Faço um desafio ao leitor que concorda com essa tese: dê um exemplo de extremismo do Partido dos Trabalhadores nos 14 anos em que ficou à frente do governo federal

imagem: Eugenio Hansen

Nas últimas semanas, com a ascensão do candidato petista Fernando Haddad ao segundo lugar nas pesquisas de intenções de voto, e a manutenção do candidato Jair Bolsonaro como líder nesses mesmos levantamentos, intensificou-se a propagação de dois tremendos absurdos por parte de alguns candidatos – mais destacadamente Geraldo Alckmin e Ciro Gomes – e de muitos eleitores.

O primeiro desses absurdos é o de que o PT é extremista.

Faço um desafio ao leitor que concorda com essa tese: dê um exemplo de extremismo do Partido dos Trabalhadores nos 14 anos em que ficou à frente do governo federal. Apenas um exemplo.

Enquanto Lula e Dilma estiveram na presidência da república, o PT sequer foi de esquerda – que dirá de extrema esquerda. É quase um consenso que os governos petistas foram, no máximo, de centro-esquerda, pois poucas pautas caras à esquerda foram de fato aplicadas. Na verdade, se analisarmos bem, tudo o que o PT fez “de esquerda” não foi nada além do mínimo de justiça social que um governo pode – e deve – fazer. Ou seja: não foram exatamente políticas de esquerda, mas políticas que seriam – ou deveriam ser – adotadas por políticos de qualquer espectro político.

A menos que gerar empregos, reajustar o salário mínimo acima da inflação e inaugurar universidades federais, três das ações mais importantes dos governos petistas, possam ser chamadas de políticas extremistas.

O PT tem algumas posições que podem ser chamadas de inconsequentes, irresponsáveis e/ou infantis, e elas precisam ser corrigidas. Por exemplo, o fato de exaltar a democracia venezuelana em vez de fazer críticas à situação do país, ou certas frases de integrantes da cúpula petista que podem ser consideradas extremistas (refiro-me às frases e a alguns integrantes). Mas qualificar de “extremista” todo o partido e/ou os governos petistas é uma grande bobagem.

O segundo absurdo é dizer que a ascensão de Jair Bolsonaro é culpa do PT.

O Partido dos Trabalhadores já é culpado por coisas demais – pelo ProUni, pela ampliação do Bolsa Família, por dar mais direitos às empregadas domésticas, por dar aos filhos de milhões de famílias a oportunidade de acessar – e ter condições de concluir – o ensino superior.

É claro que o PT também é culpado por não preparar o país para uma eventual crise das commodities, um dos motivos da crise em que nos encontramos; por não ter lidado corretamente com essa mesma crise logo no seu início; por não ter rompido as amarras do nosso nocivo presidencialismo de coalizão; por ter feito alianças espúrias… Mas daí a dizer que Bolsonaro é culpa do PT já é demais.

Bolsonaro é o resultado de muitas coisas: do desespero do cidadão médio com a segurança pública e com as notícias de corrupção; do nosso sistema educacional precário, que não dá plenas condições para os estudantes poderem ler e analisar criticamente o mundo à sua volta (segundo pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, apenas 8% da população brasileira tem o nível “proficiente” de leitura, ou seja, apenas 8% da nossa população tem condições de ler e compreender plenamente um texto); e, claro, do nosso sistema político, que, em vez de procurar soluções para os problemas da população menos favorecida, procura, salvo exceções, soluções para problemas dos mais ricos, além de formas de desviar mais dinheiro público para os próprios bolsos.

Dizer que o bolsonarismo é “um movimento que só se sustenta grudado pela cola do anti-petismo” ou que “racismo, misoginia, homofobia, militarismo e nacionalismo (…) encontram morada no bolsonarismo” mas que eles só “emergem e se solidificam como anti-petismo”, como afirmou em texto publicado no Facebook o professor Idelber Avelar, é no mínimo despropositado.

O bolsonarismo, que, intelectualmente falando, é um movimento rasteiro, tosco e sem pé nem cabeça, afirma que até mesmo Geraldo Alckmin é “comunista”. Ou seja: os bolsonaristas não são apenas antipetistas, eles são anti qualquer coisa que chegue perto do centro, ou que se proponha a ser uma direita razoável.

E sobre racismo, misoginia, homofobia etc., é um tanto quanto óbvio que essas características, infelizmente, são próprias de parcela considerável da população brasileira. Ou seja: tudo isso já existia no Brasil, só que de maneira velada. A ascensão de Bolsonaro e da direita tosca que pegou carona em sua popularidade, na esteira das manifestações de 2013 e 2015, só fez com que isso fosse explicitado.

Afirmar que o PT é extremista não ajuda a melhorar o ambiente odiento em que se transformou a política brasileira. Pelo contrário: só o torna pior e mais confuso, e alimenta o antipetismo. E, no caso de Geraldo Alckmin e Ciro Gomes, isso muito provavelmente não ajuda a ganhar um voto sequer.

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