“É preciso se abrir a pensar. Pesquisar é um jeito de experimentar o mundo, com muito menos passividade”

Este artigo faz parte da série Da Pesquisa Brasileira, sobre quem cria conhecimento no Brasil
imagem: Raquel Camargo

Além de poeta e cronista, Ana Elisa Ribeiro é doutora e pós-doutora em linguística aplicada, possui um segundo pós-doutorado na área de comunicação, é mestre em estudos de linguagens e bacharel em letras, com habilitação em tecnologias da edição. No doutorado e no mestrado, trabalhou as relações entre os dispositivos tecnológicos, a leitura e a escrita; atualmente, está mais focada em recuperar as histórias das mulheres da editoração brasileira (nesse sentido, leia, por exemplo, os artigos sobre a Boitempo e sobre a Chão de Feira e a Relicário). Ana está à frente dos grupos de pesquisa Escritas profissionais e processos de edição e Mulheres na Edição, e também é professora da graduação e da pós-graduação no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. Nesta entrevista, ela fala das dificuldades em conciliar “uma vida comum, de pessoa adulta”, com tudo o que a universidade exige, das deficiências estruturais da academia e do que quer dizer para ela pesquisar: “Para quem está a fim de fazer perguntas e escarafunchar respostas, a pesquisa pode ser fascinante e vital. O que me move é alguma pergunta sem resposta, que me seduz profundamente, que me torna um ser incompleto. Não seremos completos nunca, mas algumas respostas nos saciam. Há algo de vício nisso também”. Acesse o seu Lattes.

imagem: Raquel Camargo

Quais seus interesses atuais, o que te levou a eles e o que pretende realizar?

Meu interesse atual e de sempre é pesquisar a leitura e a escrita. Isso significa um universo imenso de coisas, em especial no nosso país, onde essa é mesmo uma questão problemática. Leitura e escrita podem ser investigadas de muitos ângulos e eu sou formada em letras, linguística, daí um certo olhar para as questões educacionais e cognitivas. Mas tenho também usado um ferramental que trata a leitura como prática social — enfim, nunca terei paz nesse assunto. Dentro disso, focalizei o contexto afetado pelas tecnologias digitais, desde os anos 1990. E nos últimos sete ou oito anos, as questões editoriais têm sido minha principal preocupação. De 2017 para cá, trabalho mais firmemente numa pesquisa que investiga a história de nossas editoras mulheres, isto é, minha agenda de pesquisa tem então um viés de gênero que é fundamental para uma compreensão menos lacunar da história das pessoas que publicaram outras no Brasil.

O que me leva aos meus projetos são minha curiosidade e meu envolvimento pessoal nessas questões. Uma das missões da minha profissão é formar leitores e escritores, é assim que entendo meu grau de licenciada em português. É justo que eu me envolva intensamente com estes assuntos. Mas escolhi minha profissão, lá atrás, guiada pela paixão pela leitura, pela língua portuguesa, pela escrita, pelas línguas em geral, pelos livros, pelas tecnologias que afetam tudo isso em cada tempo e pela ideia geral de que há muito a se fazer nesse setor. Queria me sentir um tantinho útil ou, melhor contextualizando, menos inútil. Às vezes consigo, mas é bem difícil porque tudo o que acontece às pessoas depende de uma sociedade inteira e de seus governantes, por exemplo. Mais praticamente: com as pesquisas atuais, quero produzir algumas narrativas sobre mulheres que foram e são fundamentais para a edição no Brasil, e que foram sempre omitidas ou desconsideradas em suas empreitadas. Nem as novas editoras conhecem suas predecessoras direito. Já tenho algumas coisas publicadas. Basicamente, é preciso rever, reler, redescobrir e narrar, mostrar, explicitar, iluminar. Já fizeram isso antes, esparsamente, e estou dando relevo à atuação dessas mulheres, nesse papel social tão poderoso que é o do/a editor/a.

Veja também:
>> série Trouxeste a Chave?, com depoimentos de editores brasileiros sobre o seu ofício

Como é a sua rotina de trabalho? Que infraestrutura (financiamento, etc) a mantém?

Eu gostaria muito de ter uma “rotina de trabalho”. O que consigo fazer é intercalar uma vida comum, de pessoa adulta, mãe, dona de casa, com tarefas de toda sorte em uma escola pública federal de prestígio, mas que luta para se manter com qualidade, sofrendo muitos golpes a todo momento. Eu sou e quero ser uma pesquisadora séria no Brasil, mas é difícil que isso seja levado a sério por forças externas à minha vontade. Tenho um financiamento de pesquisa do estado de Minas Gerais, mas o dinheiro nunca chegou. Apesar disso, como a pesquisa está vigente, eu e um grupo de colegas fazemos o que precisa ser feito, na esperança de que sejamos efetivamente contempladas. O que temos feito é responder às altas exigências de órgãos superiores federais como se alguma condição infraestrutural ou financeira existisse, [o que não é o caso] para instituições em geral, mas em particular para as que não fazem parte de um pequeno grupo de elite.

