do buraco e andar com as próprias pernas, ao contrário do que todo país do mundo que se desenvolveu fez durante a história da humanidade. Seu vice, ex-general, não se furta de declarações misóginas e racistas com a maior naturalidade do mundo, afirmando que mães e avós que criam crianças são fornecedoras de desajustados sociais e integrantes futuros do tráfico, afirmando que a indolência e preguiça brasileiras vem de nossa miscigenação com negros e indígenas, mas esquecendo de mencionar o abandono parental masculino e tampouco o homem branco europeu que submeteu outras etnias para seu uso pessoal na formação de nossa sociedade, claramente dividida e desigual estruturalmente. Mas nada disso está em desacordo com o próprio pensamento de Bolsonaro, em que pese seu passado estatista e militarista que nega a ditadura e faz homenagens a torturadores confessos. Mesmo que oriente seus colaboradores a se calarem nessa reta final da eleição, o desprezo pelos direitos trabalhistas demonstrado por Mourão já foi reforçado às expensas por declarações do Bolsonaro. O entreguismo e as privatizações indiscriminadas propagadas por Paulo Guedes já foram reforçados pelo candidato que chegou até a dizer que a Amazônia não era nossa e prestar continência para a bandeira dos EUA.

Mesmo Bolsonaro sendo um embuste, um integrante do baixo clero no congresso, com participação inexpressiva no legislativo, sua vociferação, palavras de ordem e agressividade o notabilizaram, catapultado pela venda de que ele seria honesto, embora empregue com verba da câmara funcionários para cuidar de seus cachorros (a Val), pratique nepotismo, receba auxílio moradia (mesmo tendo casa onde trabalha) e não abra mão dos privilégios que diz querer combater. Emblemática, para ajudar a construir sua imagem falsa de honesto, foi a “lavagem” de recursos que fez quando recebeu um cheque da JBS em sua conta e, ao invés de devolvê-lo ao emitente, entregou para o partido que, no mesmo dia, depositou a mesma quantia em sua conta bancária. Nada disso seria motivo de escárnio se não fosse a gritante falta de propostas concretas e factíveis até para a área em que se diz um especialista: a segurança. Além de não ter aprovado nenhum projeto de segurança em seu próprio Estado de origem (Rio de Janeiro, que é um dos mais violentos do país), suas pseudo-propostas são apresentadas por frases de efeito e envolvem armar a população, metralhar favelas após o aviso para que os bandidos se retirem e/ou castrar quimicamente estupradores. Todas as propostas têm como alvo o efeito, um resultado não desejado. Nenhuma busca diagnosticar as causas, minimizá-las ou inibi-las: todas são ditas surfando na onda de indignação de gente manipulável e fragilizada diante da situação de crise em que vivemos. Um manipulador com o carisma de catalizar a indignação coletiva, mas com um total vácuo de efetividade e nenhum traço racional.

Os Cidadãos de Bem

Mas tentemos entender mais a fundo as pessoas que votam nesse “cidadão de bem” chamado Jair Messias Bolsonaro. Dois fatos ilustrativos e tenebrosos talvez possam nos dar um norte nesse breve ensaio. Um deles se refere a dois candidatos do PSL (partido de Bolsonaro) ostentando uma placa de rua com o nome de Marielle Franco quebrada.

O candidato ao Senado pelo PSL, filho de Bolsonaro, Flávio, saiu em defesa dos protagonistas desse fato alegando se tratar de um restabelecimento da ordem pública, já que a placa teria sido colocada em cima da placa oficial da Praça Floriano, na Cinelândia, Rio de Janeiro. A campanha de ambos inclui, entre outras coisas, a missão de “combater com força o PSOL e suas pautas repugnantes”, tendo ambos mostrado ao que vieram, não só pela retirada da placa em si — seja lá pelos motivos que alegam — mas pela forma ostensiva como quebraram e mostraram em seus perfis do Facebook.

