Palavras como pedradas. É que Vera Cubas já sabe que “dentro das pedras se evaporam os ângulos”

O primeiro livro de Rodrigo Vera Cubas (Lima, 1987) se chama Acajo mundo e foi editado pelo selo La Crema no ano passado (2015). Em seus poemas, as palavras, como a trajetória dos átomos que calculou Lucrécio, se desviam do ponto de fuga que esconjuram os olhos do bom deus da ordem. “A lâmina do horizonte está gasta”, reclama o poeta, quase aos gritos, e se atenta. Assim, prescinde do favor desse deus, deixa claro: muito obrigado, mas não nos faz falta.

Esse desvio, contudo, não se relaciona à matéria infinitesimal espontânea, mas apenas à estratégia. Obcecada, de fato: dir-se-á que Vera Cubas está resoluto em desorientar-nos e a apresentar de repente uma centelha de sentido legível. Como se nós, os leitores, correndo em disparada pelo bosque frondoso de sua poesia, fôssemos golpeados na cara por um ramo baixo sem prévio aviso, obrigando a nos deter. Assim, encontramos linhas como: “Coisas tão estúpidas me dizia / Que não tive tempo de corrigi-las / Mas tive razão”.

“Que é o que sonha, senão o piano escuro / Do que quase sonha?” A poesia é aqui de uma música e uma velocidade próprias, ademais de uma mão estendida sem titubear, feita a tradição dessa liberdade total a que fazem parte poetas como Mallarmé e Vallejo. Palavras como pedradas. É que Vera Cubas já sabe que “dentro das pedras se evaporam os ângulos”.

Valeria Tentoni

 

A PEDRA ESPALHA SEU AROMA DE CAMPO ENTRE AS NUVENS

É a miasma do céu que antecede o desastre
Debaixo há sangue
Estepe remota escapa
Acima a hélice
Em trêmula brisa
Desconjunta o tendão do movimento
Sou um espiralado
Golpeio
Dentro das pedras se evaporam os ângulos
Não há água
Fora o trator se acende
Há sangue
A lâmina do horizonte está gasta
O verme que se eleva
A águia se arrasta
Nada tem se movido
Tudo segue igual
Paisagem exata
Pedra perde pélago
Perde pedra
Sangre verme
O tambor é frio
O aroma é outro

 

O RUÍDO GERMINAL DAS REDONDEZAS

Gemido quieto nos interstícios
Do monte oculto
É a engrenagem oxidada
De que na noite se ajusta?
A neblina morta entre as correntes fluviais?
O carvalho que cai e desafina
O que serpenteia na folhagem?
O eco do que em outro monte cala?
O que é o que sonha, senão o piano escuro
Do que quase sonha?
Aqui há um mundo com franjas de inaudível trama
Mas eu cheguei ao monte
Mas cheguei para falar

 

PERTO

O osso peludo do silêncio
O peso me encorpa o peso
Me encorpa
E lagarta fugaz o movimento
Me dissolvo nu ao falar
Esse caldo vocal
Fumegante
Me encorpa
Não me exprime ainda
Faz de mim um trapo molhado
Uma praia de baba
Onde se encorpa a marulha
E a maré esculpida em ponta
Não roça
Não arranha
Não molha
Essa grandíssima cúpula de alento
Em cuja água
Eu me parto
E em cujo ferro
Me algaroba entre a gengiva
E o eco hipotético do dente
Me compadeço ….. depois….. sagrado
Vomito em tardes Odes
Filhotes de pomba
Alimária
Óxidos Pigmentos
Amarelos
Espessuras de abdômen
Que encorpam a paisagem
Me contaminam-no, deformam-no sem asco
Sem clemência
[Aqui é onde uso gases para tampar alguns buracos]
Aqui é onde arranco a parte epidérmica do calo
E digo: ossos!
Fico com os ossos
Fico Com
O ossamento do murmúrio em sua cúpula quente
E o embrião calcificado desta voz
Em cujo centro
O farelhão reluz e cai
E
cai
Ante esta amídala sã
Que agora se comove
Mas logo masca alegre
Sua imundice

 

DO LADO DA LUZ A CABEÇA ENCLINADA

Que pouco o corpo
Que corpo toco
Que sexo ousado
Que músculo fatigado
Que pelo desajustado
Que carne flutuante
Que mudo beijo
Que pena engraxada
De que me endureço
Em que me aro
No que me agacho
Em que me limpo e no que me encravo
De que me cabeceio
Ao que é meu negócio
Ao que estou feito
A quem me vivo
Por que eu caio
De que meu lado vai de frente
Por que minha cara está para baixo
De
Quer dizer ….. te perco
Do lado da luz a cabeça inclinada
Eu te dei tudo
Eu te dou quase
Eu te dei o suficiente
Funil exato

 

ESTA É A BÁSCULA MECÂNICA

Que se estende na cauda do fundo
A nove mil léguas terrestres
Por baixo do que alguns pisam [inexoravelmente]
Quer dizer um gato doméstico entre seres cotidianos e outras coisas medianas
Um bebê delicado
Um cravo de cheiro
Um papelzinho de borracha
Ou a erva micótica que cresce horrenda em superfícies brandas
Esta é a báscula eletrônica em cujas molas elásticas
Se calibra o peso da aranha
Se modifica a velocidade da chuva
Se impulsiona o motor dos tremores
E os montes serranos coagulam resplandecentes
Ao pé de uma tecnologia parecida com um gânglio
Esta é a báscula que mede as pessoas úmidas
Pelo seu peso
E pesa as pessoas secas
Pelo seu choro
[A matriz de aço que se inunda
É também a que gravita
E se esfuma terna e fugaz ante o Amplo
Só a velocidade eclipsa o fio obeso da técnica
[Que descende aqui sobre seu olho]
Só a velocidade oculta
Motores ….. gânglios
Chuva
Solidão
Esta é a báscula que empoça o colapso

 

Publicação Original

Clinamen é um projeto de divulgação da produção poética contemporânea, criado por Manuel Ramos Van Dick e Victor Vimos. Capitu é parceira dessa iniciativa.

Tradução

Adriana Silva é mestre em literatura hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP), com estância na Universidad Nacional Autónoma de México. Escreve.

Monica Marques é poeta e formada em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2016 publicou Transversais pela Editora Patuá. Tem poemas publicados em diversas revistas literárias. Escreve em blog Instante Inacabado e no facebook. É parte da comissão editorial da revista Maquiavel e participa do Coletivo Não Lugar.

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