O quanto da vida a gente não perde no esforço de tentar ter controle sobre coisas que graças a Deus nos escapam?

Acabei participando, assim meio sem querer, de uma experiência extraordinária.

Estava trabalhando na biblioteca do Sesc Pompeia, aquele local maravilhoso, sem tomadas, com cadeiras desconfortáveis, crianças gritando pra todo lado, velhinhos puxando assunto pelos cantos e também, eventualmente, se você for uma pessoa de bastante sorte, barulho de obras e manutenção aqui e acolá. Por que mesmo eu estava naquele lugar?

Em parte porque às vezes é preciso atenuar a solidão do trabalho intelectual com a companhia leve da multidão de anônimos. E, nesse caso, em parte também pela memória afetiva do local, aonde minha falecida avó costumava me levar nas nossas muitas andanças por aí em minha infância e parte da adolescência.

Estava quase saindo quando fui abordado por um membro da equipe do projeto Biblioteca de Dança, que reúne dançarinos como “livros vivos” para contar histórias curtas relativas à dança. Ele me apresentou o projeto, era só eu me dirigir a uma das mesas com um desses “livros”, ouvir o sumário e escolher um capítulo.

“Que brisa, fuja, corra, agora, um, dois, três, vai”, disparou mentalmente minha consciência cética e rabugenta. Sentei a um canto, para ganhar tempo e me convencer de que, estando ali, valia a pena perder alguns minutos nem que fosse pela experiência etnográfica ou para ter algo de que reclamar depois quando encontrasse alguém.

Escolhi de longe o meu “livro” pela capa: a pessoa que parecia mais sóbria, evidentemente. No caso, era a bailarina Cláudia, que me apresentou as suas opções. Escolhi “Ela pode falar”, decidindo assim, sem me dar conta, inspirado pela Gayatri Chakravorty Spivak e o seu debate teórico sobre quem pode ou não falar. Com música no celular, performance e narrativa, a história conta a experiência de Cláudia com uma peça que, mesmo considerada cafona por ela depois de madura, ainda lhe significava alguma coisa, e com o tempo ela entenderia por quê: foi a primeira vez em que viu um bailarino falando. No caso, declamando um poema de Fernando Pessoa.

Ela então se deu conta de que bailarinos, como ela, podiam falar! E ela incorporou essa lição em seu próprio trabalho, ainda que tenha se dado conta da influência somente anos depois. Eu ouvia e observava tudo atentamente, sem saber ao certo como reagir e, como é praxe nesses casos, agindo de maneira discreta, facultando com isso ao observador interpretar os meus gestos como lhe conviesse, os olhares quase dizendo alguma coisa, os aceno de cabeça quase concordando ou incentivando. Ou não, também, sem problemas.

Ao final, ela me perguntou se eu já tinha passado por uma experiência como aquela, de não saber que podia falar em determinada circunstância. Eu, que sento no fundo dos espetáculos desde que quebraram a tal da quarta parede, pelo medo aterrador da famigerada interação do público com a plateia, respirei fundo, assustado. E concentrei todas as minhas energias em disfarçar a surpresa, em demonstrar controle da situação. Devo ter me saído bem até, com alguma resposta mais ou menos segura, mas que não dizia na verdade lá muita coisa.

Com isso, deixei escapar o mais importante: que uma experiência análoga a da história contada tinha acabado de acontecer, ali, bem debaixo do meu nariz. E uma resposta desarmada para Cláudia poderia ter sido: sim, agora, eu não sabia que um “leitor” da sua história podia falar durante ela!

Isso tudo, é claro, eu percebi apenas quando já estava longe do perigo. E então vim embora angustiado: o quanto da vida a gente não perde no esforço compreensível mas vão de tentar ou aparentar ter controle sobre coisas que graças a Deus nos escapam e transcendem?

Se é verdade que um dos papéis da arte digna desse nome é causar estranhamento com a realidade e fazer pensar sobre ela, o projeto está de parabéns. Obrigado, Cláudia! E desculpa qualquer coisa.

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