Fernando Morais

Na Bienal do Livro de São Paulo, Fernando Morais respondeu às perguntas de Capitu a respeito do seu processo do trabalho, do que pensa sobre Paulo Coelho e sobre o que fará agora, com a biografia pronta. As perguntas exclusivas da revista se unem a outras questões formuladas por jornalistas presentes à entrevista coletiva não-planejada, que se formou assim que Morais chegou ao estande da editora Planeta.

Capitu — Por que o senhor escolheu o Paulo Coelho como biografado? Quais foram os seus motivos?

Fernando Morais — Olha, porque… [usa os mesmos termos do livro para se explicar] porque ele é o único escritor vivo mais traduzido que Shakespeare, porque ele vendeu 100 milhões de livros no mundo inteiro, porque ele deixou de ser apenas um autor de sucesso pra se converter num fenômeno pop planetário; eu viajei com ele pelo mundo inteiro e aonde quer que ele vá tem multidões interessadas em falar com ele, em vê-lo, em pedir autógrafo. Da Patagônia à Sibéria, não há um único lugar aonde ele vá que não junte uma pequena multidão querendo ter algum tipo de contato. Então, acho que isso é razão mais do que suficiente pra ele ser objeto do meu interesse.

Capitu — Na sua opinião, por que a biografia fez tanto sucesso?

Morais — Primeiro que é preciso esclarecer que é uma biografia independente, é uma biografia em que o autor não meteu o bedelho nela, ele só leu esse livro quando já estava impresso, estava lendo junto com cem mil brasileiros. Isso, o fato de ser uma biografia com revelações pesadas sobre um brasileiro popular como o Paulo produziu um resultado surpreendente; o livro está em todas as listas de mais vendidos e a partir de outubro começa a sair em 47 países. Então, é isso. Eu acho que o Paulo chamaria atenção por ser ele quem é; por ser o fenômeno planetário que é, chamaria atenção de qualquer forma, mas acho que está fazendo esse sucesso todo sobretudo pelas revelações.

Capitu — Qual a impressão do senhor sobre a personalidade do Paulo Coelho? Se puder resumir, como ele é?

Morais Se eu pudesse resumir numa palavra, eu diria que ele é um obstinado. Ele é um sujeito que passou a vida inteira querendo uma única coisa: ser o que ele é hoje. Um autor lido e respeitado no mundo inteiro.

Capitu — Raul Seixas não ficou numa posição muito secundária na história, mesmo sendo o grande músico que foi?

Morais — O Raul tem, nesse livro, a dimensão que ele teve para a vida do Paulo. Se você fizer as contas, vai ver que foi uma parceria curtíssima no tempo: um ano e meio depois deles terem se encontrado pela primeira vez, já não havia mais nada. Depois teve uma tentativa de ´reconciliação´, que não deu certo — pois eles nunca brigaram. O Paulo nunca quis ser roqueiro. O Paulo quis ser o que ele é. O Paulo nunca quis ser dramaturgo. O Paulo nunca quis ser jornalista. Nunca quis ser executivo de multinacional fonográfica. Ele queria ser o que ele é hoje., um escritor.

Capitu — O senhor mudou alguma coisa no livro? Mudou, romanceou? Criou algum elemento ficcional?

Morais Não. A minha concessão máxima é estética é procurar dar um trabalho literário ao texto jornalístico. Mas literário não significa ficcional. Literário significa um texto elegante, um texto fluente.

Capitu — Mas tem muita tensão, como é que você consegue manter essa tensão?

Morais — Escolha do personagem. É a escolha do personagem. Porque eu passo por dez livros e não pifo, e acabo pegando um Paulo Coelho e todo mundo se surpreende? Tem dois tipos de personagem para se biografar: aquele que é muito conhecido e as pessoas já têm curiosidade sobre a vida dele, que é o caso do Paulo e do Chatô; e aquele que é desconhecido, que é o caso da Olga e do Montenegro, e que o biografo revela para o leitor, revela o personagem inteiro. No caso de O Mago, o que dá tensão, o que transmite a emoção para o leitor, é a história dele. O que eu fiz? A única coisa que eu fiz foi escolher os fatos da vida dele e montar uma estrutura que pode ou não ser cronológica — no caso do Chatô, não era cronológica.

Capitu — Como é o seu processo de trabalho? Como produz as suas biografias?

Morais — Varia de personagem para personagem — cada um tem uma história diferente. Portanto, cada um acaba me obrigando a fazer um tipo de pesquisa diferente. Eu me valho basicamente de entrevistas — o maior número possível de entrevistas, o maior número possível de pessoas que eu puder localizar pra entrevistar — e de acervo, de material de arquivo. Depois de que eu tenho isso na mão, depois de que eu consigo juntar isso… em casos como o do Paulo, que a quantidade de material foi muito grande, eu tive que montar um banco de dados na Internet e criar um programa especial pra eu poder acessar as informações que eu estava querendo localizar. E aí é sentar e escrever, sentar e sofrer.

No caso dessa biografia, eu passei três anos… [interrompe a entrevista por um momento enquanto procura algo numa bolsa]… deixa eu tentar achar um remédio aqui… se é que está aqui… não, não está… [logo depois, coloca uma caixa de charutos Jewels Vanilla, com cinco unidades, sobre a mesa] … no caso do Paulo, eu tive de montar um banco de dados e criar um programa de computador especial pra eu acessar as informações. E depois é sentar e sofrer, sentar é escrever.

Capitu — Foram três anos de trabalho?

Morais — Três anos de pesquisa e um ano de redação, texto.

Capitu — O mesmo com Chatô [Chatô – O Rei do Brasil (Companhia das Letras, 2001), biografia do magnata brasileiro Assis Chateaubriand]?

Morais — Não, Chatô foi diferente porque eu larguei no meio, fui ser secretário de Cultura, então, não sei dizer exatamente quanto tempo levou. Do começo ao fim, durou sete anos; mas no meio parei, parei três anos, não saberia te dizer.

Capitu — E o filme do Chatô, vai sair?

Morais — Espero que vá. O Guilherme [Guilherme Fontes, diretor acusado de mal uso de verbas governamentais de apoio à cultura. Em 22 de fevereiro de 2008, foi condenado pela Controladoria-Geral da União (CDU) a devolver R$35mi aos cofres públicos, por não-cumprimento do contrato] me disse que o filme tá pronto, só falta editar. Ele disse que ainda esse ano a gente já assiste o filme.

Capitu — Já te procuraram para produzir um filme da biografia do Paulo?

Morais — Já tem cinco propostas. Quatro propostas de produtores brasileiros e uma norte-americana.

Capitu — E o próximo biografado, já tem noção de quem pode ser?

Morais — [sorri] Quero descansar, quero passear de motocicleta agora.

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