O professor Christian Godoi desmascara um inimigo ardiloso: a violência que a gente vivencia e pratica, mas não percebe, porque não machuca


imagem: Luiz Fernando Reis

O professor do curso de Publicidade & Propaganda da Universidade Santa Cecília, Christian Godoi, acaba de publicar Os Sentidos da Violência – TV, Celular e Novas Mídias (Realejo Livros), uma reunião de nove ensaios que tratam de um inimigo sutil — um lobo em pele de cordeiro.

Godoi aborda no livro assuntos que, de cara, podem parecer muito diferentes uns dos outros — do terrorismo ao rap, dos policiais à mídia, dos celulares ao Orkut. O autor examina os vários tipos de violência para tratar da variedade que considera mais nociva: a violência simbólica. ‘Esta violência é aquela que a gente vivencia, pratica constantemente e é vitimado por ela o tempo todo, mas não percebe, porque ela não machuca’, diz.

Na visão de Godoi, a violência simbólica é recíproca e freqüente. Tanto para terroristas — que são excluídos da sociedade e por isso reagem — quanto para policiais que só devem se mostrar como irretocáveis cumpridores da lei e nunca como gente normal que tem medo e que falha. Esse tipo de violência atinge ainda o indivíduo que pensa que para se encaixar na sociedade precisa ter esse ou aquele aparelho eletrônico e também o que compra um celular e não consegue se desligar do trabalho.

Mestrando da Universidade de São Paulo (USP) e ex-punk, Godoi diz que não lê e-mails nos fins de semana e não atende o celular a qualquer hora. Olhar para essas questões e procurar entender a violência que há nelas é o seu método de trabalho.

A mensagem inscrita nos conflitos

‘Antigamente eu andava com a moçada e sempre tinha briga, aquilo de querer ser mais do que outro. Isso sempre me interessou’, conta Godoi. Imagine-se a cena: rapazes de moicano e jaquetas de couro se digladiavam nas proximidades do Canal 7, em Santos. Para um dos integrantes do grupo, o próprio Godoi, o que importava no conflito era o contexto que o gerava. ‘Na época eu não tinha ainda a sensibilidade para perceber, para tratar da violência simbólica, que é a que hoje me interessa mais’.

No início do mestrado na USP, Christian Godoi resolveu tratar do terrorismo, tema dominante entre 2001 e 2004 (em 11 de setembro de 2001, ocorreram os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, nos Estados Unidos, com cerca de três mil mortos; em 11 de março de 2004, houve o atentado à bomba na rede ferroviária de Madrid, em que morreram 191 pessoas e mais de 1 700 ficaram feridas). Foi em Jacques Lacan (psicanalista francês 1901—1981) que ele descobriu dois conceitos-chave para os assuntos que queria estudar: a idéia de sujeito e de objeto, duas palavras que parecem mais complicadas do que de fato são. Sujeito é a situação de alguém que tem autonomia, que decide todos os aspectos de sua vida. Objeto, ou objetivado, é o contrário: quem se deixa levar por idéias que não as suas.

A partir daí o autor começou a fazer uma série de perguntas incômodas para a sociedade contemporânea: quais os motivos dos terroristas? Por que se jogam nesses ataques? Temos alguma culpa nesse processo? O Primeiro Comando da Capital, o PCC, quais são as razões de existir? Que tipo de pressão sofrem os policiais e ninguém percebe? Com a teoria na mão, a análise abrange, no livro — o rap do Racionais MCs o filme Tropa de Elite, a invasão da reitoria da USP (protesto dos alunos em maio de 2007) e as manifestações dos sem-terra. Godoi propõe outro jeito de pensar tudo isso.

O papel que esmaga, violenta

Para entender a violência simbólica, há três textos no livro que são essenciais. Em um artigo, Godoi analisa a imagem do policial na mídia; em outros dois, o clipe da música “Vida Loka II”, do Racionais MCs, e os celulares. Os três são complementares porque, na verdade, tratam dos meios que a gente usa para se incluir num grupo, numa sociedade.

No primeiro texto, a idéia que importa é a dos papéis. Como se tudo se tratasse de uma peça de teatro gigantesca, nós todos cumprimos papéis. O que quer dizer que nós assumimos uma posição — por exemplo, de pai de família, de funcionário de loja — e sabemos o que se espera que a gente faça nessa posição. Desse jeito: se espera de um jornalista que esteja bem informado sobre todos os assuntos correndo na mídia. O jornalista, então, se esfalfa entre vinte jornais para cumprir seu papel. De um vereador, espera-se que esteja sempre disponível para ouvir e sempre atento aos problemas. Como se vê, são vários os papéis que cumprimos. A violência ocorre quando um desses papéis exige todo nosso tempo, se torna nosso único meio de expressão. O personagem daquela peça de teatro descomunal assume o controle, e a gente só observa de longe.