Como disse um dos maiores especialistas em segurança pública no país, o antropólogo Luiz Eduardo Soares em áudio compartilhado no Whatsapp

…os dois homens se vangloriam como quem levanta um troféu. Em fazendo [isso] transmitem uma mensagem mais profunda do que, provavelmente, supõem: ao quebrar a placa, que celebra a memória da vítima do mais horrendo dos crimes, o mais vil, o mais bárbaro, os dois saúdam a morte. A morte no sentido grego clássico. A morte como condenação ao esquecimento eterno. Por isso, em sua coreografia patética, capturada pela foto, assassinam Marielle pela segunda vez. Evocam sua memória para negá-la. (…) Isso se chama profanação e promove a segunda morte de Marielle.

Outro fato, também citado no áudio, refere-se ao episódio ocorrido em São Paulo, quando torcedores do Palmeiras citaram Bolsonaro em palavras de ordem contra homossexuais: “Ô bicharada, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado!” — O vídeo, viralizado nas redes sociais, foi gravado na estação de metrô da Praça da Sé e foi compartilhado mais de 10 mil vezes com mais de 4 mil comentários (até a escrita desse texto).

Esses, nem de longe, caracterizam-se como fatos isolados. Demonstram mais do que uma adesão indignada contra algo, mas uma adesão por afinidade a algo que sempre existiu e que fora, possivelmente, reprimido por algum tempo na dinâmica da sociedade brasileira. Fazem coro com frases do tipo “…esse aqui é para metralhar petralhas” que seu ídolo proferiu em um de seus comícios. A cultura da morte, do ódio, da eliminação daqueles que lhes são estranhos, desviantes ou meramente diferentes é uma tônica reacionária clássica, movida, sobretudo, pelo medo, pelo terrorismo psicológico que, diuturnamente, essas pessoas assistem e reproduzem através da igreja, mídia e, mais do que nunca, através de políticos demagogos em busca de poder.

Em meu trabalho de TCC na graduação em Filosofia, meu artigo se chamava Prolegômenos para uma Fenomenologia da Desrazão, um pretensioso ensaio para tentar entender o avanço da direita trazida pelos think tanks estadunidenses e sua junção, aqui no Brasil, com o mais retrógrado conservadorismo com o ideário ultraliberal. Nele, tateio algumas razões pelas quais emerge esse Homem Normal (ou normatizado) que se auto-intitula Cidadão de Bem. Faço também uma análise histórica da construção da subjetividade humana a partir do iluminismo e caracterizo como a razão se deu como desrazão quando irrompe a modernidade, o liberalismo econômico, a razão instrumental, a burocracia do industrialismo e a alienação.

Toda a estrutura que molda e nos socializa por meio do que Habermas veio a chamar de “colonização do mundo da vida”, serve como estofo para a emergência desse “homem normal”. À época, o caracterizei da seguinte forma:

Os críticos da modernidade em geral definem o ser humano atual a partir da emergência histórica de um ser desorientado, sem fé (o que não significa sem religião), mas desorientado existencialmente para sua autoconstrução. Na emergência desse ser, dificilmente na alternativa dada por Habermas em seu conceito de Razão Comunicativa haveria alternativas racionais para sairmos da situação civilizatória em que estamos. A questão é que os críticos da modernidade, os quais Habermas dirige seu contraponto, postulam uma desorientação quando, na verdade, há uma orientação sistemática e dirigida, institucional e pedagógica para uma existência enfurnada na e para a legitimação metafísica de um sistema que nunca foi de produção, mas de acumulação privada da produção social.

(…)

Realidades objetivas, formas de pensar, agir e falar são faces de um mesmo corpo social indissociável cujas mudanças possíveis jamais serão isoladas. Mais do que uma relação dialética entre eles há uma relação complexa de retroalimentação constante, mas cuja emergência de novas características é aleatória, imprevisível e indeterminada. Uma sociedade que, ao invés de desorientada pelo sistema (como acreditam), na verdade é orientada e coercitivamente determinada para servi-lo em todos os seus aspectos, sofre de uma rigidez quase intransponível (e vemos seu recrudescimento a cada década), mesmo ela própria estando em crise. Afinal, a própria crise já se incorporou no modus operandis do sistema e não altera substancialmente o “homem normal”, conservador e eventualmente reacionário.

