Releitura de um poema de Álvaro de Campos e crítica do racismo estrutural

O escritor Rodrigo Mesquita publicou no seu perfil do Facebook uma forte releitura do Poema em linha reta, obra de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). Ambos os textos são uma crítica do reino das aparências: Pessoa fala de um mundo em que mostrar fraqueza ou fracasso é o maior dos pecados; Rodrigo aponta a hipocrisia dos que negam um racismo que marca a sociedade de maneira estrutural. Publicamos abaixo os dois. Conheça além disso o livro de contos de Rodrigo e as leituras de Campos por Maria Bethânia e Antônio Abujamra. Há também interpretações musicais – esta, da Patife Band, e esta, da Allie’s Glove (mais livre), são exemplos.

Veja também:
>> “Para acabar com o tráfico tem que botar fogo no jardim?” e
>> “A tribo que expulsava seus membros lhes dando cenouras“, ambos do Rodrigo

Poema em Linha (p)Reta
Rodrigo Mesquita

Nunca conheci quem tivesse sido racista
Todos que conheço têm sido corretos em tudo
E eu, que conheci tanta gente moderna, tanta gente fina, tantos descolados
E tantos deles irrespondivelmente classe média
Indesculpavelmente brancos

Eu, que tantas vezes os vejo temendo os favelados
Eu, que tantas vezes tenho os visto protagonistas, salvadores, salvadores
Que vêm valorizando culturas afro para cumprirem etiqueta
Que têm sido grosseiros para que sejamos tolerantes
Que têm vistos injúrias raciais calados
Que quando não têm se calado, no instagram são mais ridículos ainda

Eu, a quem destinam à criadagem em hotel
Eu, que sou chamado a ser o moço que carrega fretes
Eu, que vejo suas firulas financeiras, mas pechincharem quando me devem
Eu, que quando a quarentena surgiu, os deixei confortáveis
Protegidos pelas minhas costas expostas
Eu, que sou culpado até pela atual política
Pois fui ignorante, o não-letrado do mundo

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato racista, nunca expressou o velado
Nunca foi senão princesa – todos eles princesas – Isabel
Quem me dera ouvir de alguém a voz encardida
Que confessasse não um deslize, mas sua ojeriza
Que não ocultasse seu medo de lavar a própria pia
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam
Quem há neste largo Brasil um branco que me confesse que uma vez foi racista
Ó, não, me chamam de irmão

Acham que só nazista é vil e errôneo nesta terra?
Poderão se admitirem privilegiados
Poderão ter sido mal-interpretados – mas racistas nunca!
E eu, que tenho sido elogiado por me sentir ofendido
Como posso eu falar com gente tão bacana sem titubear?
Eu, que tenho sido servil, literalmente servil
Servil no sentido mais explorado da cor e da pobreza
Argh! Estou farto dos simpatizantes
Argh! Onde que há racistas? São eles sempre o outro no mundo?

Poema em linha reta
Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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