“Um embate entre corpo, ética e algoritmo. Essa é minha cachaça”

Este artigo faz parte da série Da Pesquisa Brasileira, sobre quem cria conhecimento no Brasil
imagem: performance Não alimente os animais, foto de Camilla Loreta

Jaqueline Vasconcellos é atriz, performer, gestora, articuladora cultural — e pesquisadora, doutora em meios e processos audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP), com a tese Intersecções entre Arte | Audiovisual | Emancipação: Vimos dizer um discurso!, e mestre em dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com a dissertação Configurações contra-hegemônicas para modos de difusão de dança e videodança na América Latina: Perspectivas em Movimento.org. Para a Úrsula, ela comentou os temas e projetos que a movem hoje, os quais enfocam práticas transformadoras no âmbito das tecnologias de informação e comunicação, operando com o conceito, desenvolvido em seu doutorado, de comunidades intencionais. As ênfases do trabalho de Jaqueline estão na necessidade de uma postura crítica frente ao mundo computacional — “Temos a ilusão de sermos sujeitos ativos em nossas escolhas. O paradigma digital tem provado que isso é uma ilusão.” — e em fortalecer os sujeitos inscritos nas lutas sociais do nosso presente: “Eu invisto meu tempo, pesquisa e militância em tornar discursos visíveis; muitos agentes sociais importantes estão na invisibilidade”. Saiba mais no seu site e no seu currículo Lattes.

O cerne da minha investigação: como criar utopias intencionais, reafirmando discursos, usando os próprios algoritmos dessas plataformas controladas por conglomerados comunicacionais

Quais seus interesses atuais, o que te levou a eles e o que pretende realizar?

Meus atuais interesses em pesquisa acadêmica giram em torno do conceito e da prática do afrofuturismo.

Comumente, o afrofuturismo é entendido dentro do espectro da ficção científica — por isso, a importância dos quadrinhos no estabelecimento de utopias possíveis para a comunidade negra no mundo (tanto em África como na afrodiáspora).

Já eu pesquiso o afrofuturismo sob a perspectiva do uso das tecnologias digitais de informação e comunicação, em especial as que utilizam redes sociais digitais — enquanto plataformas usadas para uma mudança de paradigma na sociedade de uma maneira mais geral, em especial no que se refere ao racismo estrutural.

O que me levou a essa investigação foi identificar o engajamento e a expansão de determinados materiais dispostos no YouTube que configuram discursos (narrativas ou produções artísticas) de mulheres negras, no que defino como comunidades intencionais.

Desenvolvi o conceito de comunidades intencionais durante o doutorado. Ele descreve um agrupamento de pessoas que se reúne em rede, em ambientes digitais, para propagar determinadas informações. A principal característica de uma comunidade intencional é sua heterogeneidade — por isso, mesmo que alguma delas possa, por exemplo, ser formada apenas por integrantes da comunidade negra brasileira (considerando aqui negros retintos e mestiços que se autodeclaram negros), esse termo não deve ser confundido com o conceito de quilombismo, pois outros agentes, de outras identidades culturais, podem ser interlocutores de uma comunidade intencional e agirem em ambientes digitais a seu favor, tornando visíveis materiais, ideias e novos paradigmas diante de problemas sociais que precisam de resolução, tais quais o racismo, o sexismo e a homotransfobia.

“Todo sistema de dominação tem lacunas e é para essas lacunas que a
minha pesquisa aponta”

Artistas e ativistas, ao gerarem materiais dispostos no YouTube enquanto plataforma de informação, não dimensionam de fato a expansão deste material em rede, em especial quando o engajamento se dá em outras redes sociais de interação (fora do YouTube).

Este é o cerne da minha investigação: como podemos criar utopias intencionais, reafirmando discursos, usando os próprios algoritmos dessas plataformas controladas por conglomerados comunicacionais, tais quais o Google Inc. (no caso do YouTube) ou a Facebook Inc. (nos casos do Instagram e Facebook).

Neste momento, tanto em minhas investigações artivistas quanto acadêmicas, tenho concentrado esforços no projeto Ofó Nkonsonlives que acontecem prioritariamente no YouTube para difusão de discursividades e narrativas de agentes e militantes de diversas esferas sociais.

Usando conhecimentos sobre o funcionamento dessas plataformas, estamos criando uma comunidade intencional em torno do aprender e discutir sobre assuntos polêmicos e que não têm tanta aderência nas comunidades mais pobres, por serem considerados “difíceis”. A ideia é criar espaços de propagação de informação como tática para a formação dessa população.