Esse Homem Normal não tem nada de desorientado como querem entende-lo. Ele é sistematicamente orientado desde seu nascimento ao receber um ‘kit’ básico de verdades, valores e tendo seu comportamento legitimado por seu tempo e pela coletividade a que pertence. Os axiomas que regulam sua existência, seus juízos morais, sua noção de bem e de mal são reforçadas pelo sentimento de pertencimento e pela discriminação compulsória de todo aquele que não se encaixa nesses axiomas; tidos como anormais. Seus problemas existenciais estão reduzidos às dimensões práticas que reforcem ou não seu modo de vida, cujo norte é o favorecimento ou não do grande sistema metafísico a que pertence e que ele tem como único refúgio para sua autoconservação e possibilidade de sucesso. Sua crença acrítica na chamada ‘meritocracia’ e a atribuição ideológica de que todo aquele que critica seu modo de vida é incompetente ou preguiçoso, lhe dão a segurança necessária para legitimar cada vez mais seu preconceito e seu comportamento discriminatório com todos os tipos de minorias. Não é possível afirmar uma razão comunicativa, pois há uma rejeição sumária ou desconhecimento de qualquer outro campo linguístico ou semântico que não seja reforço daquilo que redunda na sua autoconservação. O Homem Normal é um homem colonizado e totalmente subsumido pelo sistema, totalmente alienado de si e do outro que não seja seu espelho. Diante da angústia ou da incerteza, do tédio e do vazio, da rejeição ou desemprego, enfim, na iminência de constatar sua inutilidade ao sistema, recorre aos vícios, se droga, se fanatiza na religião ou se radicaliza em causas contra tudo o que acredita que fez mudar seu modo de vida, jamais culpando ao sistema ou a si mesmo. Esse Homem Normal jamais luta para mudanças, luta para conservar o que tem ou reagir ao que pensa ter perdido: tudo o que pensa ser seu por direito e/ou mérito. Ele se pauta pela falta, pela conservação e, por isso reage e nunca se expande, nunca transborda, apenas explode. Esse homem, embora possa estar proletarizado, oscila entre a apatia, autodestruição ou, não raro, desenvolvendo elementos característicos do fascismo; tendo matado em si qualquer resquício revolucionário autêntico obliterado por sua racionalidade subjetiva e instrumental: a Desrazão Moderna.

Ainda não vejo outra forma de entender e caracterizar a existência de simpatizantes do Bolsonaro. O problema é que eles agora, depois de um breve período em que se envergonhavam dessa tosquice, explode sem controle algum em franca possibilidade de confrontos e repressões. A eleição deste homem como presidente de uma nação faz arrepiar todo aquele que conseguiu ao longo dos anos colocar minimamente parte da cabeça para fora do telhado que sela nossa imersão e socialização dentro desse grande sistema. Não há, como podemos ser levados a pensar, nada em comum entre uma figura como Bolsonaro e seus correligionários e eleitores, a não ser o sonho de se dar bem como ele enganando tanta gente. O eleitor do Bolsonaro, antes de tudo, parece ser um frustrado, um invejoso de seu líder, espelhando suas atitudes e formas de pensar porque reforçam sua necessidade de auto-conservação insana. Ao menos aqueles que acreditam se identificar com ele, mas que são sinceros, hão de perceber que ele é uma farsa, um hipócrita abjeto que está usando a indignação (justa ou não) da população para continuar se dando bem. Seu choro, sua raiva constante ou mesmo o “coitadismo” que demonstrou diante das câmeras após o atentado que sofreu é uma grande peça de teatro para cegar ainda mais a massa de manobra que pode levá-lo a ser presidente do país.

Categorias:Maquiavel

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *