Política

Mais Um Dia Normal em Naypyidaw

“Se o tal vídeo tivesse legendas em português, elas diriam: ‘as instituições democráticas seguem funcionando normalmente…'” | imagem: reprodução Facebook

 

Naypyidaw, a jovem capital projetada da República de Mianmar (ex-Birmânia) cujas largas avenidas planas e desertas lembram um pouco a nossa Brasília dos primeiros anos, serviu de cenário para o vídeo que correu o mundo: uma professora de aeróbica, em trajes de ginástica, gravava uma “live” dançando ao ritmo de música eletrônica, enquanto atrás dela um comboio de veículos militares, seguido de dezenas de soldados a pé, cruzava o que parece ser o “Eixo Monumental” deles rumo ao parlamento nacional. Era o alvorecer de um golpe militar que botou na cadeia o presidente eleito Win Myint e a conselheira de Estado (cargo equivalente a um primeiro-ministro) Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz de 1991, e instaurou em seu lugar um general, sabe-se lá por quanto tempo (da última vez, os militares governaram o país por 49 anos).

 

Várias análises são possíveis a partir deste registro inusitado e tragicômico. A História se desenrola na surdina, em reuniões fechadas nos quartéis, nas casas de lideranças partidárias ou grupos secretos de WhatsApp ou Telegram, enquanto a população em geral permanece alheia, como a professora de aeróbica do vídeo. Ao mesmo tempo, a vida das pessoas comuns parece seguir em frente enquanto os comandantes – militares ou civis – lutam entre si pelo poder, pois a dança no vídeo não é interrompida. Também é interessante perceber como a modernidade globalizada do Século XXI – a dança aeróbica, a roupa de ginástica, a música eletrônica e o próprio advento da “live” para transmissão em redes sociais – convive com as mazelas dos séculos anteriores, como o fascismo, o militarismo e suas quarteladas. Por fim, é um registro da fragilidade da democracia, golpeada de morte em uma manhã banal, com direito a dancinha e tudo.

No Brasil, não faltou quem associasse a dançarina de Mianmar à alienação da população distraída com o BBB na televisão enquanto o bolsonarismo avança1 no plano de fundo, vencendo a presidência do Senado e Câmara dos Deputados. É possível associar também a dançarina às próprias instituições democráticas brasileiras, fingindo não enxergar os seguidos ataques do Presidente da República a todos os princípios de decoro, transparência, dignidade, humanidade… a lista só aumenta desde 2019. Se o tal vídeo tivesse legendas em português, elas diriam: “as instituições democráticas seguem funcionando normalmente, não há nada para se preocupar…”

Entre os generais da distante Mianmar, este empobrecido território cercado de cadeias montanhosas entre a Índia, Tailândia, China e o Oceano Índico, e o discurso do trumpismo e do bolsonarismo nas Américas, há mais semelhanças que supõe nosso preconceito ocidental. Lá, justificaram o golpe militar e a prisão dos mandatários alegando “fraudes eleitorais”. Trump fez a mesmíssima acusação para se manter no cargo, e seus apoiadores protagonizaram uma canhestra invasão do Capitólio em Washington que só rendeu cenas patéticas, prisões e algumas mortes (a maior parte por ataque cardíaco de trumpistas que “foram para a guerra” sem consultar o cardiologista antes). Bolsonaro segue falando em fraudes nas eleições vencidas por ele mesmo e ameaçando, sempre de forma velada, usar a mesma acusação caso venha a perder a reeleição em 22. Nenhum deles se preocupa em apresentar provas ou evidências, basta-lhes a narrativa. Mao Tse Tung dizia que “todo poder emana do cano de um fuzil”. Já o filho deputado do presidente disse que, para fechar o Supremo, bastam um cabo e um soldado (ou seja, não precisa de justificativa). Uma vez instaurados no poder, militares e fascistas sentem que não devem satisfação a ninguém. Tanto lá quanto aqui.

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