Há problemas em todas as esferas, das mais distantes às mais próximas, mas o que faço é tentar alcançar meus objetivos e traçar um modo de trabalhar que não me torne uma pessoa profundamente frustrada e infeliz. O jeito é manter a sanidade, tanto quanto possível, e evitar conversas atravessadas com gente preconceituosa. Neste meio, a competição é grande e muitas vezes cínica. Trabalho, como pesquisadora, em condições bem precárias, numa insegurança terrível em relação a diretrizes, regras, possibilidades, então o que posso fazer é investigar seriamente, publicar os resultados seriamente e me mexer para tornar um pouco mais difícil que ignorem meu/nosso esforço. Não quero parecer ingrata com as conquistas dos grupos de que participei ou participo e nem quanto à instituição em que atuo, mas não se pode acomodar numa situação precária por gratidão. A gratidão tem de ser algo bom, e não uma desculpa boa para aqueles que só desejam precarizar as condições dos/as pesquisadores/as. Não vou contribuir com eles (e há deles dentro e fora das escolas).

Minhas pesquisas sempre tiveram um forte componente do contemporâneo: coisas novas surgiam na sociedade e meu incômodo era saber como elas interferiram em nossas práticas

Como você explicaria a importância, o seu fascínio pelo seu interesse de pesquisa a um leigo?

A pesquisa é o que revolve coisas aparentemente desconhecidas, paradas ou que pareciam resolvidas, ou as coisas que nos desafiam diariamente. Dizem que o motor da pesquisa é a curiosidade, mas isso nem é tão verdade. Há mais motores, como a vaidade, a distinção, a competitividade etc. Para quem realmente está a fim de fazer perguntas e escarafunchar respostas, a pesquisa pode ser fascinante e vital. Do meu TCC de graduação até meu pós-doutorado mais recente, o que me moveu foi mesmo alguma pergunta sem resposta, alguma coisa que me seduzia profundamente, que me tornava um ser incompleto. Não seremos completos nunca, mas algumas respostas nos saciam, impermanentemente, alguma sede transitória, até vir outra. Há algo de vício nisso também. Aprendemos a pesquisar como quem precisa estar sempre explorando arquivos, livros, pensamentos, coisas, o mundo.

Meu interesse pela pesquisa é anterior à minha formação universitária. Na universidade pública, aprendi como fazer, com algumas e alguns mestres. E depois segui em busca de alguma condição de que a pesquisa fosse, realmente, parte da minha vida e das minhas atribuições. Mesmo assim, não é fácil manter. Sempre sinto que estou me defendendo. Minhas pesquisas sempre tiveram um forte componente do contemporâneo: coisas novas surgiam na sociedade e meu incômodo era saber como elas interferiram em nossas práticas (de leitura e escrita, por exemplo, de comunicação, de maneira ampla). Então eu realmente queria saber de coisas que vinham numa onda nova, tentando não ser futuróloga e jamais desprezando o conhecimento histórico.

Um/a leigo/a talvez tenha interesse em saber o que faço e como faço. É certo que lidamos com iniciantes o tempo todo (dou aulas do ensino médio ao doutorado) e geralmente identificamos esses/as tais leigos/as pelo olhar, pelo jeito de interagir conosco e com outro/as, pela febre por algum assunto, pela postura. Alguns chegam assim, outros aprendem no caminho. Muitos não chegam e nem desejam aprender. Estão envolvidos em outras coisas do mundo e da vida. O importante é que alguns/mas se envolvam com a pesquisa. E disso sempre haverá. E dá um prazer imenso encontrar essas pessoas, que deixarão de ser leigas; pessoas que teremos a alegria de acompanhar (no melhor sentido possível); pessoas que vemos em pleno desenvolvimento e depois no voo. Então, também é fundamental certa dose de generosidade.

Busco narrativas de mulheres que foram importantes para a publicação de livros. Sem essas mulheres, algumas coisas que já eram pensadas e discutidas em países e cidades que admiramos e sobre os quais vivemos sonhando e tomando como exemplos, jamais chegariam aqui

Quais impactos você enxerga na sua pesquisa? Na área, para a sociedade, entre outros.