Para Godoi, é mais ou menos o que ocorre com os policiais. O que a mídia e o que nós fazemos com os policiais, na verdade. O policial nunca se mostra como é, ‘com filhos, esposa e mãe’, escreve o professor, e, principalmente, ‘com esperanças num sucesso que não virá’. A polícia, em qualquer situação, é tratada como o lado negro, até quando faz o que lhe pagam para fazer. Segundo Godoi, xingam os soldados ‘no rock, no rap, no funk, no punk. Em jogos de futebol, aparece como um retrato do mal’. E em qualquer entrevista, o assunto questionado e o depoimento não fogem do estrito relato do que aconteceu. O papel dessas pessoas é serem policiais, elas não teriam nenhum outro modo de expressão. A obrigação é opressiva: ‘ele esquece sua própria existência, passa a se enxergar enquanto corporação’, diz Godoi.

Enquanto isso, os criminosos são nossos heróis. Em Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentarista que também produziu Entreatos e Santiago, Godoi mostra esse cenário: de um lado, o policial falando apenas da sua atividade; do outro, o bandido, apresentado com glamour e desenvoltura. No filme, um integrante do Batalhão de Operações Especiais, o Bope, afirma: ‘A família nem pergunta mais como foi o dia’ — o que, para Godoi, serve de resumo para a solidão, o dilema policial. Tropa de Elite, de José Padilha, explora os temas que Notícias deixa de fora: a vida íntima do capitão, suas contradições, a pressão sobre o comando.

Será que essa pressão, essa violência individualidade pode ser uma das causas de episódios como o do Morro da Providência, em que soldados do Exército entregaram jovens a um grupo de traficantes inimigo, o que significa dizer, para a morte certa? Pode ser causa do descontrole que levou um grupo de policiais a atirar violentamente contra um carro e assassinar o menino José Roberto Amaral, de três anos, também no Rio de Janeiro? Segundo Godoi: ‘Não é justificativa para esses crimes, mas é uma explicação’.

Pertenço porque tenho; sou gente porque posso comprar

‘Tá vendo isso aqui? Cê nunca vai ter um desses’, dizem uns bandidos do clipe da música “Vida Loka II’, do Racionais MCs, para um grupo de crianças, querendo impressioná-los com tênis All-Star novos. De acordo com Godoi, a situação demonstra outro modo de se incluir em um grupo. O que os bandidos estavam dizendo e o que as crianças aprendiam? Que o modo de ser aceito era possuir certo produto. Não porque seja algo produzido pela sua comunidade, mas porque a sociedade rica tem — é uma questão de status que não se aplica só à periferia.

Se entendem que só podem ser alguém se possuírem um produto, é natural que o desejem. É um jeito de se realizar. No primeiro ensaio do livro, Godoi explora como as novas mídias, em especial o celular, é um instrumento causador de desigualdade — criador de excluídos digitais — e por essas razões e ainda outras, dono de um grande poder de violência simbólica. A realização seria trocar aparelho novo por aparelho mais novo, e assim por diante, mesmo que não se precise de tudo o que um celular de última geração faz, mesmo que o velho funcione bem. Os novos sistemas de relacionamento na internet também vão engolindo o tempo das pessoas cada vez mais.

Christian Godoi troca o seu artigo em miúdos com uma frase: ‘Eu não tenho Orkut e por isso é como se eu fosse um nada no mundo. E não tenho, nem vou ter’. Por pouco não é a nova mídia que é utilizada, mas o usuário que se perde nela. ‘Com o celular, acabamos trabalhando o tempo inteiro, não nos desligamos nunca do trabalho. Já reclamaram porque eu não tinha atendido o celular às onze horas da noite. Não atendo. Desligo. Reclamaram no trabalho que eu não tinha visto um e-mail no fim de semana — claro que não! Não vou trabalhar nos fins de semana também’.

O terrorismo é um direito?

