Cultura

Américo Sommerman, da Polar

Trouxeste a Chave? é uma série que reúne depoimentos de editores sobre o seu ofício e sobre como escolhem os bons autores. Desta vez, falamos com Américo Sommerman, da Polar Editorial, doutor em difusão do conhecimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em ciências da educação pela Universidade Nova de Lisboa e graduado em filosofia pelo Centro Universitário Estácio Uniseb.

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Um dos livros publicados pela Polar

Criei a Polar em 1996 justamente para influir de maneira decisiva na cultura brasileira, e é somente por esse motivo que ela continua viva depois de 20 anos de existência. A criação da editora se deveu à percepção de que uma das grandes carências da cultura brasileira era a de determinados grandes textos que estão no cerne das nossas principais raízes culturais.

Como desde o fim da adolescência eu me voltara para o diálogo com os grandes textos das tradições de sabedoria do Oriente e do Ocidente, dei-me conta de que a grande parte dos maiores textos das tradições espirituais do Ocidente continuavam inéditos em língua portuguesa. Já havia naquele momento várias editoras dedicadas à publicação de obras importantes das sabedorias orientais, mas nenhuma dedicada a trazer para a nossa língua os tesouros da literatura espiritual do Ocidente.

Decidi, então, abrir uma editora, a Polar, cuja missão seria preencher essa grave e inacreditável lacuna e assim influir decisivamente na cultura brasileira, ajudando-a a reencontrar as melhores e mais profundas referências de suas próprias raízes espirituais.

No fim da década de 1980 descobri que a obra máxima da tradição mística judaica, o Sêfer ha-Zôhar (o Livro do Esplendor), escrita em aramaico no século XIII, existia em inglês, francês e espanhol, mas ainda não em português! Logo em seguida, encontrei em inglês e francês as obras do grande metafísico e visionário alemão do século XVII Jacob Boehme, autor que teve enorme impacto sobre todo o romantismo alemão e sobre a filosofia alemã posterior (Hegel, Schelling, Leibniz, Schopenhauer) e que esteve no cerne das mais profundas correntes de espiritualidade cristã não confessional e não sectária dos séculos XVII, XVIII e XIX. Suas obras também eram totalmente inéditas em nossa língua. Alguns anos mais tarde, no final da década de 1990, descobri outro tesouro da alta cultura espiritual do Ocidente que ainda era inédito no Brasil: os Tratados das Enéadas de Plotino, grande neoplatônico do século III. Fique espantado em descobrir a importância que os 54 tratados escritos por Plotino tinham tido desde o seu surgimento até o final do século XVII. Em minhas pesquisas sobre esse grande filósofo eu soube que ele teve uma influência imensa sobre toda a teologia cristã do Oriente e do Ocidente, sobre muitos dos filósofos místicos judeus da Idade Média e sobre quase toda a mística muçulmana!

Estas passaram a ser algumas das publicações prioritárias da Polar.

Nunca deixei de me espantar ao constatar que obras deste porte tinham permanecido inéditas por tantos séculos na língua portuguesa. E sempre me vinha a exclamação: “Que país é este que não pode sequer ter acesso a seus mais profundos fundamentos culturais! Que país é este que não pode sequer se confrontar com tais tesouros! Claramente só poderia ser até então uma cultura capenga…”. No entanto, passados 20 anos de existência da editora isto já não é assim! Ao longo destas duas décadas felizmente pudemos preencher uma parte importante dessas tremendas lacunas.

Portanto, os critérios são: importância histórica, ineditismo e pertencer a uma das grandes tradições espirituais que fazem parte das nossas raízes culturais. Foi a partir deles que publicamos, por exemplo, dois tratados do Pseudo-Dionísio Areopagita (século VI), um trabalho de Jan Van Ruysbroeck (século XII) e, mais recentemente, uma obra que resgata os cânticos fundadores da tradição tupi-guarani: O Trovão e o Vento, de Kaká Werá.

Custo Brasil e Esperança

Um dos problemas da atividade editorial no Brasil é a porcentagem do preço final que fica para as livrarias: 40 ou 50% do preço de capa do livro! Isso torna a sobrevivência das editoras no Brasil muito difícil, exceto aquelas que publicam livros didáticos ou livros voltados para grandes públicos. Não julgo as livrarias. Os custos delas também são muito elevados. O chamado “custo Brasil” é muito elevado para todos, exceto para corruptos, corruptores e para as grandes corporações. A sobrevivência é quase impossível para o pequeno e médio empreendedor que quer fazer um trabalho honesto e de qualidade. Mas tenho esperança de que isso mude. E há sinais de que está mudando.

 

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