Isso é bem difícil. Geralmente, o impacto da nossa pesquisa é contextualizado, específico. Em muitos casos é social, é mais amplo, mas muitas vezes não parece visível. As pessoas geralmente não sabem quantas e quais pesquisas estão sendo desenvolvidas neste exato momento. Nem nós pesquisadores/as sabemos. Uma pesquisa sobre a cura de uma doença pode existir em diversas áreas, ao mesmo tempo. Muitas vezes, são necessários consórcios para produzir algum resultado. Isso significa investir tempo, dinheiro, vidas dedicadas. Uma pesquisa em história do Brasil pode demorar a produzir impactos mais amplos. Pesquisadores descobrem, por meio de arquivos, por exemplo, as relações entre escravos e senhores, mas isso não aparece em nenhum livro didático amplamente usado. Continuamos aprendendo história como se fossem contos da carochinha. Estou querendo dizer que alguns impactos vêm, mas demoram a vir.

Um jeito de nos fazer mais conscientes dos resultados importantes de pesquisas é investir no que chamam de “divulgação científica”, mas também não é exatamente fácil. Na área de letras, recentemente tomei conhecimento de revistas muito amigáveis que buscam explicar ao público leigo ou não especializado algumas coisas sobre as línguas, nosso português, nosso processamento de leitura etc. No entanto, o público que lê isso é pequeno. E a mídia mais popular não se interessa por esses assuntos. Vivemos num país em que as pessoas têm coragem de atacar a universidade pública e gratuita, as escolas públicas em geral, os/as professores/as etc. É como cuspir para cima. Impressionante o que fizemos de nós.

Na minha pesquisa, busco narrativas de mulheres que foram importantes para a publicação de livros. Mesmo que pareça pouco, essas mulheres e seus projetos editoriais, alguns de mais, outros de menos fôlego, agiram politicamente (em sentido amplo) e fizeram circular por aqui ideias que abriram nossos horizontes ou pelo menos nos deram essa possibilidade. Há quem queira abrir seus horizontes; há quem queria escolher se abre ou não; e há quem os queira curtinhos mesmo. É muito triste viver sem possibilidades, sem escolhas. Sem esses projetos dessas mulheres, algumas coisas que já eram pensadas e discutidas em outros lugares, inclusive países e cidades que admiramos e sobre os quais vivemos sonhando e tomando como exemplos, jamais chegariam aqui. O impacto do trabalho dessas editoras foi lento, mas se mostra cada vez mais. Minha pesquisa quer tornar isso mais evidente, um pouco mais conhecido. Quando alguém disser que inventou a roda, poderá dar três cliques, pesquisar no Google e encontrar algo que conta uma história sobre uma roda inventada há décadas. Isso, em tese, torna as pessoas mais conscientes de suas mudanças, sucessões e guinadas, ou mesmo de sua ignorância, o que já é legal.

Por que pesquisar?

Antes seria importante saber um pouco o que é pesquisar. Mas suponhamos que eu já tenha mencionado algo sobre isso, digamos que pesquisar seja uma necessidade humana básica. Você provavelmente pede opiniões aos outros quando quer algo, você compara preços, você tenta descobrir como fazer certas coisas, você procura respostas às suas inquietações, você talvez aja assim em muitos setores da sua vida. Na nossa sociedade, pesquisar, num sentido mais profissional, é uma espécie de protocolo, um modo de fazer e de responder a questões ou “problemas”. Com o passar dos séculos, pesquisar, em sentido acadêmico, foi se tornando um campo do saber, um metaconhecimento, um roteiro auto e alteravaliado. Na faculdade, geralmente temos disciplinas de metodologia da pesquisa e de produção de textos específicos para publicar e divulgar resultados. Muita gente encara a pesquisa acadêmica como uma espécie de receita, usando livros onde os desenhos de pesquisa estão descritos e vêm meio prontos. Já me aconteceu de ler uma dissertação linda, mas que tem um capítulo completamente desconexo, chamado Metodologia. Uma coisa parecida com um enxerto mal feito, em que o/a autor/a demonstra seus conhecimentos quase plagiários do que seja um ‘estudo de caso’ ou uma ‘pesquisa documental’ ou um ‘grupo focal’ etc. Ok. É preciso saber mesmo. Mas é preciso saber com pertinência. É preciso fazer bem a costura. E há espaço para a criatividade em pesquisa. Também li dissertações e teses em que o/a pesquisador/a precisou criar um jeito de captar, capturar, gerar, coletar, visualizar, recortar seus dados. Os protocolos prontos não resolveriam completamente a questão. Enfim: é preciso estar aberto/a a pensar. Pesquisar é um jeito de experimentar o mundo, com muito menos passividade.

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