São dois os termos principais para entender como somos violentados nessa tentativa de fazer parte de um grupo — ou cumprindo um papel ou tentando alcançar um ideal de status. Guarde na cabeça: ‘pertencimento’ e ‘inclusão’. Pertencimento é quando fazemos mesmo parte do bando, temos autonomia, temos direito de opinar e não somos apenas influenciados. Inclusão é a forma cosmética do anterior. Se for seguir a aquela metáfora do grande teatro, o indivíduo faz parte do conjunto, mas só como um figurante. Sem direito à voz ou opinião, sendo determinado por escolhas que não são as dele. Eis a situação do terrorista, segundo Godoi. Na contracapa do livro, há uma questão: ‘o terrorista é o único culpado pelo terror?’. Qual a sua resposta?

Essa provocação remete a uma frase do grupo de rap Public Enemy. Alguém diz ao vocalista: ‘você é hostil’, ao que ele responde: ‘Eu tenho o direito de ser hostil, cara, o meu povo tem sido perseguido’. É como Godoi diz — a ‘nação democrática’, salvo engano, a nossa — ‘permite que se ignore partes dela que precisam de amparo e as partes que começam a achar injusto esse mundo que vivem’. Em pelo menos três situações recentes, grupos se consideraram sem atenção e usaram de atos mais ou menos extremos para ganhar visibilidade.

A primeira delas, os ataques do PCC em maio de 2006 em São Paulo formaram a ‘sensação de perigo iminente em um Estado com mais de 40 milhões de habitantes e com cerca de 200 mil policiais’. O grupo criminoso fez uso da mídia, estimulou-a com informações falsas e criou uma rede de medo que paralisou os paulistanos. O surgimento do PCC se liga diretamente com as más condições dos presídios, entre superlotação, abusos realizados pelas autoridades, doenças e injustiça jurídica. Aí uma explicação para o fenômeno: o grupo se pensa sem lugar na sociedade, se organiza e produz uma violência que sabe errada, para chamar a atenção sobre si. Como diz Godoi, não é justificativa, mas explicação.

No caso da reitoria da USP, os estudantes tinham uma série de reivindicações; ‘o modo de ação foi, no âmbito da mídia, bem sucedido, e serviu de exemplo para outras manifestações posteriores’, diz Godoi. Outro caso, duas manifestações dos sem-terra, recebe tratamento particular. Tratando da invasão ocorrida no Congresso Nacional, em junho de 2006, feita pelo Movimento de Libertação dos Sem Terra, diz que foi um rompante não-planejado, não se configurando como forma de protesto. No entanto, a destruição de dois hectares de soja transgênica da multinacional Monsanto, em ato promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, é outra história. Por trás da ação havia motivos que a mídia não destacou, de acordo com Godoi. ‘A acusação de João Pedro Stédile [presidente do MST] de que a multinacional vendia suas mudas transgênicas [o que é ilegal], não foi considerada a sério’.

O terrorismo, então, é um direito? Não é isso que o livro diz. A questão está em outro nível. ‘O terrorismo é um grito’, argumenta o professor.

Sujeito, objeto

A violência simbólica, em todos os casos, pode ser entendida por meio daqueles conceitos explicados lá no início: o sujeito e o objeto. Os muitos grupos — policiais ou terroristas, alunos da USP ou sem-terra — querem autonomia e a voz dentro do grupo. As pessoas comuns — eu e você — também. Somos cada vez mais sujeitos enquanto nós temos esse poder de decisão nas mãos, e cada vez mais objetos, ou objetivados, quando a decisão passa por outra pessoa, por um grupo maior, ou pela obrigação de comprar um telefone celular e ter mil amigos em um site de relacionamento.

Apesar de essas discussões serem o grosso do livro, passamos ainda por outros assuntos. Há ensaios sobre a televisão que se choca com o que se diz dessa mídia: a TV não teria nenhum poder de controlar seu público. Os telespectadores, de acordo com Godoi, fazem o que querem com os programas, lidam com eles com cinismo, tomando o que querem, quando querem. Há um estudo das novelas, tratando-as como formadores do imaginário popular. Trata também do corpo, dos esportes, do prazer. Com mais uma palavra complicada para explicar essa atitude de ir de um tema a outro, Godoi chama o que faz de flanar. Flanar nada mais é do que passear sem destino, costume que alguns franceses criaram e que o brasileiro João do Rio praticava no início do século XX.

‘O que se quis com essas reflexões foi apenas fazer uma flanerie, um flanar por assuntos tão presentes na atualidade, parar em frente a eles, tentar não excluí-los do círculo de debates’, escreve Godoi. ‘A flanerie foi a melhor metáfora encontrada por haver nessa idéia o descompromisso da chegada. Nela, se chega apenas quando se quer. Assim devem ser as reflexões’.

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