Outro projeto para o qual estou rumando (um pouco mais ousado) é o Fogo no Parquinho, que virou materiais em audiovisual e tem por objetivo trazer a polêmica gerada em minhas postagens no Facebook para uma discussão mais especializada, em que temas nos quais perpassam os direitos individuais, são discutidos sobre à luz de legislações ou teorias, numa linguagem mais direta, justo para desmistificar as falácias sobre estes temas. Creio que são assuntos distorcidos, em especial, por comunidades religiosas em nosso país.

Como é a sua rotina de trabalho? Que infraestrutura (financiamento etc) a mantém?

Em nenhum dos projetos que estou no momento conto com financiamentos. Nem sequer a minha investigação acadêmica foi financiada por uma instituição de pesquisa. Hoje, sou gestora cultural na Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e, por ter uma fonte de subsistência, isto me faz investir tempo em projetos como o Ofó Nkonson, ou o Fogo no Parquinho.

Pretendo investir em um pós-doutorado, para dar continuidade a essa pesquisa, apontando mais efetivamente para a criação das comunidades intencionais.

Ofó Nkonson me solicita pelo menos dez horas semanais em estudos e geração de material para a lives, além da difusão do próprio projeto.

Fogo no Parquinho nasce como projeto quinzenal, justo por isso, para que sua produção não me solicite um tempo para além do que posso oferecer no momento.

Em ambos, surgidos durante o distanciamento social provocado pela atual pandemia do novo coronavírus, estar reclusa me proporciona tempo para maturação dos temas e das táticas de difusão.

“Criamos a ilusão de que pensamos como queremos, mas pensamos como
querem as corporações”

Como você explicaria a importância, o fascínio do seu interesse de pesquisa a um leigo?

Eu invisto meu tempo, minha pesquisa e minha militância em tornar discursos — relevantes para uma mudança de mundo — visíveis, pois vejo que muitos agentes sociais importantes para efetivar mudanças estão na invisibilidade.

Tento tornar as vozes de mulheres, em especial mulheres negras, ouvidas por muitos, utilizando redes sociais digitais como aliadas.

Quais impactos você enxerga na sua pesquisa? Na área, para a sociedade, entre outros.

Vivemos há mais de três décadas um paradigma digital, porém, não nos damos conta que, desde 2012, houve um aumento expressivo da utilização de aparatos tecnológicos e muito das nossas relações interpessoais estão sendo mediadas por redes sociais digitais.

Creio que, minha pesquisa dá a ver que nada é controlado exatamente pelo usuário, mas como todo sistema de dominação, esses também têm lacunas e é para essas lacunas que a pesquisa aponta, ou seja, para como tornar visíveis agentes aproveitam essas táticas de utilização dessas plataformas.

Para isso, a investigação “conta” e dá a ver o “como faz?” nas redes sociais digitais.

Por que pesquisar?

Por alguns motivos…

Temos a ilusão de sermos sujeitos ativos em nossas escolhas. O paradigma digital tem provado que isso é uma ilusão, e cada vez mais esse sistema de algoritmos tem reforçado o controle que apenas três empresas comunicacionais no mundo têm sobre nossos processos de subjetivações.

Subjetivar num universo dominado por tecnologias precisa ser um ato consciente, pois não temos controle da nossa narrativa ao usarmos determinadas ferramentas sem algum grau de criticidade sobre elas.

Nesta cadeia social, o corpo negro está constantemente atacado por essa construção e controle de narrativa hegemônico e pouco se fala nisso. Em sendo nossa mundividência mediada, eu-sujeito crio a ilusão de que “penso” como quero (ou consigo), mas em realidade eu penso como estas corporações me fazem crer.

Criar comunidades intencionais que operem em redes sociais digitais tem a ver com processos de descolonização do pensamento, com a construção de outros futuros, outras mundividências.

Isto se pode tornar um recurso de empoderamento para o povo negro, para além das lutas empreendidas fora das redes. É um embate entre corpo, ética e algoritmo.

Essa é minha cachaça.

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2 Comentários

Da Pesquisa Brasileira | Jaqueline Vasconcellos: Afrofuturismo, plataformas digitais e subjetividade

  1. Parabéns. Obrigada pela partilha. Gostei muito de ler, pensar sobre os conceitos, a linha de pensamento. Um muito obrigado também ao Duanne Ribeiro por ter partilhado no grupo de Ciência da Informação no facebook. beijinhos de Portugal

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